EDIÇÃO 41 » ESPECIAIS

Phil Laak é Quebradeira

Altos e Baixos Incríveis no Caminho do Seu Primeiro Bracelete da World Series


Ryan Lucchesi
Londres é a cidade perfeita para entrevistar uma personalidade do poker que não corre o risco de se cansar da vida. O renomado escritor britânico Samuel Johnson certa vez disse: “Quando um homem estiver cansado de Londres, ele está cansado da vida, pois há em Londres tudo o que a vida pode proporcionar”. Mesmo depois de ter ficado acordado durante 115 horas seguidas, quebrando o recorde mundial do Guinness de maior sessão contínua de cash game, Phil Laak jamais se cansa do mundo ou do jogo que ele ama.

Sua curiosidade insaciável e talento natural no poker ajudaram a criar o enigma desse que é um dos jogadores mais originais e populares da atualidade. Suas habilidades comunicativas à mesa de poker não têm igual, apesar de um “Mouth” aqui e um “Poker Brat” ali, pois ele continua a entreter fãs de poker ao redor do globo em programas televisionados como o High Stakes Poker.

Sua energia natural flui no seu discurso enquanto ele se senta para uma entrevista no lobby do hotel Radisson Edwardian Hampshire, em frente ao Empire Casino, na Leicester Square em Londres, onde, poucos dias antes, alcançara o maior triunfo de sua carreira: ele ganhou o evento nº 1 (no-limit hold’em six-handed de £2.650) da World Series of Poker Europe, feito que lhe garantiu £170.802 e seu primeiro bracelete de ouro.

Há muitas coisas que você talvez já saiba sobre Laak. Seu relacionamento com a atriz de Hollywood Jennifer Tilly é bem conhecida, e sua amizade com Antonio Esfandiari também foi bem documentada, inclusive em um programa de televisão, I Bet You, em que os dois tentavam superar um ao outro em uma série de apostas. Mas o que você provavelmente não sabe é que Laak é um indivíduo bastante perceptivo que tem inúmeras opiniões interessantes sobre vários assuntos.

Uma entrevista com Laak é uma maratona. Em um momento, ele relembra, com hábil análise estratégica, cada uma das mãos importantes que ele jogou em uma sessão de poker e, no momento seguinte, passa a discutir literatura ou a solução das grandes mazelas sociais do mundo.

A variedade de tópicos em uma conversa com ele representa bem o ano de 2010 na sua vida. Ele ganhou notoriedade esse verão ao jogar poker durante 115 horas seguidas no Bellagio. Pouco depois de a World Series ter terminado, ele estava novamente nas manchetes, mas por um motivo infeliz. Ele relaxava após o longo verão em uma viagem com amigos em Oregon, quando sofreu um acidente automobilístico e se feriu gravemente.

O laudo dos ferimentos dizia o seguinte: cotovelo deslocado, braço quebrado, ossatura orbital parcialmente esmagada. Apesar do revés, e graças a um novo estilo de vida (que Laak discutirá mais adiante), ele viajou para a Europa e jogou o melhor poker de sua vida.

Laak evoluiu muito desde que se formou em engenharia mecânica, mas, para alguém tão imprevisível, isso não é nenhuma surpresa.

Por ora, ele continuará a se reabilitar enquanto viaja pelo circuito de torneios e joga cash games com uma moderação inédita. Ele também jogará mais poker online em seu novo site, UnabomberPoker.

Continue a ler para ter uma rara visão do interior da mente de um cientista maluco do poker atual. Sua narrativa e suas histórias vão lhe atualizar sobre o ano insano que uma das personalidades mais originais do poker atravessou.

Sobre Sua Nova Abordagem da Vida
Em 1º de janeiro, eu pesava 95 kg, e era o famoso magro gordo. Eu estava bem, ninguém me achava gordo, mas, se eu tirasse minha camisa na piscina, as pessoas diriam: “Uau, olha a pança daquele cara”. No colegial, eu pesava 72 kg e na faculdade, 75 kg. Eventualmente, eu cheguei a 77-79 kg. Eu achava meu peso ótimo, mas quando atingi os 82 kg, fiquei uns 3 kg acima do peso, mas tudo bem. Então, toda vez que eu atingia uns 90 kg, começava a frequentar a academia e voltava para cerca de 84 kg. Esse efeito sanfona foi de 84 kg a 90 kg, depois de 86 kg a 93 kg, e depois de 88 kg a 95 kg. Eu queria vomitar. Eu disse a mim mesmo: “Isso não é mais uma questão de ficar novamente em forma, sua vida é essa a partir de agora”. É a mesma coisa de escovar os dentes duas vezes ao dia. Você nunca deixa de escovar os dentes, então eu iria me exercitar usando a mesma lógica.

Eu também comecei uma dieta saudável. Aprendi os horrores das frituras. Quanto às calorias que eu ingeria, por mais que eu adore coisas como queijo e sorvete, elas não contêm calorias valiosas. Durante a semana em que eu estava tentando me alimentar de maneira saudável, eu concluí que, toda vez que eu não tomava sorvete, sentia minha força de vontade crescer.

Era quase época da World Series, e eu sabia que queria fazer um teste de resistência. Eu sabia que certos alimentos me controlavam, então percebi que essa era uma oportunidade para aumentar minha força de vontade; haveria um momento no futuro em que eu iria realmente querer dormir, então eu queria chegar num ponto em que fosse fácil dizer a mim mesmo que eu não precisava disso. As coisas que atingem os humanos comuns não iriam me afetar. Ao longo do tempo, funcionou. Depois de dois meses fazendo isso – malhando cinco ou seis vezes por semana, evitando esses alimentos e tentando ingerir cinco pequenas refeições diárias, em vez de três grandes – eu comecei a pensar: “Uau, eu estou perdendo peso. Estou me sentindo forte e em forma”. Quando alcancei cinco meses, minha força de vontade estava em alta.

Quando o desafio do sono chegou, sempre que eu me sentia cansado, pensava: “Cansado? Isso é coisa de reles mortais!” Eu precisava enganar minha mente para não precisar de coisas como dormir ou comer. O aspecto da força de vontade ajudou muito mesmo.

Sobre o Teste de Resistência

Muitas pessoas acham que a razão de eu ter desistido foi porque eu estava cansado, mas foi o oposto disso. Na 90ª hora, a adrenalina estava tão intensa, os níveis de serotonina e dopamina tão altos, que tudo estava perfeito. Era incrível como eu me sentia bem.

Na 90ª hora, eu achava que as cinco horas anteriores tinham sido facílimas, então, na 100ª hora, eu pensei: “Uau, eu realmente não me senti cansado”. Eu estava em um transe estranho. Na 110ª hora, eu chamei Jennifer [Tilly] do lado e disse: “Jennifer, isso é muito estranho; eu não me sinto cansado há umas 15 horas. Se eu ainda estiver me sentindo assim em algumas horas, acho que precisarei desligar a tomada”.

Eu poderia ter ido em frente durante mais dois dias, mas sabia que isso seria péssimo. Se você não está cansado após 114 horas, algo está seriamente errado com seu corpo. Eu jamais esperei que o que daria errado seria o fato de ser fácil. Eu não previ isso; eu estava alheio a tudo... Então entrei em pânico após 114 horas. Eu pensei: “Esqueça ir até a 120ª hora”. Eu bati o recorde em 115, e alguém vai me superar; de fato, o recorde foi quebrado antes mesmo de eu registrá-lo, pois eu estava quebrando apenas o recorde de cash game. E “Seven-Day Ted” em L.A.? Ele já conseguiu três dias muitas vezes, e uma vez passou sete dias até que o cassino o interrompeu. Ele queria continuar e discutiu com o chefe. Eu apenas registrei o recorde para um cash game.

A razão por que eu fiz esse desafio remonta a quando eu tinha 10 anos e ia à casa do meu amigo Gary. Nós nos sentávamos e líamos a cópia do livro Guinness World Records do pai dele. Eu me lembro de pensar: “Eu quero atingir um desses recordes”. Eu me lembro de pular durante 20 minutos e pensar: “Como alguém consegue fazer isso durante um dia inteiro?” Quando eu cheguei ao colegial, desisti quando percebi que você simplesmente não pode ser o melhor em algo entre 7 bilhões de habitantes do planeta. Simplesmente não tem como você ir lá e fazer. Foi apenas depois de um cash game natural que durou 62 horas há muitos anos que eu pensei: “Cara, eu não saí para nenhum intervalo”. Eu sequer perdi mãos; eu esperava por uma grande mão para poder correr para o banheiro e voltar. Foi insano. Eu pensei: “Se eu posso aguentar 62, talvez eu consiga atingir 70, e se eu consigo atingir 70, posso chegar a 78”. [O recorde oficial era 78 horas, 25 minutos e 45 segundos]. Eu planejava fazer isso, e nunca aconteceu, até que um dia eu pensei: “Meu Deus, Phil, se você quiser fazer isso, precisa entrar em forma e pôr em prática”.

Eu não fazia ideia de que iria conseguir. Se você me perguntasse antes se eu achava que agüentaria 100 horas, eu daria a mim mesmo 5% de chances.

Sobre Sua Nova Abordagem do Poker
No evento que eu ganhei na WSOPE, um cara me mostrou um blefe que teria me feito entrar em um super-tilt alguns anos atrás. Quando ele mostrou, eu fiquei feliz por ele ter feito isso. Eu pensei: “Uau, que ótima oportunidade, que ótima jogada ele fez”. Eu vi apenas a pureza da jogada. Nenhuma parte de mim pensou: “Aaaahhh, eu não posso esperar para me vingar desse cara”. Desde o lance do sono, eu encontrei um novo nível de liberdade emocional.

Eu costumava ter ciúmes dos caras da internet e de como eles mascaravam suas emoções com facilidade. Eles perdiam $20.000 em uma mão e depois diziam a outro cara da internet por que tinha sido uma boa jogada. Eu pensava: “Uau, eu quero ser assim”. Eu jamais poderia ficar assim; eu simplesmente me transformei depois da sessão de resistência. Eu espero que dure, porque é uma sensação ótima.

Não havia como ganhar o bracelete de outra forma, de jeito nenhum. Eu sou um jogador de poker melhor agora; eu realmente acredito que sim. A paciência é essa leveza que adveio da sessão de resistência. Eu acho que minha capacidade de tomar decisões sempre foi muito boa, e agora minha paciência é muito maior.

Sobre o Acidente
Eu achei que foi apenas uma coisa aleatória. De certo modo, eu tive azar, mas meu “EV” quando eu estava voando no ar era muito baixo, por causa da distancia em que eu caí e da velocidade com que eu voei e caí com o quadriciclo. Cerca de um terço da minha ossatura orbital foi esmagada. Eu fiz uma tomografia computadorizada e tinha pedaços de pele e carne pendurada no meu crânio. O médico disse que, tendo levado muitos pontos e quebrado a ossatura da região orbital, seria muito difícil que meu olho ficasse 100% normal. Ele disse: “Se você acredita em anjos da guarda, esse seria o momento ideal para começar a falar sobre eles”.

Eu superei as expectativas nesse sentido. E agora as pessoas dizem que foi como no filme Fenômeno (Phenomenon, USA, 1996), em que John Travolta sofre um acidente e começa a falar português [risos]. Não foi o acidente que melhorou meu jogo, foi mais a sessão de resistência.

Mas eu fiquei muito feliz. Logo depois da queda, segundos depois, eu pensei: “Minhas costas funcionam, minhas pernas funcionam e meu cérebro está funcionando, pois eu estou fazendo esses testes e posso ver pelo meu olho através do sangue e da terra”. Eu já tinha sofrido três acidentes antes dos 15 anos, depois outro quando tinha 25, que foi brutal, e agora esse.

Quando aconteceu, foi a quinta vez que eu quebrei o braço na vida. Quando aconteceu, eu logo percebi, então testei o dedo e vi que ficaria bem. Eu tive uma fratura intra-articular, o que significa que o rádio do meu braço direito se partiu no ponto em que ele encontra meu pulso, e nessa área do movimento há um pequeno osso que vai se regenerar novamente, mas deixará uma dobra estranha, e eu sou um provável candidato a ter artrite no pulso quando for mais velho. Eu acabei de tirar o gesso, e parece muito ruim, mas vai melhorar. E eu mal posso esperar para começar a nadar e correr novamente.

Eu não teria me dado tão bem no acidente se não estivesse na minha melhor forma física desde a faculdade. Eu caí no chão e muita coisa ruim me aconteceu, mas poderia ter sido bem pior. Se eu tivesse sofrido esse acidente um ano antes, nem consigo imaginar quão pior teria sido.

Sobre Seu Bracelete de Ouro
Eu achei Andrew [Pantling] totalmente impossível de ser lido. Eu me sentia como se estivesse enfrentando um mago online. Era muito irritante. Ele aumentada em posição e fora dela, e reaumentava em posição e fora. Ele fazia isso com 8-6 offsuit e com A-Q. Fazia isso com par de valetes e com 9-2 offsuit. Certa vez, ele aumentou, eu reaumentei e ele empurrou all-in e mostrou J 3. Eu estava ficando totalmente louco.

Eu estava tentando jogar small-ball, pois adoro ver os flops. Eu só queria ver os flops. Queria potes pequenos e ele se recusava a deixar. Toda vez que eu dizia a mim mesmo: “Você se recusa a deixar, você quer jogar potes grandes? Eu vou lhe mostrar potes grandes”, ele me surpreendia com calls enormes e mãos minúsculas, e todas as coisas que você não quer que aconteça.

Eu me lembro de uma mão em que ele foi all-in com J-3 e eu dei fold. Eu estava num estado de kung-fu mental, dizendo a mim que nada me atingia, e fiquei feliz quando ele me mostrou. Eu pensei: “Uau, você cometeu um erro. Você jamais devia ter me mostrado isso, pois poderia fazer essa jogada novamente”. Eu fiquei um pouco mais focado e disse a mim mesmo: “Phil, sua meta é procurar uma oportunidade nas duas horas seguintes, ou durante o tempo que for preciso, para fazer uma jogada incrível e saber exatamente a força dele”.

Teve uma mão que veio com um flop de K-J-6, eu sabia que ele tinha um valete com outra carta boa. Achei que essa era a mão e resolvi jogar como se eu tivesse K-J, uma trinca, K-7 ou A-K. Eu joguei simplesmente para colocar todo o dinheiro no centro. Ele ficou louco quando eu fiz essa jogada. Eu tinha A 4. Ele deu fold e eu mostrei o A-4; foi ótimo, porque eu estava ganhando e foi muito revigorante psicologicamente. Eu me vinguei. Depois que mostrei essa jogada, me senti ótimo até o fim.

Desde 2 de junho, houve apenas duas vezes em que eu tomei uma decisão de poker apressada e irrefletida. Uma delas foi com K-5; é interessante que, na vez em que eu fiz uma jogada que normalmente não faria, foi com a mão que eu acabei ganhando o torneio.



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