EDIÇÃO 35 » COLUNA INTERNACIONAL

Uma Questão de Leitura

A chave para tomar boas decisões


Roy Cooke

Muitos jogadores de poker já leram livros e compreendem as estratégias básicas do jogo. Mas, o que é mais importante e mais difícil de se ensinar em um livro é como ler as mãos dos oponentes. Bons leitores de mãos dão folds melhores, apostam melhor pelo valor e fazem jogadas altamente lucrativas com base em suas leituras. Bons leitores de mãos combinam sua habilidade de leitura com seu conhecimento estratégico e tomam decisões melhores ao jogar suas mãos. Eu conheço vários jogadores que possuem grande conhecimento estratégico, mas que não são grandes vencedores porque não são capazes de ler mãos.

Para ler bem as mãos de seus oponentes, você precisa entrar na mente deles, entender o nível de conhecimento deles para decifrar suas mentes, compreender as facetas psicológicas deles para analisar suas reações emocionais, e prestar atenção aos maneirismos físicos deles para observar tells. Se você perceber uma tell precisa a respeito de um oponente, vai dominá-lo! Faça essas coisas bem e você vai ser capaz de delimitar a gama de mãos deles mais do que eles serão capazes de fazer. Essa gama mais delimitada vai lhe possibilitar tomar decisões de poker melhores do que eles serão capazes de tomar contra você.

Eu estava numa mesa $30-$60 de limit hold’em no Bellagio: um jogador de posição inicial entrou de limp, e Jim, um jogador habitual de estilo sólido, entrou de limp de posição intermediária depois dele. No cutoff, eu olhei para baixo e vi um lindo A A, e disparei um raise. O button deu fold e o small blind e o big blind ambos deram call, assim como o limper de posição inicial e Jim. Nós cinco vimos o flop, que veio Q 9 5.



A mesa rodou em check, e eu coloquei $30. O small blind deu check-raise, e o big blind e o limper inicial deram fold. Jim deu call nas duas apostas. Minha leitura foi de que Jim provavelmente segurava top pair ou um flush ou straight draw, ou possivelmente estava dando slowplay em uma mão alta. Sendo sólido, ele não daria call em um check-raise com algo pior do que top pair ou um draw válido restando um jogador agressivo pré-flop ainda por falar. Eu resolvi dar call no raise como uma armadilha, com a intenção de aumentar a aposta do small blind no turn caso ainda gostasse da situação. Dando esse flat-call, eu poderia obter uma leitura dos meus oponentes no turn, e possivelmente economizar uma bet ou mais se eu tivesse a oportunidade de dar raise.

O 9 apareceu no turn, colocando um par do meio no bordo, e ambos deram check até mim, anulando minha armadilha. Ao fazê-las, você sempre corre o risco de seu(s) oponente(s) não se comportar(em) da maneira que você esperava. Você perde sua armadilha se uma carta perigosa aparece e faz com que seu oponente dê check ou se ele der check estrategicamente. Quanto maior for a probabilidade de o seu oponente pedir mesa, mais você deve estar propenso a jogar sua mão de maneira direta. O fato de esse bordo ser naipado e ter straight draws aumentava a probabilidade de a mesa rodar em check até mim. Em retrospecto, acho que uma armadilha, nessa situação em particular, foi um erro.

Dito isso, você precisa jogar a mão da melhor maneira que puder no momento. O fato de ter estragado tudo antes de chegar até ali não importa mais. Eu atirei uma aposta, com a intenção de conseguir o valor máximo que eu pudesse a partir dali – o small blind deu call e, para minha surpresa, Jim deu raise!

O que Jim poderia ter? Eu refleti sobre como ele jogou sua mão. Ele deu call pré-flop e depois pagou um aumento. Ele deu call em um raise no flop, e depois, no turn, deu check-raise em uma situação na qual não deve ter achado que eu estava muito propenso a apostar. Pensei sobre como Jim raciocinaria. Ele é sólido, mas eu não diria que ele joga em um nível profissional. Dito isso, ele leu os livros e conhece as jogadas. Jim não é tolo na mesa, e seus raciocínios sempre fazem sentido.



Lendo a mão em reverso, ele deu slowplay no turn, o que significava que ele também fez isso no flop, indicando que ele tinha uma mão enorme. Eu descartei Q-Q e 9-9, com as quais ele teria dado raise pré-flop. Q-9 suited era uma mão com a qual eu não achava que ele jogaria ou faria slowplay no flop. Ele não daria call no flop com um 9 nem faria slowplay com uma dama no turn. Mas e 5-5? Fazia sentido perfeitamente. Ele daria call pré-flop com essa mão, faria slowplay no flop e não teria medo de dar uma carta grátis no turn, fazendo slowplay também ali. Eu pensei se alguma outra mão fazia sentido, e nenhuma fazia. Essa situação em particular não era uma em que Jim blefaria. Eu tinha certeza de que ele tinha uma trinca de cincos. Precisando de um ás e com um pote que não me cobrava o preço correto, eu larguei meus ases.

Eu estava me sentindo bem por ter feito a leitura e o fold, até o dealer abrir o A no river, que me daria um full caso eu tivesse permanecido na mão. Jim apostou no river, recebeu um call do small blind e mostrou 5 5. Ele parecia feliz ao recolher as fichas — minhas fichas!

Sim, eu teria ganhado a mão, mas eu entendo que é pela qualidade de uma decisão que o jogador deve se pautar, e a decisão foi correta. Eu li a mão corretamente e puxei o gatilho na minha decisão com base na leitura realizada. São raras as vezes em que você consegue delimitar as gamas de mãos de seus oponentes a uma única mão. Na maior parte do tempo, você os coloca em uma gama de mãos e analisa a probabilidade de eles terem uma ou outra, combinando isso com como é o desempenho da sua mão diante de cada uma da gama dele, até chegar á decisão correta. Faça isso com eficácia tendo em mente um bom conhecimento estratégico e você estará bem direcionado no caminho para ser um jogador de alto nível.

A coluna do profissional de poker de longa data Roy Cooke aparece na Card Player desde 1992. Ele é também um bem sucedido corretor de imóveis desde 1990, e seu website é www.roycooke.com




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