EDIÇÃO 91 » ESPECIAIS

Maria Eduarda Mayrinck e seu silêncio barulhento


Marcelo Souza
Maria Eduarda Mayrinck, ou “Maridu” como é conhecida na comunidade de poker e entre os melhores amigos, anda quieta, o que não é seu estilo. Resolvi ir atrás do motivo do silêncio de Maridu e encontrei respostas surpreendentes e interessantes de uma pessoa que está bem mais centrada da imagem de “pilhada” que passava, completamente focada em si e pouco se importando para a opinião dos outros. A jogadora de poker que conhecemos a tantos anos passou por uma espécie de metamorfose, como ela mesmo diz, e finalmente está saindo do outro lado.

Acaba de se separar, voltar a morar por tempo “indefinido” no Rio e doar seu cabelo para uma instituição que faz perucas para meninas que perderam o cabelo por causa de quimioterapia. “Vida nova, cabelo novo!” e ela diz que quer “devolver, já que sempre recebi tanto”. Realmente é uma Maridu diferente, mas no fundo, a mesma de sempre.


Ela começa falando que em Dezembro de 2012 passou por uma perda “irreparável”, que dividiu publicamente com todos os seus seguidores do seu famoso blog (http://www.needanace.blogspot.com.br), twitter (@Maridu) e instagram (@Maridu01).
 
ME: Sei que todos tem a sua cruz para carregar, essa virou a minha. Nunca escondi o terror que eu passei, não tenho vergonha do abismo. A mídia social coloca uma pressão enorme para vivermos uma vida perfeita, cagando unicórnios e mijando arco-íris porque todos fingem que é assim que estão vivendo na mídia social. Me recuso. Minha vida é um caos diário com momentos extraordinários aqui e ali. E não foi apenas a morte da minha mãe que me fez perder a cabeça. Foi a morte dela no meio da noite sem ela estar doente depois de um dia que passamos juntas nos divertindo. Ela bateu na porta do meu quarto as 4 da manhã e falou ‘filha, socorro estou morrendo’, caiu nos meus braços e em questão de 3 minutos ela estava morta. Eu não pude fazer nada. Fiquei tentando ressuscitar ela por 40 minutos, com medo de parar para telefonar e chamar uma ambulância ou pedir ajuda, mas claro, não que fosse adiantar. Eu perdi a cabeça junto com ela. Isso logo após meu business ter falido, meu casamento estar indo por água abaixo, enfim, experimentei a derrota pela primeira vez na vida, e ela é amarga e pesada. Enlouqueci mesmo”.
 
Além do luto, Maridu agora estava lidando com estresse pós traumático e um diagnóstico mais surpreendente ainda; ela tinha transtorno de ansiedade desde que era criança que nunca havia sido detectado - até agora.
 
CP: Mas porque que nunca haviam diagnosticado seu transtorno de ansiedade?
 
ME: Porque você junta um QI muito alto - fui testada umas 5 vezes e sempre dava no mesmo, 137 pontos, o que é alto, eu acho - com uma energia excessiva e uma curiosidade insaciável, em um ambiente seguro, com pais que me motivavam para eu ser o que eu quisesse, o sucesso termina sendo inevitável. Então ninguém achava que tinha algo de errado comigo, apenas achavam “OK, temos uma menina inteligente e energética que sempre ganha”. Sendo que eu nasci com um problema raríssimo na perna que teve que ser operado nove vezes, mas isso nunca foi obstáculo pra mim. Com 9 anos decidi que queria ser escritora. Entrei para um concurso de poesia de crianças entre 10 e 12 anos e ganhei. Com 10 anos decidi que ia ser tenista, em questão de 1 ano eu estava rankeada entre as top júnior jogadoras da costa leste dos EUA (nessa época sua família morava em Nova York). Quando decidi dirigir e escrever para cinema e TV entrei para Globo através do Alexandre Machado e da Fernanda Young, com quem trabalhei por um bom tempo. Quando resolvi jogar poker fui oferecida um patrocínio pelo PokerStars. Vendo tudo isso de fora, você acharia que tinha algo de errado com essa pessoa? Provavelmente não, pelo contrário, acharia que estava tudo certo. Mas tudo estava errado, porque ninguém consegue viver no ritmo frenético que eu vivia e uma hora o corpo e o cérebro pifam, não tem jeito.
 
E pifou mesmo. Após a morte da mãe Maridu diz que “surtou” e não sabe onde estaria se não fossem os dois irmãos e os amigos, que foram insistentes em sua recuperação. Ainda são.
 
ME: Me desprendi da realidade e passei a viver num universo paralelo onde nada fazia sentido - um pesadelo acordada. Tive que ser dopada, e eu nunca tinha tomado nada além de ponstan pra cólica. Nunca bebi álcool ou fiz nenhuma droga, sempre tive medo - nada moral ou ético, até porque minha religião é o capitalismo e a minha ética é o trabalho - nunca gostei do gosto ou da sensação de drogas ou bebida (mas não tenho nada contra quem faz!). Depois da morte da minha mãe, eu estava tomando 8 narcóticos prescritos por dia, virei um zumbi. Era isso ou ser internada. Foi aí que descobri de verdade o que é ter humildade perante a vida e que planejar é o jeito mais certo de tudo dar errado.
 
Mas com tudo isto, Maridu vem lutando para largar os remédios (estou tomando somente 3) e quer falar sobre poker pela primeira vez em muito tempo.
 
ME: No poker, como na vida, todo mundo te ama quando você está por cima, ninguém lembra seu nome quando você está por baixo. Todo mundo quer gritar “vamo” e te chamar de “Mestre”, mas ninguém fala do lado escuro do poker. Ele existe. O poker mexe com a química cerebral e é um forte ativador de distúrbios mentais. Aliás, logo que eu “surtei”, a primeira ordem médica foi “você está proibida de jogar poker”. É um jogo de alta adrenalina que te coloca em situações de muita pressão e instabilidade, então quem tem predisposição a tais transtornos ou distúrbios pode cair numa vala muito funda de forma rápida sem perceber. Já vi vários casos de depressão, síndromes de pânico, ataques de ansiedade por causa do poker - isso em top players que viviam somente do jogo. Encontrar o equilíbrio é muito difícil, saber quando você está caindo num buraco mais ainda. Eu vi que existia um lado muito sério e perigoso no jogo, mas que ninguém queria mencionar. Não vejo mal algum em mencionar este lado, pois existe em qualquer competição de alto nível. Hoje em dia não faço mais a menor questão que alguém saiba se estou jogando ou não, ganhando ou perdendo, quero mais é lidar com meus dragões e jogar quieta, porque eu sei que se amanhã eu ganhar o Sunday Million ou um bracelete de WSOP as pessoas vão me vangloriar como se eu nunca tivesse existido, e ‘pelamordideus’, estou aqui desde que o movimento do poker começou no Brasil. Apareci no pedaço logo após o CK e o Raul e eu sei que eu trouxe muitas idéias e inovações para o jogo no Brasil através do meu blog, e não ganho crédito algum, e hoje em dia, nem quero.
 
CP: Como o quê?
 
ME: Ah, como cavalos, backing, staking, venda e compra de ação, swapping, times, todos esses conceitos, se você pesquisar vai ver que fui eu que introduzi na comunidade de poker Brasileira através do Need An Ace, meu blog, ou do MaisEV, sem contar que muita gente que é “famosa” hoje em dia no poker Brasileiro foi primeiro mencionada no Need An Ace. Antes, Brasileiro tinha vergonha de pedir pra ser backeado porque achava que isso queria dizer que era falido ou sei lá o quê. Eu que falei “não, muito pelo contrário isso quer dizer que você é lucrativo, confiável e bom de jogo”. E muitas outras coisas que juro, não fazem diferença hoje em dia, já que todos usam os conceitos que eu sei que eu introduzi. Não estou falando que inventei a roda ou que se não fosse por mim esses conceitos não estaríam sendo empregados no poker Brasileiro, mas com certeza eu fui a primeira a falar disso tudo e de muitos outros assuntos. Se não tivessem sido apresentados por mim, eventualmente teriam sido apresentados por alguém. Talvez levaria mais tempo, mas isso também não importa, porque a história está escrita. E o meu blog era, mal ou bem, um centro de informação e um ponto de encontro para os jogadores. Todos leram o Need An Ace desde que comecei a escrevê-lo e sabem do que estou falando. E quer saber? Acho que o CK e o Raul também não levam o crédito que merecem pelo que implementaram no Brasil em termos de poker. Se eles não tivessem começado esse movimento todo, quem sabe aonde o poker estaria no Brasil, ou se estaria no Brasil… Vai saber… a memória das pessoas é curta, então tem que aceitar e viver em paz com isso.
 
CP: Mas você tem ressentimento por não levar crédito de ter introduzido tais conceitos no poker Brasileiro?
 
ME: Já tive. Hoje em dia, nenhum. Não estou nem aí. Tenho mais ressentimento pela quantidade de paulada que levei da própria comunidade de poker Brasileira no começo da minha carreira. Eles pareciam ter prazer em me atacar. Eu simplesmente não entendia e sofria muito, muito mesmo. Sempre tive fortes opiniões mas nunca fui do mal, mas eram severos comigo, especialmente tendo sido a primeira representante feminina deles, eu queria apoio, e não porrada. Mas não foi assim a história, e não sei bem porque. Talvez porque fiz amizade com todos os tipos e nacionalidades de jogadores logo cedo na minha carreira - eles viam isso como se eu estivesse torcendo “contra” Brasileiros ou algo ignorante do tipo porque eu disse “Oi” pro Marco Johnson, que de fato é meu amigo, na mesa final que ele jogou contra o Alexandre Gomes. (começa a rir) Talvez por outros motivos. Mas tinha muita inveja e era bem nojento de sentir. Mas hoje em dia entendo os “haters”. Eu talvez seria uma “hater” minha também na época. “Pô, essa mina, bonitinha, inteligente, riquinha, patrocinada, com resultados, viajando o mundo jogando poker e ainda amiga de todos os top players internacionais!? Quem ela acha que é?”. E o pior é que eu era a mais burra de todos, porque eu lia as críticas absurdas, as mentiras, e sofria - nossa, já chorei muito - mas em vez de ficar quieta, eu peitava, brigava de volta, respondia aos ataques, criava mais confusão. Mas olha, não estou dizendo que sou nenhuma santa ou que não cometi erros, mas porra, todos cometem erros, mas os meus pareciam “imperdoáveis”, sei lá, era uma coisa muito covarde e feia de ver um bando de homem atacando uma mulher. Meh… ainda bem que foi comigo que aguentei, do que com outra mulher que talvez teria derretido. Beijos pra todos. Hoje em dia não consigo nem fingir que me importo com nada que falam ou falaram de mim. Minhas prioridades mudaram. Quero sombra, água fresca, me livrar de todos os remédios, estar perto de quem me quer por perto, comer chocolate, ver filmes e fazer flush no river porque dá mais emoção. O resto… que se dane.
 
CP: Como você vê o poker no Brasil hoje em dia?
 
ME: Difícil de dizer porque passei muito tempo fora, mas vejo o poker indo para um lado escorregadio porque está praticamente monopolizado no Brasil e nenhum monopólio é bom, mas pra mim tudo isso é indiferente no tanto que eu possa seguir fazendo o que eu bem quiser, que é exatamente o que eu faço. Cada macaco no seu galho. Depois que eu mostrei por A+B o lance lá do cara roubando e co provas concretas e depoimentos ainda tinha gente defendendo ele e me atacando por expor o cara, eu entendi que é melhor ficar quieta e deixar os gregos e troianos se entenderem. Quero distância da sujeira que rola. Os dragões pessoais que venho lutando são enormes, pra que trazer mais pra festa? Ficar gritando “vamo” e “é esporte” é fácil, limpar o jogo já são outros 500. Querem manter o jogo limpo, que façam. Eu tô fora. Estou mais perto dos 40 que dos 30, quero meu netflix e minha coca-cola, sabe?
 
CP: Mas você acha que poker é esporte?
 
ME: Nossa, o dia tá lindo hoje né? (risos) Vamos mudar de assunto…
 
CP: Você realmente conviveu com os top players mundiais. Quais as diferenças mais básicas que você enxerga entre eles e os top players Brasileiros? O que falta para os Brasileiros chegarem aonde os gringos estão?
 
ME: É simples demais. Ética de trabalho, disciplina e a mentalidade fria em relação ao jogo. A única coisa que importa quando você quer ser bom mesmo em alguma coisa é o trabalho que você faz quando ninguém está olhando, quando ninguém está gritando “vamo”. Só isso. Vou usar o David (David Bakes Baker, ex-marido de Maridu, conhecido online como WhooooKidd, e um dos jogadores mais lucrativos e bem sucedidos ao vivo e online) pois é o exemplo mais próximo que tenho. Ele nunca comemorou uma vitória, nunca chorou uma derrota. Depois dos braceletes que ganhou - incluindo o 10K HORSE do WSOP com o Ivey e o Hellmuth na mesa final - ele pegou minha mão e fomos pra casa como se fosse qualquer outro dia, sempre com uma atitude de “este é o meu trabalho, não estou fazendo mais que a minha obrigação de ganhar. Se eu comemorar minhas vitórias vou ter que chorar minhas derrotas” e todos nós sabemos que em MTTs as derrotas fazem 95% da sua vida. Você passaria a vida chorando sem essa mentalidade fria. Todos os dias, sem excessão, ele stova pelo menos 5 mãos de poker que jogou naquele dia. Ele vira noites com os amigos tentando solucionar PLO. Estuda diariamente, sem falta. É incapaz de se vangloriar de uma conquista ou twitar uma mesa final. Ele sabe que elas não querem dizer nada se você não conseguir mantê-las vindo e seu jogo evoluindo. E você pode ver que isso é verdade de todos os top players. Ninguém quer provar nada pra ninguém, já passaram dessa fase a muito tempo. A ética de trabalho e a disciplina acima de tudo. Claro, eles não tem o senso de união e torcida na mesa final como um Brasileiro tem quando chega lá, mas você precisa perguntar qual é a prioridade aqui; ganhar ou “gloria” e ter gente gritando vamo? Você pode ter os dois, mas sem a ética de trabalho e a disciplina você não consegue reunir a galera na torcida pra gritar “vamo”. Essa diferença é a chave. Isso e a mentalidade fria em relação ao jogo. E claro, uma mulher que nem eu do lado pra te levar ao topo (risos).
 
CP: Mas você vê jogadores Brasileiros indo por esse caminho?
 
ME: Vejo. Jogadores como o Kelvin Kerber. Taí um cara que admiro. Ele joga quieto, na dele, grinda mesmo, sem ego algum, e joga pelos motivos certos. Não quer gloria, ele sabe que gloria não paga as contas. Ele joga porque ele quer dar uma casa nova de presente pra mãe (e deu recentemente). Troco muita idéia de jogo com ele. Outro que acho um excelente jogador e eterno aluno do poker, mesmo sumido, é o Hugo Adametes. Ele e o David ficavam dias conversando sobre uma só mão via skype. E se você reparar, sempre foi um cara na dele também. Com o João Simão troquei idéia poucas vezes, mas claramente ele está no caminho certo, o Yuri também me parece jogar pelos motivos certos e ser um cara com o pé no chão, e acho o Decano um jogador com uma intuição muito forte, ele tem estilo, tem marchas e sabe usar. Deve ter mais gente aí que eu não sei. Olha, não tem mistério. NLH é um jogo solucionado. Quem quiser, descobre o cálice sagrado, basta procurar. Ou você acha que o Stevie444 faz o que faz porque quer gloria ou porque está dando sorte? O que ele estuda é um absurdo. E pior, me bota pra estudar também. Mó saco! (risos)
 
CP: E você? Você em 2014 teve um dos melhores WSOPs de um Brasileiro, chegou novamente perto de uma mesa final de um evento de grande habilidade técnica (O Dealer’s Choice Event, com 16 modalidades de poker sendo jogadas, onde Maridu ficou em 11o lugar), foi bem deep no main event, teve 5 ITMs. Você ainda tem planos com o poker?
 
ME: (rindo) Eu… hahaha… eu sou quase um desperdício porque eu tenho todas as ferramentas e a sabedoria nas mãos para realmente ser uma grande jogadora de poker, mas eu nunca usei ela por inteiro, então eu fico no limbo de ser boa e “grande” no jogo. Isso frustrava o David demais, você não imagina. Ele queria que eu preenchesse meu potencial “você pode ser a melhor!” e eu queria ver Breaking Bad. Vem de um lado forte que eu tenho de preguiça, outro de que eu sei que a hora que eu realmente entrar numa e engrenar eu vou e conquisto o que eu quiser (pode parecer metida, e é, mas é a verdade) e também de que eu não me comprometi 100% a dar a minha vida ao jogo, tipo, eu não abri mão da minha vida social, dos meus amigos, da minha família, de viajar com as minhas amigas, e isso também é importante quando você está ao caminho do topo - você precisa sacrificar e abrir mão de tudo, e eu nunca fiz isso. Eu ainda posso tentar me tornar uma top player mundial, talvez ainda tente, mas a verdade é que eu não sei se eu quero ou se tenho o saco. Nesse exato momento estou com duas ofertas de patrocínio e estou, literalmente, tentando convencer os dois porque que eles não devem me patrocinar (risos). Eu simplesmente não estou mais disposta a viajar para jogar, passar tempo longe das pessoas que eu amo, acho que isso me fez muito mal, me fez perder momentos que eu jamais terei de volta, como tempo longe da minha mãe, o nascimento dos meus sobrinhos, casamento de amigas, coisas do tipo, que eu quero fazer parte, porque o poker vai sempre estar ali, mas esse pedaço da vida não volta mais e eu cheguei a conclusão que isso é o que mais me importa. Mas ainda estou decidindo o que vou fazer com meu futuro. Estou terminando um livro e começando outro, com possibilidades de voltar para a TV ou até trabalhar com música, que é minha paixão, mas sempre vou ter o poker como um dos meus grandes amores. Mas eu sei que seria um desperdício, posso até chamar de uma ofensa, eu ter tido esse contato com alguns dos melhores jogadores do mundo que tantos jogadores gostariam de ter e não usar o que me foi dado de graça só de conviver com eles, então quietinha, do meu “novo” jeito, eu estou estudando muito mixed games - todos os dias, estou tendo aula com 2 professores diferentes - e não tenho planos de parar de jogar por enquanto. Eu ainda tenho minhas metas no poker, mas prefiro ficar quieta e deixar o meu jogo falar por si só. Hoje em dia isso basta pra mim.
 
Mas ela quer deixar claro que não deixou de cometer seus erros
 
ME: Olha, tudo isso que estou falando é porque estamos aqui numa entrevista então eu entro em estado comportado. Sou mais terráquea que nunca, não sou nenhuma espécie de guru ou ser elevado. Sigo cometendo meus mil erros diários, e sei pedir desculpas, apenas não estou divulgando tudo o que faço aos 4 ventos como eu fazia, e minhas prioridades certamente mudaram. Não quero que as pessoas fiquem achando que é tudo glamuroso ou glorioso na vida de um top poker player, porque não é. Pode parecer; as viagens, os hotéis, a farra com os amigos (tá, essa parte é boa), mas é dura a vida de um grinder do circuito ao vivo internacional e a quantidade de leão pronto pra te devorar em cada mesa que chega a dar dor de barriga, afeta o lado emocional e psicológico em algum momento, não tem como não. Os dragões são sempre do tamanho do sucesso, as quedas também. Eu apenas quero mostrar o lado escuro da lua, porque ela existe, mesmo que todo mundo queira fingir que não. Mas isso também não quer dizer que não exista luz. Depois de dois anos de escuridão, estou buscando a minha luz, quieta no meu canto. Só isso.
 
Maridu se levanta e fala “Vamos, estamos atrasados!”. Vou acompanhá-la a uma de suas duas consultas semanais com seu psiquiatra, quem ela diz salvar sua vida a cada consulta. “Acho importante você escutar da boca de um profissional sobre os perigos do jogo. Eu nunca sei direito o que eu estou falando. Provavelmente estou falando merda!”.
 
CP: Algum último recado para quem está lendo?
 
ME: Vários. Primeiro, é muito importante você saber que você não sabe nada. O minuto que você aprende isso, você pode começar a aprender alguma coisa. Não se apegue a noção de “gloria”, ela não existe, se existe, é passageira e traiçoeira. Se você meter a cara e estudar, os resultados virão, e com isso, a gloria, se é isso que você quer (e não há nada de errado em querer a gloria! Pra mim, a Glória é um bairro no centro do Rio.). Não se preocupe com nada que falam de você, jamais - os grandes nomes da história sempre tiveram “haters”, mas não tem nenhum livro escrito sobre os haters, então seja você. Não tenha medo de ser diferente e de experimentar, saia da sua zona de conforto, é la que a mágica acontece. Pare de subestimar os outros, você não é melhor que ninguém. E se você está precisando de ajuda, sentindo depressão, transtorno de ansiedade, tendo ataques de pânico, ou qualquer outro sentimento que não pareça “você”, peça ajuda! Ela está disponível. Eu mesma quero te ajudar. Basta largar esse ego, ele é uma âncora!
 
Depois de 2 dias de excelente papo e muitas risadas, aprendi mais ainda sobre a Maridu, que realmente é diferente do que parece. Sua prioridade no Rio é terminar seu tratamento com seu psiquiatra para se livrar dos remédios e passar seu tempo disponível com os amigos e a família, nada mais. Malha, escreve seu livro e tem aula de poker todos os dias - “minha filosofia de vida é “disciplina é liberdade. Isso e muita coca-cola”, se preocupa em comer bem, assiste muitos filmes (pergunto seus favoritos e ela sofre pra responder “é como escolher um filho favorito! Mas com certeza 2001: Uma Odisséia no Espaço, a trilogia do Poderoso Chefão, Goodfellas, Beleza Americana, Os Tenenbaums, Fight Club, O Big Lebowski, Wolf of Wall Street "Fala sério, tem coisa melhor que a abertura daquele filme com o Leonardo DiCaprio fumando crack do cu da puta? Difícil…” diz ela as gargalhadas) devora biografias, especialmente sobre generais de guerra como Alexandre o Grande, Julio Cezar, Napoleão Bonaparte, Winston Churchill e qualquer livro de estratégia militar "sou fascinada!". Nenhuma de suas duas televisões são ligadas na tomada, e ela escuta música o dia inteiro. Obcecada por Beatles e por Led Zeppelin ela afirma “não confio em quem não gosta dos Beatles ou de Led Zeppelin”, é apaixonada por Jack White “vou casar com aquele homem!” e é fã de carteirinha da Beyoncé “ela é um espetáculo! Catedrais deviam ser erguidas por causa daquelas pernas e daquela bunda! Sem comentar na ética de trabalho da garota”. Seu celular não pára de tocar ao ponto dela ter que desligar para podermos conversar, e aonde vai é seguida pelo seu cachorrinho Jack Meleca, que ela resgatou a dois anos. Ela frequenta o Coachella (festival de música) todos os anos, não gosta de falar no telefone e sim de torpedos ou whatsapp, e eu assisti pessoalmente ela jogar uma sessão de mixed games; ela não está de brincadeira quando diz que está estudando e jogando nos limites mais altos oferecidos pelos sites. “Stud high me tortura, e tenho certeza que se você jogar razz o suficiente você se torna um gnomo do mal! Deuce to seven é meu queridinho” diz ela rindo. O desktop de um dos três computadores que ela carrega pra cima e pra baixo chega a dar inveja com arquivos entitulados “aula de ranges de início de MTT do David” “aula de Nash do Stevie” “Aula de PLO do Andy” “Aula de 6 max do David” “Ranges de 8ob do Andy” “Aula SNG Turbo Stevie” e mais várias aulas registradas que fariam qualquer jogador de poker babar. Ela refere a esse material como se fosse receita de bolo “pode ler se quiser, não sei se você vai entender porque foi no meio de um contexto, mas pode ler a vontade”. Seu skype tem todos os top players que um jogador sonharia em ter acesso, e eles a chamam com frequência, ou para fazerem brincadeiras, dividirem mãos ou para planejarem as viagens que fazem juntos durante o ano. Realmente ela não divulga nada disso. “Há, pra quê divulgar? No final do dia não faria nenhuma diferença. Isso não muda quem eu sou. Poker, como qualquer outra coisa que você quer ser bom na vida é o que eu falei, o que vale é o trabalho que você faz quando ninguém está olhando. O resto é blablabla”.
 
No geral, foi um prazer de ver como a “nova” Maridu está vivendo hoje em dia, segundo ela “da forma mais simples e sem drama possível. Estou tentando reconstruir uma vida inteira. Não é fácil, mas Roma não foi feita em um dia” e isso não é blefe. Ela anda quieta, mas de forma alguma silenciada, e com essa mentalidade e maturidade que Maridu diz que “sofreu muito para alcançar”, junto com toda sabedoria que acumulou numa vida aparentemente muito bem vivida até agora, com certeza ela ainda vai fazer barulho com seu jogo, basta ficar antenado e escutar.
 



NESTA EDIÇÃO



A CardPlayer Brasil™ é um produto da Raise Editora. © 2007-2019. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo deste site sem prévia autorização.

Lançada em Julho de 2007, a Card Player Brasil reúne o melhor conteúdo das edições Americana e Européia. Matérias exclusivas sobre o poker no Brasil e na América Latina, time de colunistas nacionais composto pelos jogadores mais renomados do Brasil. A revista é voltada para pessoas conectadas às mais modernas tendências mundiais de comportamento e consumo.

Sede: Rua Stela de Souza, 54 - Sagrada Família - Belo Horizonte/MG - CEP: 31030-490
contato@cardplayer.com.br
31 3225-2123
LEIA TAMBÉM!×