EDIÇÃO 88 » COLUNA NACIONAL

Fantasmas não existem – Parte I


Felipe Mojave
Nas duas próximas colunas, vou falar sobre uma mão interessante de pot-limit Omaha (PLO), em que um jogador da minha equipe dá um fold controverso. Você seria capaz de desistir de um flush nuts?
 
O jogador em questão é um dos melhores da Mojave Sports, Pedro Marte, que também está especializando em mixed games.
 
Nesta primeira parte, a análise do próprio Pedro da jogada:
 
“Neste texto, vou desenvolver o raciocínio de uma mão de pot-limit Omaha jogada na etapa de Foz do Iguaçu do BSOP deste ano, em que largo uma mão muito forte, mesmo possuindo um stack confortável. Esse torneio teve em torno de 100 entradas e terminei em 3º lugar. De uma forma geral, o torneio foi muito tranquilo para mim, pois sempre estive com o stack  acima da média e, em algumas situações, como chip leader.
 
A mão em questão ocorre quando o torneio possui 16 jogadores, na bolha do ITM. Em torneios de pot-limit Omaha, as bolhas, tanto de ITM como de mesa final, geralmente demoram para estourar, pois os torneios não possuem ante, então os jogadores com stacks curtos têm um incentivo para se segurarem, esperando que algum outro jogador seja a vítima da vez.
 
Minha mesa estava bastante tight e eu, com o maior stack, estava aplicando raises pré-flop na maioria das mãos e optando pela continuation bet em todos os flops e pelo second barrel em quase todos os turns. 
 
Após fold do UTG, eu, com um stack de 120 big blinds, abro a aposta com um raise de 2,5x, com AKKJ, uma mão forte, que justifica um raise de posição inicial em qualquer situação de jogo. Todos deram fold e o big blind pgou. O jogador no BB não estava short stack, possuía um stack mediano e estava jogando de maneira bastante tight.
 
O flop veio 67J, me dando um flush draw nuts em ouros mais top pair com top kicker e overpair. Após o check do BB, aposto três vezes o blind e sou pago rapidamente. O turn é um 2, deixando o bordo 67J 2. O Dois de copas é o que conhecemos como “blank”, uma carta que não muda nada na leitura e desenvolvimento da mão, como estamos jogando PLO, sempre existe a chance do oponente ter acertado a “blank”, com mãos como 8-9-2-2, 4-5-2-2 e outras combinações que são comuns de defesa de big blind. Porém, para o raciocínio da mão, não há relevância na carta do turn. O BB mais uma vez opta pelo check, e eu faço uma aposta de seis vezes o blind. Novamente, ele dá call. 
 
O river é um 10, me dando o flush em Ás e deixando o bordo 67J 2 10. Fico confortável com o river, pois sei que, pela minha imagem agressiva, vou conseguir extrair uma aposta de valor, recebendo call de trincas, sequências ou flushes menores. Para a minha surpresa, o big blind, que a essa altura da mão possui um stack de 40 big blinds, encerra a linha de check e faz uma aposta de seis vezes o blind, a mesma aposta que realizei no turn. Muitas vezes, esse tipo de aposta será uma blocking bet, que o oponente faz com algum jogo pronto para inibir que uma uma aposta maior do adversário que o deixe em uma situação difícil. Eu então faço um raise de 13 blinds, pouco mais que o dobro da aposta do oponente, com o intuito de ser pago por mãos que ele opta por esse blocking bet.
 
O oponente então fica sem se movimentar por quase cinco minutos, confere suas cartas e empurra seus 40 bbs para o centro. Nesse momento, eu começo a pensar em todas as variáveis da mão e me fazer algumas perguntas: “Será que ele está cansado de eu apostar e puxar todas as mãos dos últimos 30 minutos?”; “Será que ele acha que está ganhando a mão com um flush menor e que eu estou blefando?”; “Ele seria capaz de arriscar um stack mediano na bolha do torneio, mesmo com jogadores muito mais curtos que ele?”. Também considero um fator importante da mão: se eu tenho o Às e o Rei de ouros, só resta na mão do oponente o flush em Dama ou, quem sabe, o straight flush formado por 89. Após combinar todos os fatores: bordo, minhas cartas, situação do torneio, perfil do oponente, stacks envolvidos e ambos tells que consegui captar (demorar demais para tomar ação e conferir cartas antes de anunciar o all-in), decidi dar fold no meu flush em Ás, mesmo estando perdendo para apenas uma mão específica. Para meu contentamento, após eu jogar minhas cartas fora, o oponente apresenta AA89, um espantoso par de Ás e o já esperado Oito e Nove de ouros. Ele não só me mostrou o straight flush, mas também me fez perceber que eu estava correto sobre o seu perfil tight, que optou pelo flat call com par de Ases do big blind e optou pelo check-call tanto no flop como no river. 
 
Sem dúvida, foi uma decisão difícil no momento e que me economizou muitas fichas importantes. Talvez, no impulso de querer eliminar o oponente para estourar a bolha, outros jogadores não conseguiriam largar a mão. Esse fold me deu mais confiança no torneio e acabei conquistando meu primeiro troféu de PLO do circuito brasileiro”.
 
Na próxima edição, eu, Felipe Mojave, farei a minha análise sobre a mão.



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