EDIÇÃO 4 » ESPECIAIS

Um Dragão No Topo

David ‘The Dragon’ Pham Rumo a Mais Um Título de Jogador do Ano


Ryan Lucchesi

No 43º andar do Borgata Hotel Casino and Spa, um dragão repousa. David “The Dragon” Pham está sentado com familiares e amigos, esperando para ir até New York City, onde visitará um tio antes de retornar ao Sul da Califórnia. No térreo, o primeiro dia do World Poker Tour Borgata Poker Open prossegue adentrando a noite, mas o dragão está dormindo por enquanto. Pham está liderando a corrida pelo título de Jogador do Ano de 2007 da Card Player, faltando apenas dois meses para o fim da temporada. Ele não é novato na disputa: venceu em 2000; ficou em segundo, atrás de Daniel Negreanu, em 2004, e é uma constante ameaça para figurar no top 10. Para encontrar jogadores com um nível paralelo de consistência em outros esportes, você teria de buscar performances sólidas como as de Albert Pujols, Kevin Garnett e Peyton Manning, que sempre aparecem na disputa pelos prêmios mais importantes em seus esportes. Eles são jogadores que mesmo em um ano sabático são incluídos entre os melhores. Isso é o que Pham representa para o poker, um jogador consistente que aparece em uma mesa final atrás da outra. Ele é bastante conhecido por sua agressividade, o que lhe valeu seu apelido de cuspidor de fogo.

Pham estava animado com a perspectiva de ganhar um segundo título de Jogador do Ano aquela noite em Atlantic City, dissecando e analisando seus competidores mais próximos com os confidentes que lhe acompanharam na viagem. Mesmo depois de o dia no torneio não se desenrolar como ele esperava, ele olha para os últimos meses do ano, planejando em quais eventos do WPT irá competir, na esperança de participar de pelo menos mais uma mesa final e solidificar sua corrida pelo título. A maior parte da conversa com Pham disse respeito à corrida para Jogador do Ano, mas também abordou um intervalo de cinco anos em sua carreira que não envolveu um único dia no feltro, as origens de seu apelido e seu lugar em meio à elite do poker.

Foco: Corrida pelo título de Jogador do Ano de 2007
Pham já tem dinheiro, braceletes e respeito. Ele aprendeu que jogadores de poker são julgados por seu sucesso a longo prazo, e é por isso que ele cobiça o prêmio. “Em uma carreira no poker, o título permanecerá para sempre; o dinheiro vem e vai... Qualquer jogador de poker pode ter sorte e ganhar, mas o jogador do ano tem mais importância porque foi o melhor durante o ano inteiro”, afirma Pham. Ele disse que o valor intrínseco é muito mais importante hoje do que era há sete anos, pois o poker em torneios experimentou um aumento meteórico em termos de popularidade desde então. “Eu realmente quero ganhar esse ano”, continuou. Esse desejo de terminar o ano como rei do pedaço advém da apertada derrota que sofreu para Negreanu em 2004. “Naquele ano eu quase ganhei, mas no último evento Daniel Negreanu entrou na mesa final e me derrotou”.

Com a lição aprendida em 2004, Pham está muito mais concentrado nos últimos meses de 2007. Ele sabe que todo mundo está querendo derrubá-lo, e reconhece que vários são capazes de conseguir. “Muitas pessoas ainda podem ganhar a corrida, ainda que estejam entre a 30ª e a 50ª colocações. Alguém pode se fortalecer nos dois últimos meses, embalar e faturar alguns torneios”. O Dragão sabe disso, pois ele mesmo já fez isso, e conseguiu não apenas se igualar ao antigo líder J.C. Tran, mas superá-lo. “J.C. tem jogado bem, mas esfriou nos últimos meses. Nos três primeiros ele participou de três mesas finais do WPT, mas agora, fica difícil dizer”, afirma Pham. Ele também está de olho em outro jogador no topo. “Bill Edler é um dos melhores jogadores do circuito de torneios, está correndo muito e tem jogado bem”, continuou. Pham sabe que, em um torneio, uma carta pode mudar tudo, e ainda há muito poker em 2007. “Apesar de eu estar à frente de J.C. com 1.000 pontos e de Bill Edler com 800, ainda temos dois meses pela frente. Isso é muito tempo. Então, devo focalizar em todos os eventos principais. Vou me preparar para o último torneio do Bellagio como o grand finale”.

Mudando de Marcha e Devorando Fichas
Depois de Pham analisar seu estado atual no poker, a conversa se direcionou à estratégia que ele emprega para conseguir participar de mesas finais com dois dígitos todos os anos. Qualquer um que tenha se sentando numa mesa de poker com O Dragão sabe que ele é um dos jogadores mais agressivos que se pode encontrar e, por causa disso, é também um dos mais temidos. Pham tem consciência disso, mas também sabe que agressividade impulsiva pode facilmente sair de controle. “Eu mudo de marcha muitas vezes quando estou sentado à mesa. Eu escolho os momentos em que devo ser agressivo. Não sou agressivo o tempo todo. Agressividade contra agressividade seria... bang! Alguém irá se ferir”, disse. Também afirmou a importância de mudar sua estratégia durante o curso de um torneio. Ele prefere começar agressivamente no primeiro dia de competições, para poder ganhar muitas fichas logo e depois relaxar e ficar mais centrado, enquanto os jogadores mais ansiosos fazem tentativas aleatórias de dobrar as fichas ou ir pra casa ao final da noite. Durante o segundo e terceiro dias de um torneio, Pham se ajusta aos jogadores de sua mesa, dependendo do nível de jogo deles e da quantidade de fichas que têm.

Ele leva em consideração dois fatores primordiais em suas decisões no feltro. Suas cartas são algo em que ele pensa depois. “Geralmente, eu meço com base no tamanho de uma aposta... É muito importante saber o quanto foi apostado e qual o valor do pote. Eu calculo por que esse cara apostou essa quantidade. Essa é a conta que faço, e depois vejo a situação dele já sem essas fichas. Às vezes as pessoas vão com muita sede ao pote, mas têm uma mão muito fraca. Às vezes vão com calma e fraqueza, segurando uma muito boa. Eu acho que o valor da aposta é muito mais importante do que qualquer outra coisa. A partir disso, posso calcular se eles têm mãos fortes ou não”, disse Pham. Já que ele joga primeiro o oponente para depois cuidar das próprias cartas, ele entende a importância de não deixar que ninguém leia sua mão. “The Dragon” é capaz de colocar todas as suas fichas no meio da mesa sem ter nada. “Se eu conseguir dois reis ou dois ases, isso é um bônus, mas, com meu estilo, posso jogar com quaisquer duas cartas... É preciso ser um jogador muito bom para conseguir me decifrar, pois eu mudo de marcha muitas vezes e consigo jogar com qualquer tipo de carta. Eu aposto sem nada, e às vezes com o melhor jogo”, afirma. Isso faz dele um perigo em todas as situações, mas ainda mais quando há menos jogadores: é aí que o Dragão domina.

Pham utiliza sua experiência em mesas finais para ir mais além, atingindo um nível de agressividade que poucos no mundo possuem. “Quando os amadores chegam lá [mesas finais], eles têm medo, não calculam muito, apenas tentam durar o máximo possível”, disse Pham. “Geralmente quando você ganha muito dinheiro, sabe o que fazer quando tem poucos competidores. Em heads-up, ou contra dois ou três adversários, você tem que saber”. Pham fala com a confiança de um jogador que já se deparou com situações assim inúmeras vezes, e que sabe como é perigoso seu jogo quando o fim se aproxima. Uma recente confirmação de sua habilidade veio quando ele ganhou o evento de heads-up de no-limit hold’em de $5.000 do WPT Mirage Poker Showdown 2007. “Eu tenho muitos títulos em torneios assim, então você pode dizer que eu sou um dos melhores jogadores quando a competição é pequena. Mas sei que muitos dos jogadores de torneio profissionais são muito bons; eles são um pouco mais centrados”, disse Pham. O rápido padrão de diálogo com que Pham se expressou durante a entrevista diminuiu por um momento quando ele refletiu sobre seus melhores colegas em mesas shorthanded. “The Dragon” deu dois nomes: “Barry Greenstein é muito bom... Phil Ivey é bom... existem cerca de 20 a 30 jogadores assim que estão no topo”.

Hiato de Cinco Anos
Foi aqui que a conversa tomou outro rumo, longe das estratégias do poker e das corridas para Jogador do Ano, e rumou em direção ao passado. Falamos sobre como Pham se apaixonou pelo poker e como, em determinado momento, ele teve de sair de cena durante cinco anos.

Pham começou a jogar poker em 1989, quando Men “The Master” Nguyen o ensinou a jogar limit hold’em de $1-$2 no The Bicycle Casino. “Eu acho que nasci para apostar, pois da segunda vez que joguei, acertei no bad-beat jackpot. Eu consegui cerca de $12.000 com isso”, disse. Ele tinha ases em sua mão e seu oponente tinha setes. Com um ás e dois setes no bordo, ambos foram de all-in no turn, e Pham tinha acabado de começar sua bankroll. Ele imediatamente pulou para limites mais altos, logo jogando $5-$10 e $10-$20. Estava quebrado em dois meses, mas isso não parou “The Dragon”, que conseguiu um empréstimo e continuou a jogar. Infelizmente, ele continuava a perder e desistiu do jogo em 1992. Durante os cinco anos seguintes ele trabalhou em um salão de manicure e pedicure que ele e sua mulher tinham aberto.

Os dias no salão iam das 8 da manhã às 8 da noite, de acordo com Pham. Isso significava nenhum tempo para o poker, o que não o impediu de pensar a respeito disso o tempo inteiro. O Dragão ficou adormecido, mas o fogo ainda crepitava por dentro. “No período em que eu trabalhei no salão, pensava apenas em poker”, disse Pham. Durante seu tempo livre, ele distribuía nove mãos em uma mesa, depois as olhava. Ele calculava as percentagens que cada uma delas tinha de vencer. Distribuir, calcular, memorizar e repetir. Pham jogou essa versão do poker solitário inúmeras vezes durante esses anos. Ele estava determinado a aprender com seus erros, determinado a aprender o poker, o jogo que antes o tinha enganado. Outra coisa que ele fez para melhorar seu desempenho foi assistir a muitos dos melhores jogadores em Los Angeles. “Eu assistia a muitos jogadores; como eles faziam uma jogada, como eles lidavam com as fichas, de que posições jogavam. Todos os detalhes eu combinava quando ia para casa refletir sobre o poker”, disse Pham. T.J. Cloutier era um dos jogadores que Pham se lembra de ter visto. “Eu lembrava em que street ele tinha apostado e quanto tinha apostado”. Parece que Pham retinha bem essas lições, tanto de Nguyen quanto de Cloutier. Se ele conseguir segurar a liderança e ganhar o prêmio de Jogador do Ano de 2007, ele se juntará a Negreanu e Cloutier como o terceiro jogador a ter mais de um título de Jogador do Ano.

Em 1998, Pham tomou a decisão de voltar ao poker. “Eu disse à minha esposa que venderia o negócio e voltaria ao poker... No início ela disse: ‘Não, não, não faça isso, você só vai se dar mal’. Eu disse: ‘Não, dessa vez é diferente’.”. Um enorme sorriso se espalhou no rosto do Dragão quando ele recordou esse momento. Foi o sorriso de um homem que tinha apostado tudo em suas ambições na vida e ganhado. “Tem sido uma excelente carreira no poker pra mim desde que voltei”, afirma. “Eu aprendi com os erros que cometi durante aqueles cinco anos”. “The Dragon” estava de volta, e depois de ganhar algum dinheiro durante seu primeiro ano de volta ao feltro, levou seu jogo a outro nível em 2000: foi quando ele ganhou o título de Jogador do Ano. Sete anos depois, ele tem dois braceletes, numerosas vitórias e mais de $6 milhões ganhos em torneios ao longo da carreira.

Origens de um Dragão
Apesar de Pham ter mudado muito de seu jogo durante o intervalo de cinco anos longe do poker, uma coisa de seu passado continuou com ele durante essa lacuna, algo que ele tinha esquecido. Quando ele venceu o título de Jogador do Ano em 2000, Jeff Shulman, da Card Player, telefonou para ele e perguntou sobre seu antigo apelido. Pham tinha se esquecido da antiga alcunha, mas as memórias voltaram naquele instante, e, desde então, ele tem sido chamado de “O Dragão”. Mas onde Pham arrumou esse apelido? Antes do intervalo em 1992, ele estava jogando um torneio de seven-card stud de $300 no The Bike e chegou à mesa final. Muitos de seus amigos estavam presentes para torcer por ele, que conseguiu não apenas vencer o torneio, como também eliminar cada um de seus oponentes. Muitos de seus torcedores começaram a gritar: “Você está pegando fogo. Você é um dragão!” Um dos amigos de Pham, Steve Skolnick, manteve o apelido vivo depois do torneio, chamando Pham de “The Dragon”. O apelido pegou, e apesar da ausência de cinco anos, hoje ele ainda combina com seu dono tão bem quanto à época. Pham ficou muito animado ao explicar as comparações feitas entre a criatura mítica e a maneira como ele conduz o jogo, às vezes até fazendo mímicas dessas comparações. “Com meu estilo, quando eu jogo, pareço um dragão. Dragões estão sempre se movimentando: nunca ficam parados. Fico me movimentando, devorando fichas, agressivo”, disse Pham da mesma maneira ativa que o define na mesa.
Quando Pham se senta à mesa de poker, ele se torna um dragão entre os homens — agressivamente agarrando fichas ao atacar pote atrás de pote, deixando jogadores fracos mortalmente feridos enquanto ele segue adiante. Será que “The Dragon” irá ganhar a corrida pelo título de Jogador do Ano de 2007 e se juntar a um exclusivo grupo de lendas que possuem dois títulos? Apenas o tempo poderá dizer, mas uma coisa é certa: Não será por falta de esforço da parte de Pham. O velho ditado “a melhor defesa é um bom ataque” não é só uma exceção, mas a regra no jogo de poker. Pham aprendeu sua lição, serviu bem ao Dragão, e continuará a lhe servir no futuro.




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EDIÇÃO 4

Ano 1 - novembro, 2007

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