EDIÇÃO 54 » ESTRATÉGIAS E ANÁLISES

Quando a maré não está para fish

Diferenças entre jogar mal e se dar mal


Ed Miller

Você acaba de jogar quatro horas de no-limit hold’em em uma mesa de $1-$2. E perdeu $300. Você jogou mal? Ou simplesmente sua maré é que não está para peixe? Provavelmente, um pouco de cada. Pode ser distinguir separar “jogar mal” de “se dar mal” logo após a sessão terminar. Porém, se você quiser aprender com seus erros, vale a pena separar uma coisa da outra.

Há um monte de maneiras de as coisas não darem certo para você durante a sessão de poker, muitas delas são sutis. Não vou lhe ensinar, aqui, a racionalizar seus resultados ruins. Pelo contrário, entender como o fator sorte funciona em nosso esporte mental permite que você visualize melhor o que é ou não possível controlar. Vamos dar uma olhada em coisas que acontecem quando a maré não está, digamos, para “fish”...

Oponentes acertam cartas contra você
Essa é óbvia. É o “se dar mal” que dá na cara. Você vai all-in no turn com uma trinca maior contra uma trinca menor, e o sujeito acerta o único out no river, completando a quadra. Parceiro, isso é BBB: bad beat brutal.

Você não acerta nenhuma ou quase nenhuma mão por um tempo
“Eu não recebi um único par em quatro horas!” Acontece. “Eu tinha A-K ou A-Q sete vezes e não acertei nenhum parzinho!” Idem. Essa é óbvia. Nem vou me dar ao trabalho de aprofundar o assunto.

Seus oponentes acertam mãos contra você
Essa aqui já sutil e frustrante. É diferente do primeiro tópico. Não é que você esteja colocando bem o dinheiro no pote e a carta errada aparece: em vez disso, seus oponentes estão simplesmente acertando mais mãos do que o normal.

Você dá raise de três big blinds pré-flop e toda vez alguém volta reraise. O jogo está hiperagressivo? Talvez, mas não se esses três reraises tiverem sido os únicos da última hora. Você simplesmente bateu de frente com mãos grandes três vezes. Isso é o que acontece quando a maré não está para peixe.

Você dá raise pré-flop com K-J e consegue dois calls. O flop vem 10-7-5. Os que pagaram dão check, você aposta, e um jogador dá call. O turn é um 7, e seu oponente faz uma aposta alta. Você se deu mal. Ponto.
Você dá raise pré-flop seis vezes em uma hora e meia, não acerta o flop nenhuma vez, e um oponente dá call ou raise na sua continuation bet. É frustrante pra caramba. E na maioria das mesinhas baratas, quase sempre é sinal de que você apenas se deu mal.

Agora você dá raise pré-flop com Q-Q, e o big blind paga. O flop vem J-9-3. Seu oponente dá check, você aposta, ele paga. O turn é um ás. Ele dá check, você aposta de novo, ele dá check-raise...

Esta forma específica de atolar a charrete pode ser traiçoeira. Ao contrário de simplesmente não receber nada para jogar, você está investindo dinheiro nas mãos antes de elas desandarem. Além disso, diferentemente de entrar no pote na melhor situação e perder, você não está chegando ao showdown: sua festa está acabando com o oponente dando raise, e você, fold; ou com ele dando call, e você, check e fold em seguida. Depois de algumas dessas, começa a passar pela sua cabeça, “será que os parceiros estão de marcação comigo?” É a vaquinha da sanidade começando a ir para o brejo.

Não se preocupe, a mesa não decidiu de repente conspirar para tirá-lo de todas as mãos. Você não está sendo perseguido. Chega de esquizofrenia. Os parceiros apenas estão acertando as mãos, e o molho está azedando por causa disso.

Seu oponente dá sorte
Você tem uma queda para flush de dama, e o ás do seu naipe aparece no river. Você coloca o dinheiro no pote, e seu oponente tem o flush de rei. Paciência, seu jipe acaba de capotar. Não há nada que você possa fazer.

Esse fenômeno é o mesmo do anterior, exceto que, em vez de o oponente dar raise e você ser forçado a dar fold, você tem uma mão forte o suficiente para ir all-in. Uma única baralhada pode arruinar uma sessão inteira, e frequentemente é apenas o vento que está soprando para o outro lado.

Seu oponente não acerta nada sempre que você completa a mão
Nesta noite, você acertou três trincas e dois flushes, e apostou no flop. Todos deram fold.

Esse tipo de coisa pode lhe fazer questionar seu jogo. Quando isso acontece com frequência, você começa a pensar, “Putz, eu devia estar fazendo slowplay com as minhas mãos fortes...”

Tudo bem, o slowplay às vezes faz sentido em no-limit. Mas basta um fio de cabelo para se tornar exagerado. Decisões de slowplay devem se basear na textura do bordo e nas tendências dos oponentes, e não no que aconteceu nas últimas cinco vezes em que você acertou uma mão forte no flop.

Sua mesa ou seu lugar é ruim
Essa vale, é claro, para torneios em que sua mesa e seu lugar são sorteados. Mas também pode acontecer em cash games.

“Como eu sou vencedor, espero ganhar X dólares por hora em média quando jogo”, você pensa. No entanto, esse número é a média de ganhos por hora em todos os jogos de poker que você participa em um ano (ou mais).

Em um dia qualquer, é possível ganhar muito mais ou muito menos.

Nem toda mesa de $2-$4 é igual. Um belo dia, você se senta para jogar e há um ricaço bêbado à sua direita com um stack de $5.000. Nessa situação, sua média de ganhos por hora seria considerada bem melhor. Outro dia, um bando de turistas está à sua esquerda, todos com stacks de US$200. Situação abaixo da média.

É preciso fazer algum esforço para escolher o melhor jogo e o melhor lugar. Se não houver nenhuma mesa boa, talvez você deva tentar um lugar diferente. No entanto, pela definição de “média”, você às vezes será forçado a jogar em uma posição ou mesa abaixo da expectativa. Vale a pena conhecer essa importante forma de se dar mal.



Considerações Finais
Metade das vezes em que você se sentar para jogar poker, é provável que se dê mal. Se for um jogador habilidoso, pode ganhar de qualquer forma, contanto que não se dê mal demais. No entanto, se você não acertar nenhum flop em cinco horas e o oponente tiver sorte na única vez em que você acertar, não importa o quão bom você seja. Bons resultados dependem de um pouco de sorte. Repito, um pouco.

É importante para a sua sanidade, assim como para suas tentativas de melhorar, que você seja capaz de revisar a sessão e distinguir os resultados ruins daqueles que você não podia controlar.

No entanto, não racionalize todos os resultados ruins como “eu me dei mal”. É normal que a gente faça uma jogada ruim aqui e ali. Na próxima edição, vou mostrar de que forma essas jogadas lhe colocam em situações que poderiam ter sido evitadas.





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