EDIÇÃO 33 » COLUNA NACIONAL

Fúria de Titãs

Analisando e Aprendendo com os Grandes Monstros do Poker


Felipe Mojave

Todo mundo sabe que eu sou um jogador de cash game live que vive estudando e treinando muito, com o objetivo de alçar voos maiores. A verdade é que, no poker, ao se chegar a determinado patamar, tudo que você faz para melhorar acaba sendo muito pouco, pois o nível é muito forte mesmo. Hoje, essa é a maior verdade dentro do poker.

Se a gente parar para analisar, por exemplo, os participantes da nova temporada do High Stakes Poker, fica muito complicado até mesmo para os grandes nomes saberem se possuem um “edge sobre o field”. Em bom português, não tem como dizer se eles são jogadores claramente melhores do que os demais, pois com certeza as coisas ali estão niveladas por cima.

Obviamente, um bom jogador vai procurar mesas mais "soft", contra oponentes notoriamente piores. Mas a batalha de egos nesse mundo também é muito grande – fora o interesse comercial e outros fatores. Mas certamente existe um aspecto bastante importante que eu comento muito: como é que você vai evoluir no seu jogo se não enfrentar os melhores?

Para mim, nesta 6ª temporada do High Stakes Poker, há claramente dois jogadores acima do bem e do mal, e outros dois que eu acho que pararam no tempo: Phil Ivey e Tom Dwan definitivamente são os mais fortes hoje. Já Daniel Negreanu e Antonio Esfandiari vêm me decepcionando muito, com um poker um tanto quanto confuso e atrasado, cheio de erros, desatenção e uma primazia pelo exagero na segurança que nunca vai funcionar naquela mesa (eles são dois grandes jogadores que eu admiro, por isso fica anotada minha decepção).

E é exatamente sobre aqueles dois maiores jogadores do cenário live de hoje – Ivey e Dwan – que eu vou falar nesta coluna, analisando uma mão que eles disputaram entre si. Para assistir a esse embate, basta copiar “High Stakes Poker Season 6 Episode 5 part 4/5” no YouTube.

Nessa mão, dois jogadores tinham acabado se sair da mesa perdendo todas suas fichas: Jason Mercier e Gus Hansen. Assim, a ação estava 6-handed.

No UTG, Esfandiari dá fold com K7o. Phil Laak abre raise para $3.900 com A9o. Eli Elezra dá call com A7, assim como Phil Ivey dá call do button com A6. Daniel Negreanu dá call no small blind com J3 para se juntar ao family pot, e Tom Dwan com 98s no big blind aplica um raise overbet de $28.900, já que o pote era de $17.900.

Eu simplesmente gosto muito dessa jogada. Nesse caso, não importa que ele não tenha posição: a questão aqui é que ele percebeu que todos tinham uma mão fraca pela maneira como a ação se deu. Além disso, também houve um comentário entre Laak e Esfandiari mais ou menos assim: "Ih, lá vem ele, será que ele vai subir?". Um comentário como esse, 99% das vezes relata justamente o contrário – fato bem observado pelo competente narrador Gabe Kaplan, que disse: "Eles estão comentando isso para ver se conseguem ver o flop, esperando que ele não aumente, mas ele aumenta!". Outra questão aqui é que Dwan sabe que dificilmente será pago e que, caso isso aconteça, a ação possivelmente ficará heads-up, que é o que ele espera.

Todos dão fold, mas Phil Ivey paga. Então temos Dwan com 98s contra Ivey com A6.

Muitos jogadores – eu incluso – vão condenar o call do Phil Ivey, mesmo no button. A questão aqui é que A6s é uma mão muito fraca para jogar contra Dwan, por vários motivos, dentre eles: 1 – você pode acertar top pair no flop e se enrolar; 2 – “durrrr” não vai parar de atirar. Dessa maneira, quando você dá esse call, espera acertar no flop uma mão muito forte, como par e flush draw ou qualquer outra combinação de draw, fora dois pares e trinca, é claro.

O flop vem T Q K. Se Phil Ivey estava procurando por um flop que se conectasse com a sua mão, esse aí é um dos melhores que ele poderia esperar, com quedas para sequência e para flush.

Conforme esperado, é claro que Dwan vai aplicar uma continuation-bet para tentar ganhar o pote de $70.700 ali mesmo. Ele sabe que existem milhares de mãos com que Ivey daria fold ali, como os pares baixos (que erraram totalmente o bordo com três figuras) e os suited connectors, como 87s.

Ele dispara $45.800 num pote agora de $116.500. Ivey dá somente call, e é essa a jogada de que eu realmente não gosto. Ele sabe que Dwan faria c-bet em qualquer flop, então por que não aumentar e tentar ganhar a mão ali? Outro fator: Ele não tem a menor noção do que Dwan possa ter. Se ele acredita que ele vai blefar nas demais streets, para que então dar somente call e ficar à mercê de acertar o seu draw?

Eu imagino que, naquele momento, Ivey tenha tido o seguinte raciocínio: caso ele acerte o draw, Dwan não vai parar de atirar e ele vai extrair o máximo de valor. (Se tiver sido isso mesmo, concordo com ele). Mas, para mim, é muito melhor levar os $120K do pote agora do que arriscar tanto assim, principalmente contra um jogador tão forte e cheio de recursos como o “durrrr”.

Outro fator importante é que o stack efetivo aqui é de $800K, ou seja, podemos ter um pote acima de 1 milhão e meio de dólares, eventualmente. Talvez este seja um dos motivos pelo qual Phil Ivey deu apenas call, mas se ele analisou isso como um fator ruim (acho que foi um grande erro). Presumo que ele está jogando totalmente dentro dos limites do seu bankroll, então essa seria uma grande situação para alavancar o pote, o que claramente faz pleno sentido pra mim.

O turn foi uma carta que não ajudou Ivey, um 3. Como previsto, é claro que Dwan vai disparar uma grande aposta e Ivey vai ficar numa situação difícil.

Dwan aposta $125.200 e o pote vai para $285.500. Ivey novamente dá call e o pote fica com $408.700. O nível de pensamento (thinking level) desses caras é muito alto, mas vamos ver se conseguimos continuar com uma boa análise desta jogada por aqui.

Esse call do Ivey no turn o deixa numa situação muito ruim – péssima, eu diria. Vejamos: se ele acertar a mão no river, provavelmente ganhará o pote sem mais nenhuma extração de valor nessa street. Estou falando aqui do flush draw, pois seria bem possível que ele acertasse a sequência e ainda dividisse o pote (ambos com ás na mão), o que torna o investimento pior ainda.

Se ele errar o draw no river, é bem provável que Dwan dispare o terceiro tiro e só lhe reste dar fold. Caso Dwan peça mesa, aí ele vai ser obrigado a se colocar em outra situação complicada, que é ter que blefar no river com todas suas fichas para tentar ganhar o pote, sendo que a esmagadora maioria das cartas que podem vir no river é ruim para blefar, sem ao menos ter uma noção do que Dwan tem na mão, já que a sua postura foi defensiva do começo ao fim, o que torna mais difícil extrair informação do seu adversário.

Da parte de Dwan, já que ele se propôs a continuar nessa jogada, agora ele faz muito bem em continuar até o final. Parece-me que ele sabe que Phil Ivey está num draw e, por mais desconfortável que ele possa se sentir nesse momento, a situação não fugiu do controle em momento algum.

O river é um 6 que não muda absolutamente nada, pois, apesar de ser um par para Ivey,  é apenas o 4º mesa. Como novamente era esperado, Dwan manda o terceiro chumbo grosso com muita convicção do que está fazendo, correndo um risco muito bem calculado, já que o turn e o river foram excelentes cartas para continuar a representar uma mão forte. A aposta foi de $268.200 num pote agora de $676.900. Dwan tem $280K para trás. Phil Ivey pensa muito, cogita dar call com apenas par de seis, mas sabe que sua jogada foi muito pobre e que ele ficou numa situação muito complicada para dar esse call, então acaba dando fold.

Se eu tivesse alguma crítica a fazer contra o “durrrr” nessa jogada, seria uma só: percebi sim uma alta dose de nervosismo no momento em que ele foi pegar as fichas para fazer a aposta no river e, se vocês buscarem os demais vídeos dele na internet, perceberão que normalmente ele faz as apostas com uma mão apenas. Isso me pareceu um grande indício de blefe. Obviamente que analisar do lado de fora, sem pressão e vendo toda a ação fica muito mais fácil, mas meu papel aqui é fazer a minha análise da jogada e ponto.

Mais uma vez, o nível desses caras é tão alto que fica muito complicado se expor a ponto de dizer que Ivey fez uma jogada completamente sem sentido. A mim pareceu que ele tentou inverter o raciocínio, e Dwan não se deixou intimidar pela série de calls que sofreu.

Essa é uma belíssima jogada para vocês passarem um tempo analisando as possíveis razões e motivos que ambos os jogadores levaram em consideração fazer o que fizeram. Não me resta nenhuma dúvida, como eu já disse, de que, em minha opinião, eles são os dois melhores jogadores de cash game do mundo atualmente. Mas ficou provado para mim que Dwan hoje é o melhor de todos, e que Ivey ainda é capaz de fazer jogadas muito ruins (por ego e impulso).

Espero que vocês tenham gostado desta breve análise de uma mão tão complexa entre dois grandes monstros do poker atual.

Valeu, galera, e continuem seguindo minha carreira no Twitter @FelipeMojave e no @PartyBrasil, para ficar por dentro das novidades do PartyPoker, bem como acompanhando o blog www.partypokerbrasil.com. Um grande abraço!




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EDIÇÃO 33

Ano 3 - abril, 2010

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