EDIÇÃO 43 » COLUNA NACIONAL

O Poker está voltando às raízes?


Christian Kruel

Todo mundo sabe que o poker é dinâmico, que evolui rápido e que se você não acompanhar essas mudanças, vai ficar para trás rapidamente. Mas para onde está indo o poker? Foi pensando nessa questão que surgiu artigo que vocês vão ler agora.

Eu me considero um sujeito experiente no feltro. Jogo há mais de dez anos e vi muita coisa acontecer. O que tenho percebido é que os grandes vencedores de hoje estão voltando a valorizar características e posturas típicas da chamada “old school”, a famosa velha guarda.

Aspectos como sobrevivência em torneios ou a busca pelo sentido real das apostas estão se tornando temas recorrentes entre grandes jogadores da atualidade. Tenho notado que, diversas vezes, eles acabam jogando da praticamente mesma forma que os medalhões de décadas passadas, só que, em geral, com explicações diferentes.

Reforçando essa minha crença pessoal, vale dizer que há alguns dias li um artigo de Andrew Brokos no TwoPlusTwo.com intitulado Betting For Protection. Ele me fez repensar um texto que escrevi ano passado, para a edição 34 da CardPlayer Brasil. Apesar de a minha coluna ser voltada para iniciantes, existem algumas oportunidades de aprofundar temas que não podemos deixar passar. Essa é uma delas.

No meu artigo, comentei uma passagem do livro do jogador “BalugaWhale” em que ele analisa os motivos por que as pessoas apostam. A conclusão era a de que as pessoas basicamente apostam pelo valor, blefando ou para recolher dinheiro morto. Outros “tipos”, como a aposta por proteção e a aposta por informação, seriam desdobramentos desses três modelos fundamentais.

Apenas para refrescar a memória de vocês, a aposta “pelo valor” é aquela que se faz planejando tomar call de uma mão pior. No blefe, se espera o fold de uma mão melhor que a nossa.

A aposta “para recolher dinheiro morto” é feita contra jogadores inexperientes, com comportamento típico de iniciantes, que pagam raises ou entram de limp pré-flop e dão muitos folds no flop. Você simplesmente aposta com qualquer mão porque sabe que os vilões devem largar. Muitas continuation-bets são apostas desse tipo. Aqui, você não controla tanto a questão do call da mão pior e do fold da mão melhor porque o range do vilão é muito amplo, tanto para dar limp quanto para dar vários calls ao longo da mão. Como ele não lutará pelos potes em que não acertar nada (e pelas características da situação isso acontecerá muitas vezes), a aposta se torna quase automática. Você deve apenas ajustar o tamanho.

Quando queremos delimitar o range do oponente, o que fazemos é uma aposta “por informação”. Se o bordo for wet, com muitas possibilidades de draw, apostamos para impedir que o oponente consiga uma carta grátis e nos vença – é a chamada de aposta “por proteção”.

Com esses conceitos em mente, vamos dar uma olhada no que Brokos fala e ver se o panorama se mantém ou não. Logo de cara, ele dá uma dica preciosa para iniciantes: eles defendem demais as suas mãos. O que ele quer dizer é que os novatos supervalorizam bordos wet, ficando paranoicos até mesmo quando flopam uma trinca, fazendo apostas que muitas vezes transformam mãos de valor em blefe, o que é ruim. Brokos diz ainda que considera errado os jogadores só apostarem pelo valor ou blefando (mas não menciona a aposta para recolher dinheiro morto e nem a aposta por informação), e conclui:

“Até mesmo em No-Limit Hold’em, há situações em que apostar por proteção é correto, ainda que a aposta não vá tomar call de mãos piores ou fold de mãos melhores. A questão central é se a ação no turn e no river estiver mais a favor de você ou do seu oponente. Se a sua mão for vulnerável e seu oponente não blefar com frequência, ou até mesmo se bordo fizer com que alguém acerte uma segunda melhor mão no turn, muitas vezes é melhor levar o pote logo em vez de dar uma carta grátis”.

Esse pensamento é bem razoável, mas claramente se trata de uma situação em que apostamos para recolher dinheiro morto. Em seguida, Brokos apresenta um exemplo. Será que podemos extrair um novo entendimento da aposta por proteção a partir disso, como ele sugere? Vamos ver.

Exemplo
Cash game de NL Hold’em de $0,50-$1 6-max. Todos os jogadores com $100 de stack. Abrimos raise para $3,50 com AK em middle position. O small e o big blind dão call. Sua leitura é de que eles são jogadores muito loose e fracos, que não opõem muita resistência. O flop traz Q84. Eles pedem mesa. Você apostaria?

Ao dar esse exemplo, o autor faz uma série de cálculos envolvendo ranges, implied odds, blefes etc. Ao final, diz que a aposta deve sim ser feita, principalmente porque você não tem muito a ganhar dando check no flop.

Parece bem claro que esse exemplo nos mostra uma situação de aposta para recolher dinheiro morto, principalmente pelo perfil dos vilões e por eles terem dado check. Mas a conclusão de Brokos é a seguinte:

“Apesar de a grande maioria das apostas em NL Hold´em ser pelo valor ou blefando, definitivamente existem situações em que apostar por proteção faz sentido. A chave é entender o que você está tentando proteger e por quê.”

Minha conclusão é que, apesar de o artigo ser bem interessante e de o autor ser coerente em suas afirmações, o cenário que ele apresenta no exemplo é de uma aposta para recolher dinheiro morto, tal como descrita no livro de “BalugaWhale”.

Discussões teóricas a parte, não acho que seja errado considerar essa situação como sendo de uma aposta por proteção, como diz Andrew Brokos. Ainda assim, fico do lado de “BalugaWhale”:

Qual a aplicação prática de tudo isso que conversamos? Esse é o assunto do nosso próximo artigo. Até mês que vem!




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