EDIÇÃO 70 » COLUNA NACIONAL

Jogadas Automáticas

Usando situações a seu favor


Felipe Mojave

Neste artigo, vou escrever sobre um tema que é comum a qualquer jogador de poker: as jogadas automáticas.

Você já deve ter ouvido uma centena de vezes a seguinte frase sobre uma jogada X ou Y: “foi standard (padrão)” – e é por isso que as decisões nessas situações são sempre as mesmas.

Há algum tempo venho pesando nisso e manipulando estas situações a meu favor. Acho que essa é uma decisão inteligente e que todo jogador deveria fazer o mesmo. Muitas vezes perdemos muito por acreditar que não havia escapatória aquela. Da mesma maneira, é provável que, em algum ponto, também deixaremos de ganhar dinheiro.  Claro que ainda existem diversas situações que não fugirão do padrão, mas vale lembrar que o jogo de poker inclui muitas variáveis e que, juntamente com alguns fatores externos, as situações podem mudar de figura com certa frequência.

Um exemplo bastante clássico é a 3-bet com uma mão forte e nunca considerar o fold para a 4-bet-all-in. Exemplo: O Jogador A abre raise de 2.5 vezes o blind. Você, com 23 big blinds, aplica uma 3-bet de sete vezes. O Jogador A volta all-in e você paga instantaneamente com JJ. Tudo parece normal, standard, automático. É aí que está o erro. No geral, a jogada será lucrativa – por isso é executada com enorme frequência –, mas não deve ser automática.

Imagine o cenário: seu oponente era um jogador bastante tight, que não jogava há um bom tempo e aguardava uma oportunidade para dobrar. Claramente, seu range de 4-bet-all-in era melhor do que par de Valetes. Ou seja, na melhor das situações, você estará envolvido em um coin flip. Nesse tipo de situação, outro cuidado a ser tomado é saber que quando um jogador te coloca all-in, sabendo que as chances de você largar sua mão são pequenas, as chances de ele ter uma mão forte são ainda maiores.

Aqui, é muito melhor o flat call (apenas pagar com uma mão que é boa o bastante para aumentar) e jogar em posição. O jogo de poker é bastante técnico e envolve situações e possibilidades de acordo com os seus oponentes. Por esse motivo, nunca é bom ligar o piloto automático.

É raro encontrarmos alguém que tenha disciplina para analisar toda a mão e decidir ficar com apenas 15 big blinds para trás. Esse fator acaba influenciando a decisão de jogadores fracos.

Quando mais automática é a jogada que você desempenha, mais básica ela é, e mais simples será para seu oponente entender o seu processo de raciocínio. Em um jogo de alto nível, fica fácil prever o seu modo de jogo e aplicar estratégias um tanto quanto simples contra você.

Outra situação automática é a guerra de blinds. Basta ter um Ás no SB ou no BB que o sujeito se sente o super-homem e fica disposto a colocar tudo no pano. Nessa situação, há uma óbvia vantagem matemática de se vencer a mão ao segurar um Ás, mas, ainda assim, não deve ser algo mecânico.

Um exemplo interessante aconteceu comigo no Main Event do EPT Monte Carlo, na mesa da TV, inclusive. Isaac Haxton acabou comentando em voz alta: “Um grande fold aí, Felipe”.

A mesa rodou em fold até o SB, que me colocou em all-in. Eu tinha 16 blinds e segurava J-10. Normalmente, eu teria que dar esse call com quaisquer figuras, pois sei que é a decisão mais lucrativa. Porém, eu não estava no piloto automático. Fui buscar mais informações. Lembrei que estava levando uma vantagem enorme contra aquele jogador e que ele já tinha me cedido o walk (quando toda a mesa desiste, inclusive o small blind) por duas vezes. É fato que aquele oponente tinha uma mão melhor que a minha. O exercício de “parar para pensar” e analisar a situação, mesmo que já predisposto a dar o call, é primordial.

Existem milhares de situações que podem ser enquadradas como jogadas automáticas. Agora que vocês já sabem onde fica Norte, é hora de ajustar outros fatores, como a velocidade e o trajeto.




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