EDIÇÃO 43 » ESTRATÉGIAS E ANÁLISES

"Eu respeito você, mas..."

Um Caso de Leitura de Tells


Felipe Mojave

A jogada desta coluna aconteceu no começo de fevereiro, num torneio que fui convidado a jogar no Casino Wynn em Las Vegas. Eu decidi mostrá-la a vocês porque ela contém algumas situações inusitadas que muitas vezes acontecem nas mesas.

Torneio: Wynn Invitational Las Vegas
Buy-In: $7.500
Prize Pool: $270 mil + $500 mil adicionados pelo Cassino ($770 mil)
Field: 57 jogadores

Os blinds estavam em 2.000-4.000. Eu tinha cerca de 135K em fichas e dei raise de 9.500 do UTG com AQ. Com 220 mil fichas, meu oponente deu call do big blind. O flop veio A-5-6 de naipes diferentes. Ele pediu mesa, eu apostei 14.500. Ele pagou sem hesitar. No turn apareceu um T, me deixando com top pair e queda para flush. Ele apostou 20.000 e eu decidi dar apenas call. No river bateu uma Dama. Minha mão era top-two: A-Q em um bordo com A-5-6-T-Q. Eu tinha 105.500 fichas e o pote tinha 140.000.

Pra minha total surpresa, meu oponente foi all-in no river. Com a força que o river deu à minha mão, seria um call fácil: se eu estivesse perdendo para uma defesa de blind com A-X ou mesmo dois pares, agora eu estava na frente. Mas a questão aqui é que houve um fato muito interessante: enquanto eu pensava na situação, meu adversário, um senhor brasileiro, fez a aposta muito depressa e colocou seus óculos escuros... Continuei a pensar na jogada por mais alguns minutos, quando ele falou: “Mojave, respeito você como profissional, mas essa mão ninguém nunca vai saber o que eu tenho”. Observei a situação com muita calma e continuei meu raciocínio.

Pensando em termos de pot odds, realmente eu teria que dar call. Era 105.500 para ganhar 245.500, ou 2,3-para-1. Mas como se tratava de um torneio multitable, o fator tournament life – a famosa “sobrevivência” – era muito mais importante. Eu ficaria com cerca de 26 big blinds. Nada desesperador, apesar de a estrutura ser mais rápida que o normal, já que era um evento de apenas dois dias.

Na minha análise de range, a possibilidade de ele ter dois pares era grande. E eu estaria ganhando. Há ainda a chance de trinca de 5 ou 6, com as quais um jogador daquele tipo daria call do big blind com um par baixo ou médio 100% das vezes. Fora isso, só poderia ser um blefe.

Seria ele capaz de fazer isso no river, levando em conta que eu fui o agressor no flop e só dei call no turn? Fica difícil acreditar que alguém possa agir dessa forma e ainda blefar no river, afinal, meu call no turn foi programado justamente para evitar isso (se bem que muitos jogadores simplesmente não percebem o que o oponente está fazendo). Então, cabia a mim a analisar o nível daquele adversário e definir a ação mais indicada.

Sendo assim, dos três ranges identificados – dois pares, trinca e blefe – eu só estaria perdendo para a trinca. Esse é o primeiro fator que aponta para o call. Junto com ele estão as pot odds favoráveis. Então, ficou muito difícil escapar dessa mão. Realmente, havia grandes chances de eu dobrar as minhas fichas ali. Mas existe uma grande diferença entre “ver fantasmas” e analisar uma mão corretamente, buscando todos os fatos e informações.

Acontece que esse adversário teve um comportamento muito diferente do que vinha apresentando. Lembra que ele só colocou os óculos escuros no river, dizendo que me respeitava, mas que nenhum jogador no mundo seria capaz de ler sua mão naquela ocasião? Pois bem, isso me deixou pensativo por muito tempo. Então vamos analisar as tells:

Colocar os óculos escuros no river

Para mim, isso indica que ele não estava blefando. Se um jogador razoável pretende blefar, por que colocar os óculos somente no river? Muito estranho. Parece coisa de quem não quer entregar a força da mão. Essa foi minha leitura. Assim, descartei a possibilidade de blefe.

Não prestar atenção na minha linha de ação

Essa foi a tell mais importante. Foi o que me fez passar tanto tempo pensando. Confesso que eu teria dado insta-call se ele não tivesse falado nada. Para mim, aquilo significou que ele tinha uma trinca ou uma sequência com K-J.

Trincas baixas quase sempre são imperceptíveis, o que justificaria o comentário. E sim, uma sequência runner-runner quando se dá call sem nada (float) em um flop rainbow só pode ser a mão mais imperceptível da história.

Resolvi dar fold, mas antes eu disse: “Se eu der fold e acertar sua mão, você mostra suas cartas?” Ele respondeu: “Se você acertar exatamente, eu mostro”. Obviamente, arrisquei na mais improvável delas, o Rei-Valete. Acreditei que seria mais fácil ele ter uma sequência do que uma trinca, e não ter disparado mais uma aposta como a do turn. Em outras palavras, o all-in no river realmente foi para que eu não acreditasse na força da mão dele.

Então eu disse: “Rei e Valete”. E ele abriu o K-J, dizendo: “Dei call no flop porque achava que você estava blefando e comprando o ás. No turn eu apostei porque, se você estivesse blefando, eu poderia largar”. E completou: “No river, acertei a sequência mágica e fui all-in para você não ficar realmente perdido e acabar me pagando”. Ele então me perguntou o que eu tinha, e eu respondi: “Achei que você estava blefando. Estava pensando em dar call...” E dei muck no A-Q sem mostrar para ninguém na mesa. Só vocês aqui da CardPlayer Brasil conhecem o desfecho dessa mão intrigante.

Eu acabei chegando à mesa semifinal, junto com Gualter Salles e Marcelo Mesqueu, para quem mando abraços. E, claro, parabéns especiais ao meu amigo carioca Myro Garcia, que foi o grande campeão do torneio. Quanto ele faturou? 300 mil dólares. Tá bom?




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