EDIÇÃO 81 » COLUNA NACIONAL

Jogue a sua mão como ela merece


Fábio Eiji
Um erro bem comum de jogadores iniciantes é jogar sua mão de maneira mais forte do que ela merece. Chamamos isso de overplay. Esse erro acontece porque o jogador não domina corretamente o conceito de “motivos para apostar”.

No poker, uma aposta necessita de um motivo. Existem apenas três razões para se apostar: valor, blefe e recolher o dinheiro morto (dead money). Informação, proteção, bloqueio e intimidação são consequências e efeitos da aposta, não motivos.

Uma aposta por valor é aquela que visa receber ação de mãos piores. Existem duas variações: aposta por valor esperando um raise, que é aquela em que o jogador tem o nuts, seminuts ou induz a blefes; e a aposta por valor em que o jogador não espera o raise, tentando extrair basicamente do range de call do vilão.

Já uma aposta por blefe é aquela que visa receber fold de mãos melhores. As variações são o blefe total e o semiblefe, no qual o jogador ainda tem possibilidades consideráveis de melhorar sua mão, como draws. Aqui, cuidado: “Não existe outro jeito de ganhar a mão” não é motivo suficiente pra apostar por blefe, ou seja, o oponente deve ter mãos em seu range que certamente desistirão para a sua aposta ou aumento.

Recolher o dead money, geralmente, é um motivo complementar aos dois anteriores. É feita para encerrar a ação, mesmo que o jogador dê fold com mãos piores, mas que ainda têm uma equidade considerável — por exemplo, se temos J-9 em um bordo A-5-7, e nosso oponente tem T-8, ele ainda tem seis outs, além dos backdoors, para nos bater no showdown.

Para ilustrar a análise, utilizarei duas mãos que joguei, em um torneio ao vivo, como exemplos de situações em que houve overplay.


MÃO #1
Blinds são 75/150, tenho 109 no meio da mesa (MP) e 20.000 fichas. Vilão 1 (30.000 fichas) é um jogador loose-aggressive (LAG), bastante agressivo, pré e pós-flop, a ponto de cometer erros nesse sentido. Vilão 2 (25.000) é um jogador desconhecido.

Abro raise para 375, a mesa roda em fold até o Vilão 1, que paga no small blind (SB), e o Vilão 2 acompanha. Vemos o flop J-7-2, com uma carta de copas. Os dois pedem mesa, e eu faço uma continuation bet (c-bet) de 600, aproveitando que tenho uma boa equidade, com a broca pra nuts e um backdoor flush. O Vilão 1 dá raise para 1.400. O Vilão 2 dá fold, assim como eu. O Vilão 1 gentilmente mostra seu A-J.
Aqui temos um exemplo de overplay. O Vilão 1 certamente está jogando sua mão por valor, pois espera receber ação de mãos piores. Mas que mãos piores ele espera que eu tenha? E quais delas vão dar call? Quais delas vão dar raise? Supondo que ele espere que eu dê call com um improvável A-J, já que ele tem blockers para A-J, K-J, Q-J e QQ+; e dê raise com 2-2, 7-7, J-J e alguns blefes, como ele espera se comportar nas próximas streets?

Na verdade, ele acaba cometendo o erro de representar mais força do que realmente tem. Afinal, eu espero que ele faça isso com um range muito mais polarizado, entre trincas e blefes secos. E, na maioria das vezes, vou optar pelo fold de K-J e Q-J, por exemplo, e apenas dar call com QQ+. Por que apenas call com QQ+? Porque, como espero que ele esteja polarizado, não quero que ele desista de blefar e, ao mesmo tempo, não jogo por stacks contra seu range de valor, que está batendo meu K-K ou A-A.


MÃO #2
Blinds são 100/200, tenho AA, 25.000 e estou em MP. Vilão 1 (25.000) e Vilão 2 (15.000) são os mesmos da última mão.

Abro raise pra 500 e recebo call dos dois, nos blinds. O flop vem K-J-2, com duas cartas de ouros. Ambos pedem mesa, e eu faço uma c-bet de 1.200. O Vilão 1 dá raise pra 3.200, e o Vilão 2 dá fold.

Em uma situação normal, esse seria um bom exemplo para largarmos um par de Ases. Afinal, enfrentamos um range que contém 2-2, J-J, K-J e alguns combo draws de 109 e Q10. Ou seja, a equidade do A-A é bem ruim contra esse range de valor e semiblefe.

Mas essa situação está longe de ser normal pelas características do vilão. O modo como ele jogou o A-J anteriormente me mostrou que ele tem tendência ao overplay. Então, seu range de valor — o que ele considera valor — é maior do que um range normal. Portanto, optei pelo call flop.

Ele então apostou mais 4.800 quando o turn trouxe um Nove. Novamente, optei pelo call. O river foi uma carta irrelevante, e ele pediu mesa. Ali, tive dúvidas em apostar ou não. Ao mesmo tempo em que não espero que ele peça mesa com 2-2 e J-J, espero (equivocadamente) que ele vá de check com K-J e draws que não bateram. Ou seja, sobra apenas K-Q no range de mãos que ele me dá call e que estou à frente, já que com A-K, provavelmente, ele faria uma 3-bet pré-flop.

Pedi mesa, e o Vilão mostrou K-Q. Mais um exemplo de overplay, mas, dessa vez, o resultado ajudou a mostrar como ele se equivocou na análise dos ranges e acabou colocando mais valor em seu top pair do que ele merecia.


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EDIÇÃO 81

Ano 7 - abril, 2014

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