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BSOP Million 2011

Paraibano Flávio Reis vence o torneio nacional mais importante do ano e leva o título de Campeão Brasileiro de Poker para João Pessoa


Marcelo Souza
Quando as novidades da etapa de encerramento do BSOP foram divulgadas, a comunidade do poker ficou agitada. Jogadores amadores, profissionais e a imprensa, todos aguardavam ansiosamente pelo evento que prometia distribuir mais de 2 milhões de reais. Eu era um desses.

Desembolsar R$ 1.800 para jogar um evento de poker não é fácil. O valor é bem alto até para os profissionais, ainda mais considerando os gastos com transporte, hospedagem e alimentação. Mesmo assim, minha intenção era encarnar o jogador-jornalista pela terceira vez este ano. O problema era o valor do buy-in. Nada que meu grande amigo de infância Victor Drummond não resolvesse rapidamente. Ele que, além de ter participado do histórico evento principal, bateu na trave no Second Chance. Agora que eu seria devidamente “cavalado”, com todos os detalhes acertados, só me restava contar os minutos para a quinta-feira, 24 de novembro.

Muito se falou que o field da quinta-feira seria o mais difícil dos três dias iniciais. Não só os profissionais de São Paulo estariam presentes, mas todos aqueles que engatariam no torneio de Omaha no dia seguinte, caso de Felipe Mojave, Ariel Bahia e Leandro Brasa, para citar apenas três. Ainda assim, foram 451 inscritos, o que diminuía as chances de eu cair em mesas muito complicadas.

Posso dizer que as coisas começaram dando certo para mim. Os adversários mais fortes eram o apresentador do TV Poker Pro, Vini Marques, e o futuro finalista Renato Carvalho. E meu início foi uma montanha-russa daquelas. Não cheguei a ficar short em relação às 20.000 fichas iniciais, mas estive abaixo de 15.000 por duas vezes. Ainda assim, meu jogo fluiu, e no final do terceiro nível meu stack era de 25.000. Eis que minha mesa foi desfeita.

Agora, eu tinha sido colocado à esquerda do então chip leader do torneio. Era apenas o início do quarto nível de blinds, mas o cidadão já acumulava incríveis 180.000 fichas. Impressionante. Logo que me sentei, fui informado de que outros cinco já haviam sido eliminados no meu assento. Maldição? Bem, não sei, fato é que, a partir daquele momento, nada mais eu certo. O primeiro sinal do desastre veio quando recebi um belíssimo par de reis no UTG+1. Dei um raise padrão e fui pago pelo small blind e pelo homem com o stack monstruoso, no big blind. O flop foi perfeito, sem draws para sequências ou flush. Apostei 2/3 do pote, tomei call do big blind. O turn dobrou a menor carta da mesa. “Ótimo”, pensei. Apostei forte, e novamente fui pago. O river foi um ás, e senti uma pontada no estômago. Meu oponente analisou o bordo por alguns segundos e pediu mesa. Já esperando pelo pior, cerrei os punhos e bati levemente no feltro, apenas para ver meu adversário mostrar um A. Frustrado, escondi meus reis.

Dali em diante, só ladeira abaixo: meu pares não trincavam, minhas tentativas de isolar limpers eram inúteis e minhas c-bets sofriam reraises gigantes. O resultado disso é que fui reduzido a 15 big blinds. A mesa seguia insana, com ases sendo quebrados, flushes pulverizando trincas e por aí vai. Eu sabia que, quando recebesse uma mão, seria a oportunidade perfeita para dobrar minhas fichas. E ela veio ao final do sexto nível. Quando eu abri um AQ, sabia que era hora de ir para o chão. Subi a aposta, recebi um call e o all-in do big blind, que tinha quase 13 big blinds. Paguei. Era um coin flip clássico. Infelizmente, o par de valetes do meu oponente se manteve firme e, duas mãos depois, com menos de três big blinds, eu estava de all-in do UTG sem sequer olhar as cartas. A ação rodou em fold até “meu amigo” chip leader, que voltou um reraise gigante segurando par de noves. Para minha tristeza, eu tinha 84. No turn eu já estava drawing dead, sem chances de vencer a mão.

Alheio ao meu fracasso, o Dia 1-A seguiu a todo vapor. E com o sol já apontando, Léo “Bode”, de Belo Horizonte, era quem terminava na liderança com 256.600 fichas entre os 115 sobreviventes. Outros nomes que avançavam com stacks respeitáveis eram Rodrigo “Zidane” Caprioli (200.800), Eric Mifune (127.000) e Caio Brites (82.500).

Na sexta-feira, acordei conformado com a eliminação, e ansioso para disputar meu primeiro torneio ao vivo de Omaha. Enquanto no Main Event 501 jogadores lotavam os salões, Felipe Mojave, um dos principais nomes do Brasil na modalidade, sentava-se a minha esquerda. Antes dele, Leandro “Amarula” já havia sido eliminado no mesmo assento. Jogar ao lado de Mojave foi fantástico. Conversei bastante com ele, e acho que consegui fazer várias correções no meu jogo, que foram bastante valiosas durante o torneio. Joguei o que eu sabia. Blefei muito pouco, evitei entrar em situações marginais e quando dei por mim, o relógio marcava quase cinco da manhã e eu estava entre os 25 jogadores restantes. 15 ganhariam dinheiro. Em certo momento, quando eu estava short, a mesa quase toda entrou de limp e eu tinha A-A-5-5 suited em ouros, uma mão dos sonhos para aquela situação. Tripliquei. Junto com as fichas, veio também uma enorme confiança para ir ainda mais longe no torneio. Infelizmente, acabei caindo em 19º, depois de investir todo o meu stack em um stragith-flush draw que não bateu.

Nos salões superiores, o Dia 1B também chegava ao fim, e 136 jogadores voltariam aos feltros no domingo. Eduardo "Baianoments" Matias (278.200 fichas) era o principal destaque. Entre alguns dos eliminados estavam André Akkari e Thiago Decano.

O terceiro dia de torneio confirmou o que todos já sabiam: com as 494 inscrições, aquele BSOP entraria para a história do poker brasileiro. Os 1.446 jogadores confirmaram o recorde nacional em relação ao field, e a premiação superior a 2 milhões de reais fez do evento o segundo maior de todos os tempos no país, atrás apenas do LAPT São Paulo, realizado em fevereiro deste ano.

No domingo, enquanto eu descia para o salão principal a fim de acompanhar os 394 sobreviventes, me deparei com uma figura muito simpática. Era o paraibano Lucas Porpino, que eu conhecera no BSOP de Balneário Camboriú. Durante nossa conversa, ele me contou que já havia sido eliminado, mas que estava ali torcendo por um conterrâneo, e que eu, como jornalista, deveria ficar atento, pois o garoto tinha talento e poderia fazer bonito na etapa. Seu nome era Flávio Reis, o “flavioreis88” da internet,  um dos grandes nomes do poker online brasileiro em 2011.

Confesso que no início não dei a devida atenção ao “alerta” do meu amigo de João Pessoa. Mas ao ver aquele rapaz de boné e óculos escuros acumulando mais e mais fichas, pressionando os adversários como estivesse em mais uma das inúmeras mesas em que joga diariamente na internet, minha curiosidade foi atiçada. Na segunda-feira, quando a definição dos nove finalistas estava próxima, não tive mais dúvidas, seria difícil alguém tirar o título dele. Flávio era uma máquina de raises, reraises, floats e c-bets. “A caixa de ferramentas estava aberta”, como dizem no jargão do poker. Poucas vezes na minha curta carreira pude ver alguém pressionar tão bem uma bolha de mesa final como Flávio fizera. O resultado foi a liderança e um stack de 100 big blinds para a batalha decisiva.

Sua tarefa, no entanto, não seria fácil. Pelo caminho, ele teria outros excelentes jogadores. “Guilis”, do Fichas Online, Toddasso, conhecido jogador do circuito live, e meu amigo Fábio Issa, que fez uma grande temporada no circuito mineiro em 2011, prometiam atrapalhar sua vida. Jogadores como Wagner Honório, terceiro colocado no BPT e com mesas finais nos grandes torneios de São Paulo, e Marco Antônio, que havia passado para o Dia 2 com menos de 10 big blinds, também não poderiam ser desprezados.

Graças à ótima estrutura, a mesa final foi uma das mais demoradas do ano. Depois das duas primeiras eliminações, a ação na mesa teve uma queda brusca. Flávio, que vinha se segurando um pouco no início, começou a pressionar bastante. Porém, ao contrário do dia anterior, os adversários agora revidavam com reraises e all-ins. “Guilis”, que chegou estar em situação crítica antes da formação da mesa final, começou a se recuperar, e a cada mão construía um stack mais sólido. Flávio, em contrapartida, viu sua situação se complicar um pouco na batalha 4-handed, quando viu seu stack cair perigosamente, ficando abaixo dos 20 big blinds. No final, Guilis e Flãvio, que apresentaram o melhor poker durante a mesa final, fariam o heads up. Confronto esse que definiria o campeão geral do ano, e que também valia um pacote completo para disputar o Main Event da WSOP 2012, em Las Vegas.

A decisão começou praticamente empatada, com uma pequena vantagem para Guilis. A disputa acirrada se estendeu madrugada adentro. Ambos os jogadores tiveram a oportunidade de sair com a vitória, mas o baralho quis que a batalha fosse prolongada quando permitiu que o par de noves de Flávio superasse o A-K de “Guilis”. E depois que o J3 do paranaense batesse, no river, o par de dois do jogador de João Pessoa. No final, a vitória acabou com “FlavioReis88” que – por um capricho do destino, vai saber – acabou levando a disputa justamente com um par de oitos, depois de acertar um full house em um bordo com 4 A 4 8 4. Em 2011, o bracelete de prata destinado ao Campeão Brasileiro vai cintilar sob a sombra dos coqueiros de João Pessoa, no pulso do paraibano Flávio Reis.

Campeão – Flávio Reis (R$ 443.800 - João Pessoa/PB)
2º Colocado – Guilherme "Guilis" Garcia (R$ 278.650 – Apucarana/PR)
3º Colocado – Marco Antônio Araújo (R$ 196.950 – Manaus/AM)
4º Colocado – Renato Carvalho (R$ 151.250 - São Paulo/SP)
5º Colocado – Thiago Henrique da Silva (R$110.600 - Jundiaí/SP)
6º Colocado – Leonardo Martins (R$ 79.700 - São Paulo/SP)
7º Colocado – Juvaldi Júnior (R$ 60.600 - São Luís/MA)
8º Colocado – Fábio Issa (R$ 42.550 - Belo Horizonte/MG)
9º Colocado – Wagner Honório (R$ 28.950 - São Paulo/SP)

Eventos Paralelos
Pot Limit Omaha (152 jogadores – R$ 800)
1º Ariel “Ariel Bahia” Celestino – R$ 28.900
2º Marcos Franja – R$ 17.550
3º Thiago Camilo – R$ 11.350

Ladies Event (70 jogadoras – R$ 300)
1ª Fabiana La Foz – R$ 5.650
2ª Kelly Zumbano – R$ 4.000
3ª Lilian Costa – R$ 2.950

Second Chance (271 jogadores – R$ 600)
1º Victor Sbrissa – R$ 26.300
2º Victor França Drummond – R$ 23.000
3º André Torresani – R$ 19.500

High-Rollers (123 jogadores – R$ 3.400)
1º Alexandre Rivero – R$ 101.300
2º Paulo Grendene – R$ 61.300
3º Victor Talamini – R$ 39.450

6-Max Championship (258 jogadores – R$ 1.000)
1º Victor Dias – R$ 52.350
2º “Carlao46” – R$ 34.200
3º Cristiano Paraná – R$ 24.400

Last Chance (144 jogadores – R$ 300)
1º Caio Vivo – R$ 10.000
2º Francisco Ogawa – R$ 6.100
3º Fabiano Baccari – R$ R$ 4.000

Ficha Técnica
8ª Etapa do Brazilian Series of Poker
Local: Holiday Inn Parque Anhembi (São Paulo - SP)
Data: 23 a 29 de novembro
Buy-in: R$ 1.800
Field: 1.446 jogadores
Prize Pool: R$ 2.197.920



Entrevista com Flávio Reis


Flávio Reis tem 23 anos e joga profissionalmente há dois. Depois de conquistar o título mais importante de sua carreira, ele conversou com a CardPlayer Brasil e falou sobre o título, os amigos e o futuro no poker.

É verdade que você não vinha para o BSOP?
Bem, eu moro em João Pessoa, longe de São Paulo. Passagem, estadia, tudo custa muito caro. Mas eu conquistei o circuito paraibano e acabei ganhando uma vaga para o BSOP Million.  Cheguei aqui e cravei o torneio, graças a Deus.

Sua atuação foi muito elogiada não só por aqueles que acompanharam o evento, mas por grandes especialistas do Brasil. Qual seu balanço geral do torneio?

Logo no Dia 1-A, eu caí na mesa do Caio Pimenta. Ele é muito agressivo, complicado de enfrentar, mas consegui manter meu stack até mudar de mesa. No final do dia, dobrei minhas fichas e avancei um pouco abaixo da média.

No Dia 2 as coisas deram muito certo. Joguei o meu melhor, as cartas ajudaram, as situações foram favoráveis e consegui alavancar meu stack, sempre na casa de 120 a 150 big blinds. Isso me deu flexibilidade.

Quando restavam 15 jogadores, vi que não tinha nenhum profissional na minha mesa, e todos estavam querendo muito chegar à final table – cenário perfeito para se explorar. Comecei a dar muitos raises, o que irritou meus adversários e fez com que eles cometessem erros. No final das contas, eu consegui acumular muitas fichas e cheguei entre os nove finalistas como chip leader.

Na mesa final minha estratégia era segurar um pouco. Como havia três ou quatro jogadores bem short, eu sabia que se começasse a abrir muitos raise, acabaria enfrentando muitos all-ins. Quando restavam sete jogadores, comecei a acelerar mais, mesmo sem receber cartas boas. Ao tentar manter meu stack, subindo pelo menos uma vez a cada órbita, comecei a tomar reraises e acabei ficando entre 10 e 15 blinds. Mesmo assim, mantive a concentração. Eu sabia que, quando soprasse um vento a favor, eu estaria firme no jogo novamente.

Qual a importância dos seus dois conterrâneos, Lucas Porpino e Ed Angelis, que estiveram na torcida até a última mão?
Eles estão comigo desde o começo. O Lucas me ajudou em tudo, me apresenta para todo mundo e me deu um apoio sensacional. Ele é o cara. O Ed Angelis também. Depois que foi eliminado do evento principal, ele não engatou em nenhum outro evento paralelo só para ficar na torcida. Também teve outra galera torcendo. Vieram outros cinco de João Pessoa, que torceram muito, mas tiveram que voltar por causa de trabalho, compromissos etc. E eles acompanharam tudo pela internet.

Planos para o futuro dentro do poker?

Eu vou grindar bastante. Nunca tive a certeza de que queria ser um jogador de poker para o resto da vida, mas uma vitória como essa traz confiança. Mostra que aqui é o meu lugar. Pretendo correr todo o circuito live e continuar jogando bastante online, como sempre fiz.

E o Main Event da WSOP, em Las Vegas?
A ficha ainda não caiu. Jogar o maior torneio de poker do mundo, ter a oportunidade de lutar pela maior premiação do esporte mundial e ainda conhecer Las Vegas, que deve ser a melhor cidade do planeta. Ainda não estou acreditando.

Alguma consideração final?
Eu quero agradecer a minha namorada, que me apoia bastante. Aos meus pais, que sempre estiveram do meu lado. E aos meus amigos. Passei por muitas fases ruins, cheguei até a colocar em xeque a minha carreira. Mas eles estavam ali, dizendo que eu tinha talento, que tinha futuro, sem me deixar desistir. Essa conquista foi a realização de um sonho. Não existem palavras para mensurar o que estou sentindo. Como eu disse antes, a ficha ainda não caiu.




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