EDIÇÃO 78 » COLUNA NACIONAL

Estou perdendo, mas vou pagar


Felipe Mojave

Antes de começar o artigo de hoje, eu queria agradecer a todos vocês que sempre leem as minhas colunas. Para quem está com a Card Player em mãos pela primeira vez, saibam que costumo mesclar os mais diversos assuntos relacionados ao poker, seja nas modalidades ou nos níveis de jogo.

Inclusive, o material de hoje serve para jogadores iniciantes e avançados.

Existe uma situação no poker que acontece e atormenta todos os jogadores: dar o call quando a situação mostra que você está perdendo. Sim, isso acontece com todo mundo. Obviamente, acontece com mais frequência entre os menos inexperientes, mas são inúmeros os casos entre profissionais do mais alto gabarito que não conseguem soltar uma mão forte e acabam despejando umas fichas a mais no colo do adversário, mesmo sabendo que as chances de derrota são grandes.

Vamos a um exemplo clássico: o check-call no river. Essa jogada tem uma essência de minimizar riscos e, muitas vezes, esse fator, por si só, já é motivo para o jogador pensar: “Perdi o mínimo” ou, “joguei bem". E o correto, na verdade, seria o check-fold e a perda efetiva mínima: zero. 

Digamos que você tem 99 e abre raise em MP. Seu oponente, no BTN, dá call, assim como o SB e o BB. O flop vem 1094. O SB e o BB dão check. Você aposta 2/3 do pote. O BTN dá call, e o SB também. O turn é um 8, o SB dá check e você aposta metade do pote. O BTN dá raise, o SB dá fold, mas você paga.

No river, um A aparece. Você pede mesa, o BTN aposta forte e você paga. Ele mostra QJ, uma sequência.

Quando seu oponente dá o call no flop, raise no turn e aposta forte o river, isso não é um grande indício de uma sequência? A resposta é sim. E, mesmo assim, você deu o call. Por quê? Bom, normalmente as justificativas são: "Ah, mas eu só perdia para sequência", "ele poderia ter dois pares" etc.

Geralmente, arrumamos uma desculpa para colocar o nosso oponente em uma mão mais fraca que a nossa, pois não conseguimos dar fold em mãos fortes, mesmo quando a verdade está à nossa frente. Sim, é muito difícil dar fold em trincas, mas o ato de “pagar para ver”, normalmente, terá um final infeliz.

A minha principal dica nessas situações é repensar toda a jogada e fazer um exercício de range, ou seja, tentar identificar as possíveis combinações de mãos que o seu oponente jogaria daquela forma. Se há algo indicando que uma mão que lhe derrote esteja em evidência nesse range, dê fold e comece a pensar nas próximas mãos.



Outra situação conhecida, que segue a linha deste artigo, é quando você sabe que o oponente deu o call para ver determinada carta e mesmo assim você vai para o check-call. 

Imagine a mesma situação anterior, porém, desta vez, no turn, o BTN só dará call, assim como o SB. Existem fortes indícios de flush draw aqui, certo? No river, um 3 aparece, completando um possível flush, e seu oponente do SB sai apostando, fora de posição, contra dois jogadores. Mais um indício evidente de um flush. E, ainda assim, nessa situação, são poucos os jogadores que dão fold em suas trincas. 

Nesse caso, muitos jogadores não conseguem enxergar que a jogada está totalmente equivocada. Você percebe que apostou forte no turn e não deu odds para o seu oponente, mas ele ainda deu o call, portanto ele é um jogador fraco e a sua jogada está justificada. Mas tão ruim quanto o call no flush draw é o seu call no river sabendo que ele tem o flush. Quando você está batido, você está batido.

Outro ponto importante aqui é que você está entre dois jogadores. Ainda existe a possibilidade do jogador que está em posição sobre você ter completado uma mão no river, o que aumenta ainda mais o risco de call neste tipo de situação.

Com certeza, o poker é um dos esportes que requer a maior carga de disciplina e poder de raciocínio sob pressão, por isso é tão fantástico e nos leva a graus superelevados de análises, em que mesmo em uma situação teoricamente simples e aberta, ainda assim conseguimos errar.

Espero que vocês tenham curtido este pequeno exemplo e que sirva de aprendizado para situações similares no futuro.




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