EDIÇÃO 50 » COLUNA NACIONAL

Abort Mission - É preciso saber a hora de dar fold


Felipe Mojave

Você já ouviu falar em “shut down”? Esse conceito é bastante difundido entre os profissionais e afirma que, ainda que o plano seja agredir, ao notar-se grande força de resistência por parte do adversário, o mais indicado é abortar a missão e desistir da jogada.

Como se pode ver, essa é uma medida que visa a minimizar perdas. Muitas vezes, porém, quem a aplica não está blefando. O jogador pode realmente acreditar que a sua mão está perdendo ou que o adversário vai apostar forte no turn ou no river, criando uma situação desconfortável e forçando seu fold. Recentemente, tive experiências em que precisei desligar o botão de blefe. Algumas delas eu apresento agora.


Exemplo 1

Durante o Dia 2 do BSOP São Paulo, em uma mesa relativamente tranquila, eu vinha jogando muitas mãos e encontrando bastante resistência, principalmente pré-flop e no flop. Assim, por que não adotar o “shut down” quando houver uma resistência maior, ou seja, além do flop? Este exemplo é bastante conceitual e explica bem como aplicar a técnica. Ele mostra que meu índice de shut down para o turn e o river nessa mesa tem que ser alto, já que meus adversários só continuarão na mão quando estiverem muito bem, de modo que o risco de ser pago é muito maior do que de costume.



Exemplo 2

Outro exemplo, mais prático, aconteceu também no BSOP São Paulo. Eu tinha cerca de 220 mil fichas, acima da média nos blinds 2.000-4.000-500. Aumentei para 9 mil fichas do UTG+1 com AJs. O Big Blind defendeu. O flop veio 8-9-9, meu oponente deu check e eu apostei 14 mil. Ele rapidamente deu call, e no turn bateu um rei. Após ele dar check outra vez, eu acreditava que essa era uma carta excelente para continuar blefando, já que ele defenderia muitos pares e ficaria complicado continuar nessa linha com a provável overcard no turn. Apostei 23 mil fichas e, para minha surpresa, ele deu call bem rápido novamente. O que isso queria dizer? Bem, quando um jogador tende a defender as apostas de modo rápido e em sucessivas streets, indica que ele planeja fazer isso também no river, na maioria das vezes.

Com isso em mente, vimos bater um 3 na quinta carta. Resolvi dar check-behind e abrir mão do pote, já que as chances de tomar mais um call eram realmente grandes. Minha decisão me salvou cerca de 35 mil fichas, possível tamanho da minha aposta. Vale observar também que ele poderia ter uma mão muito forte, como um full house, e não necessariamente fosse para o check-call com uma mão como par de dez, por exemplo. Ele poderia dar check no river por saber que eu não tinha nada e a única maneira de extrair mais fichas seria essa.

A dica aqui é a seguinte: não blefe por blefar. Analise com cuidado as mãos que você está representando e o range do seu oponente, então calcule as chances de ele dar fold, comparando os stacks (isso é importantíssimo). É aqui que entra o conceito de shut down, quando você acredita que o índice de sucesso do blefe é realmente pequeno.

“Mas isso não se confunde com a fold equity?” alguém poderia perguntar. A resposta é não, pois em situações de grande fold equity, seu oponente ainda pode dar a entender que talvez desista no river só para fazer você apostar mais uma vez.



Exemplo 3

WSOP 2011, evento de US$1.500. Justamente por acreditar que havia uma grande taxa de fold equity, resolvi não aplicar o shut down e acabei sendo eliminado do torneio. Eu tinha mais ou menos 17 mil fichas, e os blinds estavam 150-300. Subi para 650 com 67s do cutoff e o big blind voltou 2.000 fichas. Dei call e o flop veio Q-8-4 de naipes diferentes. Ele apostou 3.200 e, apesar de ter uma queda na broca, eu dei float, o famoso “call sem nada”. No turn bateu um 7, me dando um parzinho. Antes que eu me esqueça, nossos stacks eram idênticos. Ele pediu mesa e eu disparei 4.400, ficando com cerca de 8 mil restantes. Ele deu call, e o river trouxe outro 8, deixando o bordo com Q-8-4-7-8. Ele pediu mesa e, na minha leitura, eu tinha certeza de que o range dele era bem curto.

Na minha cabeça, só poderiam ser três mãos: J-J, T-T ou 9-9. Eu acreditava que o ideal seria ir all-in no river, pois grande parte das vezes ele largaria um par de valetes ali. Pensei apenas na fold equity e acabei me esquecendo de que, se ele deu call do turn achando que estava na frente, por que daria fold no river? Era a hora certa de utilizar o shut down. Eu perderia 10.000 fichas naquela mão depois de uma jogada bem tramada, mas que deu errado. Mesmo sendo difícil, eu ainda ficaria com 8.000 nos blinds 300-150 e a vida seguiria.

Muitas vezes, a tendência do adversário é não desistir. Por mais que a situação pareça ser realmente boa para blefar, a melhor opção é mesmo desistir. Ponto. Acabei errando e tomando call justamente de um par de valetes, uma das mãos que eu não queria ver pela frente. O call dele foi bom? Sim. Eu joguei mal? Sim.

Essa era a hora certa de desistir da mão, mas outros fatores acabaram me influenciando e não me deixaram dar fold. No final das contas aprendi mais uma grande lição, a de que é preciso ficar atento para não tomar decisões erradas baseadas em informações corretas, porém mal-interpretadas. Da próxima vez, nem precisa perguntar: darei fold.





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EDIÇÃO 50

Ano 5 - setembro, 2011

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