EDIÇÃO 16 » MISCELÂNEA

Bits e Bets: Transformando números em ação


Vicenzo Camilotti

ANÁLISE DE VPIP E PF
Até agora, a coluna Bits & Bets manteve seu foco na apresentação de alguns dos principais softwares de poker, apresentando suas peculiaridades, vantagens e desvantagens. A partir desta edição, inauguramos uma nova fase: vamos conversar sobre aspectos comuns aos mais importantes programas de captação e análise de dados – leia-se Poker Tracker, Poker Office e Hold´em Manager – independentemente de sua preferência pessoal.

Há uma infinidade de dados a se utilizar para identificar as características de seus adversários na mesa. Mas as duas estatísticas de que falaremos neste mês são, de longe, as mais importantes que se deve ter em mente ao fazer o raio-x do oponente quando for preciso tomar decisões importantes na mesa. Isso vale pra MTT, SNG e Cash Games.

Para aqueles que eventualmente não leram os artigos anteriores, farei uma breve explicação do que se tratam essas duas estatísticas.

Alguns sites informam que 30% dos potes são vistos (estatística sua ou da mesa inteira, que aparece na tela), mas essa informação, isoladamente, é terrivelmente imprecisa, a ponto de ser melhor nem dar atenção a ela. O que realmente se mostra útil é a combinação das porcentagens de Voluntarily Put Money in the Pot (VPIP) e preflop raise (PF).

VPIP: voluntariamente colocar fichas no pote, ou seja, qualquer situação em que você decida tirar fichas da sua pilha e colocá-la no pote sem ser obrigado a fazer isso, como nos blinds. Ou seja, não entra na estatística do VPIP quando você pingou no SB e deu fold, ou quando você está no BB e deu check.

PF: porcentagem das vezes que você deu raise antes do flop (quando falo raise, estou incluindo também o 3-bet e 4-bet, também conhecidos por reraise e re-reraise). Pagar um aumento, mesmo sem estar no BB, não entra nessa estatística: ela é válida apenas quando você eleva o valor atual do pingo ou da aposta já feita.

Imagine os índices como uma consulta médica. Os dois que citamos (VPIP e PF) seriam o exame inicial do oponente, o equivalente no poker ao check-up geral que o médico faz no paciente. Quando se analisa também a porcentagem de “3-bet”, “fold to continuation bet”, “fold river to bet”, “aggression factor total”, é como se o médico estivesse verificando o exame de sangue ou observando raios-x do pulmão. A ressonância magnética e a tomografia computadorizada equivaleriam a dados ainda mais precisos, como “aggression factor flop-turn-river”, “% de check/raise”, “fold to 3-bet”, “MP raise first”, “UTG preflop raise”, havendo ainda uma infinidade de informações ultra-específicas que todos os programas possuem.

Na prática, porém, VPIP e PF são a síntese do que é preciso para termo uma boa visão geral da “saúde” do seu oponente. O caso prático a seguir ocorreu comigo, em um torneio ao vivo do RSOP, ano passado.

A mão roda em fold e me depara com JJ. Dou um raise básico de 600 (hoje em dia prefiro aumentar 2,5 vezes o valor do pingo). Todos largam, mas a jogadora no BB repica para 1200. E agora, como proceder?
O VPIP e PF respondem essa questão de forma satisfatória: é preciso enquadrar o oponente em quatro grupos de jogadores, e agir de acordo com isso.

Índices: VPIP 5% e PF 3%.

Característica: rocha. Joga raramente, e só dá raise com uma bazuca na mão.

Postura sugerida: melhor é dar um call de 600 fichas e esperar pela trinca, que muito provavelmente arrancará a pilha inteira dela. Lembre-se de que as rochas demoram para jogar, e a maioria delas nem sequer cogita largar um par alto. Se no flop baterem três cartas baixas, o mais indicado é dar fold diante do bet desse oponente.

Índices: VPIP 35% e PF 25%
Característica: loose-aggressive. Isso representa um range imenso de mãos jogadas.

Postura sugerida: mesmo que você não saiba dos números de 3-bet dela, é possível até dar um 4-bet total de 2000 para saber onde você está, e o mais provável é que esteja mesmo ganhando.

Índices: VPIP 40% e PF 3%.
Característica: limper. Significa que está entrando em muitas mãos, sem aumentar o pote. Indica também que pode se tratar de um principiante, com traços de jogador “pagador” pós-flop, dando call em todas as apostas pra ver a próxima carta, agredindo pouco e dando fold no river se achar que perdeu o pote.

Postura sugerida: se o oponente se enquadrar nesse caso, o correto é proceder de modo similar ao exemplo 1, já que o reraise nitidamente significa que ela recebeu cartas premiadas.

Índices: VPIP 20% e PF 15%.
Característica: tight-aggressive. Provavelmente o oponente “joga bem” e sabe preparar armadilhas múltiplas. É agressivo, mas de forma seletiva.
Postura sugerida: Algo semelhante ao exemplo 2, só que com mais cautela. Após o 4-bet, se houver mais um repique: easy fold. Se ela apenas pagar o re-reraise, aposte no flop, mas com calma, porque esse call pré-flop pode significar QQ+ na mão.

Então alguém pode perguntar: “Mas você não falou qual era a característica dela na mesa, nem o que aconteceu realmente”.  Respondo: ela era uma rocha (exemplo 1). “E o que aconteceu após seu call?” Simples, eu não dei call. Estava jogando totalmente distraído, não tinha prestado atenção à imensa quantidade de folds dela, além de já conhecê-la de outros torneios. Voltei um péssimo all-in e fui eliminado pelo óbvio par de ases.

“E por que você está dando exemplo live, se a sua coluna deveria focar no online?”. Quem disse isso? Sempre ressaltei que os softwares ajudam, e muito, no jogo ao vivo, e esse é um nítido exemplo disso. Quando você faz uso desses imprescindíveis softwares, aplica seus princípios no jogo ao vivo. Você passa a fazer anotações mentais das características dos oponentes ao vivo de forma muito mais precisa do que quando não sabia utilizar os softwares.

Se estivesse no torneio, com a atenção voltada para o VPIP e PF dos jogadores, teria me saído bem melhor nessa jogada, pois dificilmente teria sido eliminado, e a palavra-chave do torneio é “sobrevivência”.
É a informática ajudando a desenvolver o bom e velho poker em que se toca nas cartas. O mundo virtual como uma extensão do real. As fichas virtuais ajudando nos malabarismos com as reais. Números 0 e 1 intimamente relacionados com conceitos subjetivos. E muito mais bits & bets pela frente.




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EDIÇÃO 16

Ano 2 - novembro, 2008

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