EDIÇÃO 85 » COLUNA NACIONAL

Dois Passos Para Frente (Às Vezes, Um Para Trás)

Não deixe passar as oportunidades de extrair valor. Mas saiba quando parar.


Fábio Eiji
Você já deve ter ouvido falar por aí que a diferença entre o bom e o mau jogador é que o bom jogador ganhará mais quando tiver a pior mão e perderá menos quando tiver a segunda melhor. Essa frase faz total sentido. Isso porque o bom jogador sabe analisar os ranges, os bordos e confia em sua leitura, enquanto o jogador ruim se apaixona por sua mão e gasta dinheiro e energia caçando blefes.
 
Em minha experiência com formação e treinamento de jogadores de poker, um dos assuntos que mais promovem discussões e resulta num grande salto de qualidade nas habilidades do aluno é o que trataremos no artigo de hoje: a aposta por valor que não espera um raise. Mais especificamente, estou falando de situações em que chegamos ao river com uma mão forte e que devemos apostar por valor, mas desistir quando o oponente fizer um raise.
 
Quantas vezes não chegamos ao river com um bom valor de showdown, que não é nuts, como top pair e bom kicker ou uma sequência em um bordo com três cartas do mesmo naipe? Quando apresento uma situação como essa e pergunto como agir, a resposta do aluno menos preparado quase sempre é “check-call” ou “bet-call”. E, em quase todas essas situações, ambas as opções são ruins.
 
Vejamos um exemplo para esclarecer melhor a ideia. A mão a seguir é a mesma que utilizei no Desafio do Eiji #4, postado em meu blog, no qual pergunto o que fazer no river. Ela foi jogada pelo meu amigo e jogador de cash games Rafael "ratitoBR" Eltz, em um Sunday Million Especial de WCOOP ($215) e ilustra bem o nosso tema.
 
Falando resumidamente das streets anteriores e sem informações sobre o vilão, podemos estimar que, por segurarmos o A, há muito menos combinações de flush draw no range do nosso oponente. Um float também é improvável, pois o board acerta muito bem nosso range (que é bem forte, pois abrimos do UTG) e apostamos no flop e no turn. 
 
Chegando no river, temos que decidir o que fazer. Nossas opções são: check-raise, check-call, bet-call e bet-fold. Tratemos cada uma separadamente, por ordem da pior à melhor.



CHECK-RAISE
Esta é a pior opção de todas. Quando o Herói opta pelo check no river, o faz para que o oponente possa apostar por valor com uma mão pior ou blefar seus draws que não se completaram. Logo, se o oponente aposta nesse river e fazemos um raise, ele simplesmente larga as mãos que não tem nada e, algumas raras vezes, paga com uma mão como K-Q, um pouco improvável por ser o último K do baralho e porque mostramos tanta força que é possível largá-lo tranquilamente. Ou seja, não há mãos piores que nosso A-K que pagariam um raise, apenas os fulls. Estaríamos colocando mais valor na mão do que ela realmente tem (overplay).
 
BET-CALL
Outra opção ruim e comum nas respostas do desafio. Quando escolhe apostar e ainda pagar um raise, nosso Herói espera que o vilão faça o raise river: 1) blefando com seus draws que não se completaram; 2) por valor, com um Rei pior (lembrando que há apenas um Rei restante no baralho). Há muito otimismo e pouca análise nessa escolha. Nosso Herói, aqui, esquece ou subestima a força que está mostrando quando abre raise de UTG e faz três apostas num bordo como esse. A reação mais comum dos oponentes nesse cenário é apenas pagar com K-X e, muitas vezes, largar outras mãos de valor, como 8-8 a Q-Q. O raise contra a terceira aposta do Herói mostra muita força e é raro encontrar blefes nessa linha, mesmo contra apostas pequenas como alguns sugeriram.
 
CHECK-CALL
Disparada a opção mais escolhida pelos leitores do blog; aliás, pela maior parte de meus alunos também. Alguns conceitos equivocados, como preocupação excessiva em controlar o pote, são os maiores causadores dessa confusão. O que o Herói espera é dar a chance ao vilão de blefar seus draws que não se completaram e apostar por valor um improvável Rei pior. 
 
Há dois problemas principais nesta linha. O primeiro e mais importante: há valor para se extrair nesse river e que o check acaba perdendo.  Nosso oponente certamente optará por pedir mesa com todas as mãos que tenham algum valor de showdown, como 88, 9-9, 10-10, J-J e Q-Q, que é basicamente o que ele representa. O segundo é que há poucas combinações de flush draw no range do oponente pois temos o A e apenas um Rei no baralho (repeti algumas vezes, mas é sempre bom lembrar). Considerando tudo isso, o range com que o oponente aposta tem muito mais mãos de valor do que de blefe. Por incrível que pareça, tendemos mais ao check-fold do que ao check-call.



BET-FOLD
Finalmente! Sim, apostar e dar fold para um raise, essa é a melhor solução para a mão. Vejamos por quê.
 
Em primeiro lugar, damos ao nosso oponente a chance de errar. Como dito anteriormente, ele com certeza irá pedir mesa com suas mãos que tenham algum valor de showdown. Nossa ideia, aqui, é fazer com que ele erre algumas vezes, pagando uma aposta em um river que reduz a quantidade de Reis que seguramos (que é exatamente o que estamos representando desde o pré-flop: A-K e K-Q).
Segundo, o oponente ainda tem todos as trincas em seu range. Lembremos o que ele não tem (ou raramente tem): flush draw, K-X, float. Logo, sobram basicamente as trincas e os pares de 8-8 a Q-Q. Como visto anteriormente, o oponente, no máximo, paga com os pares. E quando decide pelo raise, sobram basicamente os fulls.
 
O tamanho da aposta que sugiro deve ser grande para extrair mais valor dos "coolers" e erros que ele cometa e que ao mesmo tempo possa reduzir drasticamente os blefes do nosso oponente (quanto mais caro ficar, menos ele fará). 
 
Há diversas situações como essa em que o Herói comete o erro de perder valor ou pagar demais. Em ambas, ele perde dinheiro. O principal conceito que norteia esse assunto é a ideia do valor e blefe, lembrando que há dois tipos de aposta de valor: a que espera um raise (nuts ou situações mais particulares e subjetivas) e a  que não espera um raise, como nesse caso e em muitos outros do nosso cotidiano.
 
Com estudo e experiência, ficamos mais confiantes em nossas análises e decisões. Tenhamos paciência e calma para jogar as mãos da melhor maneira possível, extraindo o máximo de valor possível quando tivermos a chance.



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EDIÇÃO 85

Ano 8 - agosto, 2014

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