EDIÇÃO 118 » COLUNA INTERNACIONAL

Razão x Intuição

Qual sentido é mais necessário no poker?


Alan Schoonmaker
“Como eu pude ser tão idiota?” foi o título do meu último artigo [Card Player Brasil, edição 117] e a primeira pergunta do fascinante livro de Jason Zweig, Your Money & Your Brain (Seu Dinheiro & Seu Cérebro). Foi escrito para investidores — e poker é uma forma de investimento. 

O livro diz que temos dois cérebros: o intuitivo, que sente; e o analítico, que pensa. Eles são responsáveis por fatores que conhecemos como intuição, instinto, lógica, análise e muitos outros. O cérebro intuitivo evoluiu milhões de anos antes do analítico. Ele age mais rápido e é muito mais poderoso. Embasado por centenas de pesquisas, esse livro contradiz a posição de economistas clássicos que dizem que os seres humanos são primariamente pensadores racionais, que analisam todas as alternativas e depois escolhem a melhor. O cérebro intuitivo desenvolveu primeiro e age de maneira mais rápida porque, no começo de tudo, uma pessoa jamais sobreviveria sem saber reconhecer e reagir a ameaças, lutando ou fugindo. Imagine se você diante de um leão resolvesse sentar para analisar todas as suas possibilidades? Bem, certamente você viraria almoço.

Nosso sistema intuitivo funciona tão rápido que, com frequência, respondemos a estímulos antes que a parte consciente do nosso cérebro perceba que há alguma coisa para reagir — apenas pense nas vezes que você desviou de algo na estrada para evitar o perigo antes mesmo que você pudesse identificá-lo.

O cérebro intuitivo não age primeiro apenas em situações de perigo. Aquela “primeira impressão” é ele fazendo julgamentos e tomando decisões. Nós contamos com nosso cérebro intuitivo para ter uma ideia inicial do que está a nossa volta. Só nos voltamos para o nosso sistema analítico quando o intuitivo não consegue entender algo.



Não tome decisões rápidas em situações complicadas
Malcolm Gladwell, em seu best-seller Blink: A Decisão Num Piscar de Olhos (editora Sextante), discorda dessa recomendação. Ele afirma: “Decisões tomadas muito depressa podem ser tão boas quanto decisões tomadas de forma cautelosa e deliberada”.

Ocasionalmente, ele está certo, mas quando falamos de investimento, sua argumentação é extremamente perigosa. A intuição pode lhe permitir fazer julgamentos maravilhosos e rápidos, mas apenas nas condições certas — quando as regras para chegar a uma boa decisão sejam simples e estáveis. Na vida real, em que a vida é cheia de problemas e ameaças imediatas, a afirmação de Gladwell não é adequada e muitas vezes nos colocará em problemas.

O sistema intuitivo é como um cão de guarda. Ele toma uma decisão imediata, mas que às vezes pode causar uma bela de uma bagunça. Eles irão atacar os ladrões de imediato? Sim, mas farão o mesmo com o carteiro. Por isso “a decisão num piscar de olhos” pode colocar investidores em problemas. Se tudo que você faz é tomar decisões em um piscar de olhos, seus negócios irão afundar.

Esse princípio se aplica ao nosso complexo jogo. A não ser que você analise uma situação profundamente, provavelmente a decisão não será boa. Uma enorme diferença entre grandes jogadores e jogadores fracos é que os grandes jogadores pensam cuidadosamente antes de realizarem uma ação.

Bem antes de ler esse livro, eu encorajava meus leitores a confiar mais na lógica do que na intuição, mesmo que Doyle Brunson tenha escrito: “Apegue-se à sua primeira impressão. Acredite em suas convicções”.

Claro que isso funciona para Doyle, mas a menos que você tenha imenso talento e experiência, seu conselho soa como se disséssemos a um jovem jogador de basquete para desenvolver os reflexos do Michael Jordan. Esses reflexos são dons que ele nunca terá. Ele tem que trabalhar com as habilidades que ele tem, assim como você e eu temos que nos virar com nossas limitações. Dom não pode ser ensinado. Nós temos que confiar no que pode ser desenvolvido: observação e pensamento lógico.

O sistema analítico
Essa “função” fica em grande parte no córtex pré-frontal, o “CEO do cérebro”. É onde suas experiências passadas são categorizadas, forma teorias sobre as mudanças à sua volta, planeja o futuro etc. O cérebro analítico intervém quando o intuitivo encontra situações que ele não pode resolver sozinho. Mas cuidado...

Zweig faz um questionamento rude: “Se você é tão esperto, por que você age tão estupidamente?” E ele responde: “O cérebro analítico é considerado infalível. Pessoas que confiam cegamente nele acabam não conseguindo enxergar a floresta, mas apenas as árvores. Elas ficam tão envolvidas em detalhes e números que acabam perdendo o todo. 

Esse tipo de pensamento causou duas enormes perdas no mercado norte-americano. Em 1987 um supercomputador não conseguiu proteger grandes investidores de uma recorde em único dia no mercado de ações (23%). Em 1998, aconteceu novamente com alguns gênios e ganhadores do Prêmio Nobel que administravam um fundo de investimento chamado Long-Term Capital Management L.P. (LTCM). Suas decisões foram “extremamente dentro dos padrões”, mas o mercado ficou totalmente “fora do padrão”, o que resultou em uma perda de US$ 4,6 bilhões e o fim do LTCM.



O economista John Maynard Keynes disse: “O mercado pode continuar irracional por mais tempo do que você pode manter-se solvente”. Ou seja, não adianta rigorosamente nada estar certo se o mercado inteiro estiver errado. Esse princípio se aplica de maneira mais contundente no poker porque:

- Jogadores são muito mais irracionais do que mercados.
- A sorte influencia tanto no curto prazo que bêbados derrotam campeões e jogadores fracos vencem grandes torneios.
- Jogadores extremamente lógicos não conseguem ler jogadores irracionais. Eles têm certeza que em um bordo A-3-4, o adversário jamais poderia ter uma sequência porque ele não daria cold-call em uma 3-bet com 2-5. Mas isso é exatamente o que eles fazem.
- Jogadores extremamente racionais são relativamente fáceis de ler. Jogadores mais intuitivos conseguem lê-los com frequência, confundi-los e jogar melhor que eles.

Qual a conclusão? Você precisa de ambos. Tanto da lógica quanto da intuição. Porque a lógica é limitada. Os dois sistemas possuem seus pontos fortes e fracos. O desafio é fazer seu sistema intuitivo e analítico trabalharem juntos, assim você pode encontrar o equilíbrio entre razão e intuição.

Ao chegar nessa conclusão, isso me bateu forte. Como qualquer homem da ciência, eu fui ensinado a reverenciar evidências sólidas e a desacreditar de todo e qualquer tipo de intuição. Evidência e lógica dominam tudo. Se eu acreditasse na intuição, eu teria descartado o programa de doutorado da Universidade da Califórnia. O lema de lá, e de outras universidades, é: “Se você não pode provar, não acredite”.

A lógica pura é essencial para pesquisa cientificas, mas não para o poker. Por eu enfatizar demais a lógica, alguns adversários aparentemente fracos podem ter uma leitura minha melhor do que a que tenho deles.

Para encontrar um equilíbrio entre lógica e intuição, Zweig nos dá 14 dicas, coisas como acredite no seu instinto algumas vezes, mas primeiramente confie em seu cérebro analítico. Mas, para nós, o que mais interessa é que as primeiras letras dessas 14 recomendações formam o acróstico “PENSE DUAS VEZES”. Mesmo em um momento emocional, lembre-se primeiro de checar cuidadosamente o seu primeiro impulso.

E isso nos leva de volta a pergunta original: “Como eu pude ser tão idiota?” A resposta geralmente é porque agimos muito rápido. Depois de cometer um erro estúpido, que custou um grande pote ou mesmo o torneio, você provavelmente disse para si mesmo: “Se eu tivesse pensado por mais cinco segundos...”

No futuro, para evitar pensamentos desse tipo, pense duas vezes, logicamente e intuitivamente.


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