EDIÇÃO 35 » COMENTÁRIOS E PERSONALIDADES

Field soft no LAPT Lima

Mas nem tudo sai como planejado


Diego Brunelli

Acabei de voltar de Lima, de uma semana que certamente já está na história do poker latino-americano.  Confesso que quando assisti ao anúncio do LAPT Peru, na festa de abertura do LAPT Punta Del Este, fiquei bastante cético em relação ao sucesso dele. Para falar bem a verdade, achei que seria um desastre. Isso porque eu já tinha visitado o Peru há uns três anos e, tirando a beleza de lugares como Machu Picchu e Cuzco, o restante do que conheci me deixou uma impressão de pobreza e pouco desenvolvimento. Então, quando foi anunciado que o próximo LAPT seria no Peru, fiquei com a aquela sensação de “não pode ser...” Mas na minha visita anterior ao Peru, o bairro Miraflores, em Lima, tinha passado totalmente despercebido. É a região mais bacana da capital peruana. Tem desde prédios comercias, shoppings, hotéis e restaurantes, todos sobre uma encosta rochosa de frente para o mar, até o Casino Atlantic City. Só então fui saber que ele é considerado um dos maiores e melhores cassinos da América do Sul.

Bom, mas foi só quando o torneio começou que se pôde perceber o sucesso que ele seria. Estrutura do cassino impecável, mesas alinhadas, dealers a postos, equipes de televisão e imprensa, e, finalmente, 384 jogadores que iriam começar a disputa por quase 1milhão de dólares em prêmios. Foi o segundo maior LAPT da história.

Cartas na mesa, agora vamos falar de poker. Minha primeira mesa, assim como o field do torneio em geral, era muito “soft”. O Dia 1 começou com uma estrutura bem deep stacked, com 20.000 fichas e blinds de 50/100 com níveis de 1 hora. Comecei jogando bem tight, participei de poucas mãos na primeira hora. Já que a estrutura permitia, resolvi prestar bastante atenção à mesa e ter uma ideia sobre cada jogador antes de começar a me envolver com mãos marginais. Acho que no segundo level de blinds eu já tinha uma boa noção sobre cada um da mesa. Isso porque o número de limps, calls e showdowns foi muito alto. O único jogador que se sobressaia era um austríaco de 19 anos, regular de cash game NL1K do PokerStars. Fora ele, o resto era fish-maniac ou loose-passive. E a maioria da mesa era muito calling station. Logo, havia muito pouco espaço para blefe.

Durante o torneio todo, tive muitas flutuações de stack. Vou contar algumas das principais mãos e os fatores que eu considerava quando envolvido nelas. A primeira mão mais expressiva em que me envolvi foi justamente o que eu vinha planejando para não acontecer: contra o austríaco, fora de posição. No segundo nível (75/150) dois limpers (o que era muito comum) entram de posição inicial e ele isola de posição intermediária. Eu tinha 87 no big blind. Por estar certo de que os limpers iriam participar junto e por estar muito deep, eu não iria dar fold ali, apesar de ser raro eu dar call com suited connectors fora de posição. Eu poderia ter tribetado, mas achei melhor não, pois o austríaco também estava jogando tight até o momento, e não estava isolando tantas mãos assim, então eu acreditava que o range dele fosse tight, apesar dos limpers.  O flop veio 59J, todos deram check e ele fez uma continuation-bet de pouco mais de metade do pote. Eu não acho bom um raise nessa situação porque, além de o flop acertar também os ranges dos limpers, o austríaco certamente não estava blefando ali e poderia facilmente ter 99, JJ+ ou duas overcards com flush draw, de modo que eu não vejo como ele poderia dar fold diante de um check-raise. Fora isso, tenho odds suficientes para dar call e jogar só pela força da minha mão e, quem sabe, continuar com algum dos limpers no pote.  Estes deram fold e o turn foi uma Q. Dei check e ele apostou 1/3 do pote. Nesse momento, ele me deixou confuso em relação ao que ele queria que eu fizesse. Podia ser uma aposta para controlar tamanho do pote, também para preparar um possível blefe no river ou ele poderia estar tentando induzir um check-raise. Mas, em caso de blefe, poderia ser também mais uma tentativa de me tirar do pote, já que a dama estava no range dele. O fato é que eu resolvi não dificultar aquela situação inventando algo criativo e apenas dei call, pois ainda tinha muitas odds. O river foi blank e ele fez o que parecia uma value bet. Como dei fold, não tive showdown para obter mais informações sobre como ele jogava.  Acabei jogando a mão de forma passiva, mas essa foi a melhor forma que eu encontrei.

Com blinds de 100/200, o austríaco abre com 525 de middle position e o cutoff dá call. Eu tenho QQ no small blind e faço tudo 1.750. A ação volta e ele e me dá 4-bet para 5.400. De novo eu estava fora de posição contra o austríaco e me sentindo desconfortável. No começo dessa mão, eu tinha 17.000 fichas. Minha imagem na mesa era bem tight. Pensei um pouco e dei fold. Apesar de não ter sido um fold fácil, algumas coisas me ajudaram. Eu tinha ficado amigo do austríaco na mesa, e estávamos conversando bastante quando não envolvidos em alguma mão. E eu falei para ele que ia ser um fold difícil, que eu tinha uma mão boa, e ele então me disse algo do tipo: “Nah, você está dando squeeze”. Isso me ajudou a dar fold, pois achei isso claramente uma tell reversa. Fora isso, nesse momento ele tinha mais de 30K em fichas, e certamente não daria fold em AK depois de ter dado 4-bet de quase 1/3 do meu stack.  Mais tarde, no fim do dia, saímos conversando do cassino e, como haveria um remanejamento de mesas para o segundo dia, ele não se importou em me dizer que tinha KK. Mas, mesmo que tivesse AK, eu não teria ficado triste com meu fold, porque, como eu disse, a mesa era muito fraca, e eu ainda teria situações bem melhores do que um coinflip para tentar construir stack.

Depois de mais algumas mãos eu fiquei reduzido a 14K, não conseguia encontrar boas situações e dificilmente recebia alguma mão jogável, até que, no button, recebi AQo e dei call em um raise de um fish-maniac. O flop veio Q-high, e ele blefou nas três streets com par de seis. Depois disso, tive mais algumas boas mãos e fui para o intervalo com 27.000 fichas. O fato de eu ter recuperado rapidamente meu stack me deixou confiante e me fez esquecer a forma como eu tinha ganhado as fichas. Praticamente todas as mãos tinham sido no showdown. E, na volta do break, depois de mais ou menos 30 minutos, meu stack caiu de 27K para 9K. Apareceram alguns coolers no meio do caminho, mas pelo menos em dois potes eu perdi muitas fichas por blefar contra os calling stations, que eram maioria na mesa. Foi muito frustrante ver meu estoque reduzido a 1/3 logo depois de voltar do break. Nessas horas o mais fácil é botar o resto fora. Mas eu relutei ali e tentei me concentrar para jogar muito tight de novo, pois sabia que, se eu acertasse qualquer coisa, eles iriam me pagar tudo. E eu iria me aproveitar da minha imagem, que estava destruída após ter perdido vários potes em sequência e mostrado alguns blefes. Tive sorte de dobrar logo em seguida em um confronto de KK vs. JJ all-in pré-flop e voltei para 18K. A partir daí, foquei em não dar “spew” (vomitar) em mais nenhuma ficha e abusar de overbets e value bets com minhas mãos boas. Acabei o Dia 1 com 43K.

Para o Dia 2, as mesas foram sorteadas novamente. Com blinds de 500/1.000, comecei o dia como small blind. Nem deu tempo de conhecer a galera da mesa direito, no meu primeiro UTG recebi AK e abri raise de 2,5K. Recebi calls do button e do BB. O flop veio 57K. Saí apostando 5,5K no flop, o button deu fold e o BB foi all-in com 17,5K. Eu dei call, ele mostrou KK. Isso diminuiu meu stack pela metade, mas ainda não era para se desesperar. Não demorou muito para eu perceber que a mesa no Dia 2 era quase igual à do Dia 1: muitos calling stations, muitos showdowns, alguns jogadores entrando de limp com menos de 20BB. Até que o UTG+1 entrou de limp com 1,2K, o jogador à minha direita (que era um short stack agressivo) foi all-in com 15K e eu empurrei por cima com 17K. O limper deu fold e meu AJ se segurou contra ATo.

Quebrada a mesa, quando estou chegando à mesa nova tem um pote imenso sendo disputado. Nacho Barbero dá raise de middle position, toma uma 3-bet do cutoff e o button vai all-in. Nacho vai all-in e o cutoff paga. Nacho tem JJ, o cutoff tem KK e o button estava fazendo um move com QTs. No turn aparece um valete e Nacho ganha um pote de 200K. E eu, que tinha acabado de chegar, me sentei exatamente à direita do novo chip leader. Que fase!

Curiosamente, nesse momento, à esquerda de Nacho estava o americano Ben Barrows (que estava com stack menor que o meu) e, à esquerda dele, uns 15 minutos mais tarde, chegou à mesa Jacob Baumgartner, que era o segundo em fichas. Então nem precisa comentar que a minha situação não era nada agradável. Eu tinha 20BB e, dos três jogadores à minha esquerda, dois tinham os maiores stacks do torneio e outro era um short stack que parecia saber bem o que fazia.

Infelizmente, passei muito tempo sem ter nenhuma mão próxima do jogável. E a mesa mantinha um ritmo de agressividade muito alto, com vários jogadores bons. As melhores situações que eu encontrava para ganhar fichas eram quando a mesa rodava em fold e eu podia ir all-in no blind do Nacho. Isso aconteceu três vezes e na primeira, para minha surpresa, ele deu fold com A-high quando eu fui all-in com 16BB. Na segunda oportunidade que rodou em fold, fiz o mesmo. Meu stack ficou oscilando entre 15BB e 22BB por um bom tempo, até que, na terceira vez, empurrei tudo com KJo e Nacho (pela 2ª vez tendo A-high num situação de “blind vs. blind” contra mim) resolveu dar call com A5s. Um call fácil, por sinal. Não bateu nada e eu acabei caindo mais ou menos em 70º, faltando 22 jogadores para a bubble.

Realmente era o torneio dele. Na mesa semifinal, quando era o 5º em fichas, ele abriu raise de posição inicial, tomou 3-bet de Chris Conrad (um jovem americano muito bom e agressivo) e resolveu dar 4-bet all-in colocando seu torneio em risco. Chris, depois de pensar um pouco, deu call com AQo e Nacho mostrou 84o. Um pote gigante ficou no centro da mesa, até bater um 8 no river e deixar Nacho com a mão no bicampeonato.

Uma última curiosidade desse torneio: eu havia dito que, quando cheguei à mesa, Ben tinha um stack menor do que o meu, de uns 15BB aproximadamente. Quem o dobrou foi justamente Nacho, em um all-in pré-flop em que o 99 de Ben se segurou contra AKs do argentino. No heads-up final, eles voltaram a se encontrar, mas dessa vez Nacho levou a melhor. Parabéns a Jose “Nacho” Barbero, por um feito inédito na história do poker latino americano.

Agora vamos lotar o LAPT de Floripa, que tem tudo para ser o maior de todos os tempos!




NESTA EDIÇÃO



A CardPlayer Brasil™ é um produto da Raise Editora. © 2007-2019. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo deste site sem prévia autorização.

Lançada em Julho de 2007, a Card Player Brasil reúne o melhor conteúdo das edições Americana e Européia. Matérias exclusivas sobre o poker no Brasil e na América Latina, time de colunistas nacionais composto pelos jogadores mais renomados do Brasil. A revista é voltada para pessoas conectadas às mais modernas tendências mundiais de comportamento e consumo.

Sede: Rua Stela de Souza, 54 - Sagrada Família - Belo Horizonte/MG - CEP: 31030-490
contato@cardplayer.com.br
31 3225-2123
LEIA TAMBÉM!×