EDIÇÃO 33 » ESTRATÉGIAS E ANÁLISES

Psicologia dos Nosebleed-Stakes - Parte II

O que você deve aprender com eles


Alan Schoonmaker

A parte I desta série discutiu os cash games gigantescos do FullTiltPoker.com. Uma porção de jovens talentos está jogando no-limit hold’em e pot-limit Omaha heads-up com blinds de até $1.000-$2.000. Alguns potes excedem $1 milhão e já houve várias perdas e ganhos milionários.

Tais jogadores são excepcionalmente talentosos, mas alguns deles têm motivações irracionais e percepções irreais. Eles reduzem seus lucros ao ceder aos seus desejos de provar quão bons são, de se tornar celebridades e de sentir adrenalina. Eles superestimam suas vantagens e acham que podem ignorar regras de gerenciamento de bankroll. Pelo menos um deles já quebrou, e isso provavelmente vai acontecer com outros.

Como jogadores recreativos conscientes não correm riscos tão altos, vou me concentrar nos profissionais e nos que querem se profissionalizar. Eles podem ganhar muito ou sofrer para conseguir o mínimo.

Obviamente, essa não é uma situação de extremos. Os jogadores dos nosebleed-stakes estão em um pólo e os que penam em limites baixos, em outro. A maioria dos profissionais está entre esses dois extremos. Para fazer uma escolha racional, evite fantasiar e analise realisticamente tanto o poker quanto você mesmo.

Você Não Pode Evitar Concessões

Concessões são inevitáveis na maioria das decisões importantes. Para conseguir A, você precisa sacrificar B. Fazer de conta que sacrifícios não são necessários é natural, mas destrutivo. Meu livro Poker Winners Are Different (Vencedores de Poker São Diferentes) contém um capítulo intitulado “Winners Make Good Trade-offs” (“Vencedores Fazem Boas Concessões”). Você deve fazer escolhas bem pensadas sobre várias concessões.

Lucros versus Riscos: Para aumentar os lucros, você deve correr riscos maiores. A questão crítica é saber se o valor e a probabilidade de lucros maiores compensam os riscos mais altos. O valor de cada dólar diminui à medida que você os acumula. Sem uma grande vantagem, é tolice arriscar seu primeiro milhão para ganhar um segundo milhão, e é quase loucura arriscar $5 milhões para ganhar outros $5 milhões.

Lucros versus Massagem no Ego: Vencedores se esquecem de ter seus egos massageados para aumentar seus lucros. Muitos perdedores sacrificam os lucros para massagear seus egos tentando provar quão bons são. Como os jogadores de nosebleed-stakes são muito talentosos, você pode não concordar com a palavra “perdedor”, mas qualquer um que gasta seu talento tentando provar algo e acaba quebrando é um perdedor. Alguns jogadores dos nosebleed-stakes provavelmente farão isso.

Lucros versus Status e Fama: Jogadores online foram anônimos um dia. Tornar-se famoso significa poder ganhar dinheiro com patrocínios, mas isso também pode lhes custar muito enquanto jogam. Por exemplo, como “Isildur1” ficou famoso, dados sobre seu jogo foram obtidos e isso resultou na perda de milhões de dólares para ele.

Lucros versus Testar-se Contra Adversários Difíceis: O desejo de desafiar jogadores mais difíceis já destruiu incontáveis bankrolls. Se você tiver uma necessidade muito grande de se testar, pode estar se encaminhando para correr muito perigo.

Lucros versus Desenvolvimento de Suas Habilidades: Para maximizar seus lucros imediatos, jogue em mesas mais fáceis. Mas, se você não sacrificar os lucros para desafiar oponentes difíceis, não vai desenvolver as habilidades de que necessita para ganhar nas mesas mais caras. O colunista da Card Player Matt Lessinger fez deliberadamente a seguinte concessão: “Eu já joguei em mesas em que meu EV era claramente muito negativo... Foram experiências de aprendizado e, portanto, valeram o sacrifício. Eu estava disposto a pagar pela minha educação”. (“Less is Back for More”, Card Player, 6 de junho de 2003).

Profissionais Inteligentes Fazem Concessões Racionais

Eles sabem o que querem, aceitam os sacrifícios necessários e equilibram riscos e recompensas. Por exemplo, eles não pagam muito caro jogando em mesas que são muito caras e difíceis.

Você também deve aceitar a concessão fundamental: para ter uma chance no topo, você precisa correr riscos enormes. Você pode não apenas perder seu bankroll, como também se sentir um idiota. Entretanto, se você evitar esse risco, não poderá se tornar um grande jogador.

O notável profissional Daniel Negreanu resumiu essas concessões em “Why Do Sharks Eat Other Sharks?” (Card Player, 28 de agosto de 2007). Ele descreveu dois profissionais fictícios. Larry nunca vai quebrar porque seleciona mesas fracas e joga dentro dos limites do seu bankroll. Johnny quebra várias vezes porque desafia jogadores difíceis e mesas mais caras. Larry nunca se tornará um grande jogador, mas Johnny tem chances.

Ele então perguntou: “Então, em qual dos dois devemos basear nossas carreiras no poker? Bem, meus amigos, essa escolha é só sua... Larry provavelmente não consegue lidar com a ideia de quebrar. Para Johnny, isso faz parte pro processo de aprendizado”.

Você Precisa Ser Brutalmente Realista
Se você se enganar, provavelmente vai escolher o caminho errado. Você pode se entediar quando tiver 30 ou 40 anos e se perguntar se deveria ter tentado se tornar um grande jogador. Ou você pode tentar se tornar grande, construir um bankroll considerável, jogar muito alto, quebrar e amargamente se punir: “Por que eu não fiquei onde estava?”

Felizmente, você pode mudar de ideia. Essa mudança é quase sempre no sentido de ficar mais conservador, pois as pessoas se tornam mais realistas à medida que envelhecem. Por exemplo, Matt Lessinger deixou de ser um Johnny para se tornar um Larry porque quebrar e tentar ganhar muito é “uma situação humilhante, e eu estou grato por não ter que experimentar isso nunca mais” (“Johnny or Larry? Which One Am I?” Card Player, 27 de outubro de 2007).

Inúmeros profissionais descobriram que não conseguem ganhar muito. Eles então jogam em mesas minúsculas, tentando construir um bankroll e se perguntando: “Por que eu fui tão tolo?” Eu acredito que alguns dos jogadores dos nosebleed-stakes vão quebrar e não mais poderão continuar jogando naquele nível. É difícil reconstruir um bankroll multimilionário, e quase nenhum patrocinador está disposto a investir milhões.

Os jogadores dos nosebleed-stakes podem achar que ganharão muito ou rapidamente reconstruirão um bankroll, mas ignoram a história. Stu Ungar, Nick “The Greek” Dandolos e Johnny Moss todos ganharam fortunas e entraram para o Hall da Fama do Poker, mas morreram pobres, assim como muitos jogadores de high-stakes.

Os jovens frequentemente ignoram esse tipo de lição porque pensam: “Eu posso fazer qualquer coisa”. Tolice! Todo mundo tem limitações e apenas os tolos as ignoram. Os grandes jogadores de poker são tão diferentes dos profissionais médios quanto os superastros do esporte são dos atletas comuns. Se você não tiver os dons dos grandes jogadores, deve aceitar isso e trabalhar dentro dos seus próprios limites.
À medida que envelhece, a maioria das pessoas aceita suas limitações de forma lenta e relutante. Elas percebem que não vão se tornar presidente dos EUA, atletas profissionais, estrelas de cinema etc. Então, tomam decisões mais realistas quando às suas carreiras.

Você deve desistir do seu sonho de se tornar um grande jogador? Absolutamente não. Se você for jovem, resiliente, destemido e não tiver responsabilidades, teste seus limites. Descubra se seu sonho é ou não realista. Desafie os jogadores mais difíceis, suba para as mesas mais caras e coloque seu bankroll em jogo. Contudo, se você quebrar repetidamente, aceite a dura realidade: você não é um dos poucos especiais.

Encontre jogos que você possa ganhar consistentemente e passe a maior parte do seu tempo neles, ganhando o bastante para viver de maneira confortável. Talvez você ainda tente a sorte ocasionalmente em mesas mais caras e mais difíceis, mas não arrisque todo seu bankroll. E, o mais importante, mantenha registros completos e precisos, de modo a não se enganar quanto aos seus resultados e nível de talento. Aceite a realidade e tenha uma carreira confortável e lucrativa.  

Nota do autor: Eu gostaria de agradecer a Lou Krieger, David Sklansky, Arthur Reber, Barry Tanenbaum, Nick Christenson e Matt Lessinger por sua ajuda.

Alan Schoonmaker é PhD em psicologia ocupacional e autor da Trilogia da Psicologia do Poker, disponível em português pela Raise Editora.




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Ano 3 - abril, 2010

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