EDIÇÃO 41 » FIQUE POR DENTRO

Filosofia do Poker: Uma Questão de Tolerância


David Apostolico
Eu recebi um e-mail recentemente de um leitor me perguntando se eu poderia lhe dar dicas para blefar. Para contextualizar, ele afirmava que estava tendo dificuldade em blefar. Essa foi a extensão do e-mail – duas frases. Era praticamente impossível, é claro, que eu desse qualquer conselho específico com informações tão escassas. O poker é um jogo bastante circunstancial e cheio de nuances. Blefar é apenas um aspecto do jogo, e não uma parte tão grande quanto os novatos imaginam ser.

Jogadores inexperientes são geralmente muito cínicos e pagam com bastante frequência, sem acreditar que seus oponentes têm cartas boas. Quando precisam blefar, esses mesmos jogadores inexperientes escolhem momentos bastante óbvios ou dão dicas tão claras que seria melhor jogar uma ficha com os dizeres “Estou blefando”. Blefar requer raciocínio, premeditação e preparação, e às vezes a capacidade de pôr os planos em prática. Saber quando um oponente está vulnerável é o primeiro passo, mas saber como manipular esse oponente é complicado e difícil de definir.

Essa coluna não pretende de modo algum ser um guia de blefes. Para aqueles que buscam um trabalho detalhado sobre o tema, eu indicaria a excelente obra de Matt Lessinger, O Livro dos Blefes. Contudo, o e-mail que recebi me fez pensar sobre se há ou não um conselho universal que eu posso dar sobre o tema – e a resposta é sim.

Todos nós toleramos mais ou menos risco. Cada um de nós tem sua própria zona de conforto, e mesmo essa zona específica pode variar dependendo da situação e dos limites envolvidos. Se você for tentar um blefe, precisa saber com precisão qual será sua tolerância ao risco. Você vai fazer uma tentativa ou duas ou três? Quanto você está disposto a arriscar? Se você não for bem sucedido, como vai se sentir e como irá reagir a isso?

Por exemplo, digamos que você seja o chip leader de um torneio que se aproxima da zona de premiação. Faz muita diferença se você irá tentar um blefe contra um pequeno stack, um stack médio ou um grande como o seu. Digamos que você tenha uma ótima leitura sobre um stack relativamente grande e conclua que é capaz de blefar e tirá-lo do pote, então você aumenta a aposta dele no turn de posição final. Ele paga. O river é uma carta inútil e ele agora atira uma aposta forte que soa como um steal. O que você faz? Você sabe que não poderá ganhar a não ser que o tire do pote. Você tem confiança de que um raise all-in alcançará seu objetivo. Eu não estou mencionando as cartas aqui de propósito, pois quero me concentrar na tolerância ao risco e à premeditação. A maior questão aqui é: você está pronto para ir de chip leader a short stack desesperado?

Essa pergunta deveria ter sido feita antes de você ter feito sua jogada no turn. Embora blefar seja bastante circunstancial e cheio de nuances, a verdade universal é que você jamais será bem sucedido nisso enquanto não compreender e aceitar totalmente sua zona de conforto quanto ao risco antes de se envolver. Talvez você se sinta perfeitamente confortável indo all-in no river no exemplo acima. Ou talvez você se sinta perfeitamente confortável dando fold e reconhecendo que sua tentativa única de dar steal no turn não funcionou. Mas se você resolver dar fold no tiver e se irritar consigo mesmo por ter desperdiçado fichas no turn, não deveria sequer ter feito aquela aposta. Sua tolerância ao risco é baixa e isso pode afetar seu jogo futuro.

David Apostolico é autor de Torneios de Poker e A Arte da Guerra e Estratégia Maquiavélica do Poker, em breve disponíveis em português pela Raise Editora.



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