EDIÇÃO 119 » COLUNA INTERNACIONAL

O Fator Confiança


Alan Schoonmaker

“Como eu pude ser tão idiota?” é o título do meu primeiro artigo desta série [Card Player Brasil, edição 117] que venho escrevendo e a primeira pergunta do fascinante livro de Jason Zweig, Your Money & Your Brain (Seu Dinheiro & Seu Cérebro). Foi escrito para investidores — e poker é uma forma de investimento. Esse livro prova que o nosso cérebro nos faz pensar que somos muito mais espertos do que realmente somos. Hoje, vamos falar sobre confiança.


Confiança é essencial

A falta de confiança gera incertezas, e pessoas indecisas não podem ser bom investidores ou jogadores de poker. Zweig quase ignora isso. Quando ele fala de confiança, ele foca na verdade no excesso de confiança, em suas causas e seus efeitos. “O caminho para o inferno é pavimentado pelo excesso de confiança” — verdade para investimentos, para o poker e para a vida.


Excesso de confiança está em todo lugar

Uma pesquisa feita com 50 motoristas mostrou que quase dois terços deles diziam dirigir melhor do que a média. Todos eles estavam em um hospital e 70% foram considerados culpados por suas batidas, sendo que 44% possivelmente enfrentaria acusações criminais. 

É comprovado cientificamente que uma das características fundamentais do ser humano é pensar que ele é melhor do que realmente é. Se você perguntar a um grupo de 100 pessoas: “Comparado com as outras 99 pessoas aqui, quem é melhor do que a média em X?” Certamente, 75% das pessoas levantarão a mão, independentemente se X for dirigir um carro, jogar futebol, contar piadas ou usar bem a criatividade — apesar do fato que, comprovadamente, mais da metade das pessoas estaria abaixo da média do grupo.

Autoavaliar-se é mentir para si próprio. Dentro de cada um de nós esconde-se um charlatão que nos encoraja a uma imersão à parte mais inflada do nosso ego.


Estou no controle

O charlatão citado acima também nos faz acreditar que temos controle sobre evento incontroláveis. Mesmo quando os resultados são aleatórios, nós acreditamos que nossas decisões são melhores do que aqueles que outras pessoas fazem pela gente.

Vamos a um exemplo. Duas pessoas compra um bilhete de loteria. A primeira escolhe os próprios números. A segunda recebe números aleatórios. Antes do sorteio, se tentamos comprar seus bilhetes, por ter escolhido os próprios números, a primeira pessoa sentirá que de alguma maneira ela pode vencer as odds e que seu bilhete é especial, então seu preço será bem maior do que o da segunda pessoa.

Estudos apresentados no livro mostram que as pessoas se sentem mais confiantes quando realizam as próprias ações. Comprometimento gera confiança, mesmo quando a probabilidade de sucesso seja mínima.

Acreditar que estamos no controle reduz a atividade neural de áreas do cérebro que processam a dor, ansiedade e conflito. Ao ajudar a reduzir a rede angústias do seu cérebro, a ilusão de controle pode realmente trazer conforto.

A ilusão de que estamos no controle é mais forte quando uma atividade:

• Aparenta ser parcialmente aleatória.

• Oferece múltiplas opções.

• Envolve competir contra outras pessoas.

• Requer esforço.

• Parece ser familiar.

• Pode ser praticada ao longo do tempo.

Como o poker reúne todos os fatores acima, nós acreditamos com frequência quando aquele charlatão nos diz que somos melhores do que realmente somos. Nos lembramos de todas nossas boas jogadas, mas esquecemos ou minimizamos nossos erros. Incomodamos as outras pessoas com histórias de bad beat apenas para proteger nossos egos e preservar nossas ilusões.




A sorte está sorrindo para mim

Uma sequência de sucessos faz você se sentir que está jogando com o dinheiro da casa. Veja bem, apostadores costumam dividir mentalmente o dinheiro em “dois baldes”: o próprio dinheiro e o dinheiro da casa. Seu capital inicial é o seu próprio dinheiro, o que você ganha depois (lucro) é o dinheiro da casa. De alguma maneira, perder o “dinheiro da casa” machuca menos — o que é um pensamento errôneo, já que o valor do dinheiro é o mesmo.

Ganhar repetidamente, o que no poker chamamos de upswing, nos faz sentir que o futuro é mais previsível. Se você consegue ganhar 100 mil dólares em um mês jogando torneios de poker, seu cérebro automaticamente o faz acreditar que o próximo mês será da mesma maneira. Ter sucesso por determinado período lhe faz acreditar que a sorte está do seu lado, que nada é aleatório. O sucesso precoce faz as pessoas acreditarem que elas têm pode sobre um processo que pode ser totalmente aleatório. Agora, em vez de atribuir os resultados a algo abstrato como o acaso, a pessoa passa a materializar a sorte, uma força que está sempre ao seu lado. Isso leva investidores a fazerem investimentos descuidados e jogadores de poker a correrem riscos estúpidos, o famoso “jogar dinheiro no lixo”.

Quando um jogador de poker ou um investidor sente que nada pode detê-lo, ele invariavelmente cometerá erros amadores que, para pessoas que olham de fora, são inaceitáveis ou simplesmente estúpidos.


Profeta do acontecido

 “Eu imaginei”. “Eu já sabia”. “Óbvio que iria dar errado”. Quem nunca disse isso para si próprio ou para outra pessoa? Ou quem nunca ouviu isso de alguém? Muitas vezes isso é consequência daquele charlatão interior, que nos faz acredita que o futuro é mais previsível do que possa ser. Ele faz você se sentir um idiota quando olha para trás, mas também é quem lhe faz agir como idiota até o desenrolar dos acontecimentos. Muitas vezes, os resultados são apenas inevitáveis ou surpreendentes.


Seu maior desafio

Você pode acreditar que seu maior desafio está em dominar a teoria do jogo, a leitura de mãos e os “tells” dos adversários, mas a verdade é que o único grande desafio que você deve encarar é lidar com a verdade sobre você mesmo. Lute contra seu ego, que deseja mentir para você e para os outros. Perto disso, nada merece ser chamado de desafio.


Algeme seu charlatão interior

Já que ele é muito poderoso, você precisa de algemas fortes — e as melhores são registros detalhados e precisos. Não registre apenas seus resultados. Olhe com cuidado por que você está ganhando e por que está perdendo, e não minta para si mesmo sobre esses motivos.  Sempre achamos que a habilidade nos faz ganhar e o azar nos faz perder. Não caia em mais essa pegadinha do cérebro. Pensar dessa maneira nunca fará com que você aprenda com seus erros, impedindo que você evolua. Abrace seus erros. Ao aceitar seus erros em vez de enterrá-los, você transforma deficiência em qualidade. 

Em termos simples, para de se enganar. Analise, aceite e trabalhe suas fraquezas. Gradualmente, você melhorará suas habilidades e seus resultados.




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