EDIÇÃO 24 » ESPECIAIS

Tudo sobre o Evento #35 WSOP 2009

$5.000 Pot-limit Omaha


Felipe Mojave

Fala, galera da CardPlayer Brasil! Nesta edição especial de 2 anos da revista, apresento para vocês os detalhes do meu torneio no evento #35 da World Series Of Poker 2009 (Pot-Limit Omaha de $5.000), em que consegui alcançar a mesa final e a 6ª colocação.

Por mais que eu tenha deixado escapar a vitória no torneio e o sonho do bracelete de ouro, é claro que estou muito contente, afinal, foi a 1ª mesa final de um brasileiro na modalidade Omaha. Este é um jogo que eu venho estudando e praticando bastante, o que me credenciou a estar entre os melhores do mundo na Série Mundial deste ano.

O field de um torneio de 5k da WSOP atrai as maiores feras do plane-ta. E entre os 363 jogadores que se inscreveram para esse evento, estavam praticamente todos os grandes nomes da atualidade. Era possível encontrar craques como Phil Ivey, Jeffrey Lisandro, David Benyamine, Daniel Negreanu, Sorel “Zangbezan” Mizzi, Cliff “JohnnyBax” Josephy, Isaac “WestmenloAA” Baron, Patrick Antonius, John Juanda, Tom “Durrrr” Dwan, Peter Jetten, Noah Schwartz, Matt Graham e muitos outros competidores de alto nível.

Meu torneio começou em uma mesa duríssima, composta por JohnnyBax, Nam Le, John Kabbaj e pelo menos outros dois jogadores com grande currículo no poker. E logo no começo tomei uma grande fatiada com top set, contra um jogador escandinavo claramente me acompanhando no flush draw. O mais curioso é que o flush apareceu no river, e, depois de eu dar mesa, ele pensou por cerca de trinta segundos e resolveu dar mesa também, apresentando Q-high flush. No segundo nível de blinds (100-200), tomei uma tremenda bad beat, que me deixou short stack. Prestem atenção nesta jogada, pois ela realmente foi de uma arquitetura miraculosa.

UTG entra de limp e três calls ocorrem. Quando a ação chega no SB, um jogador russo de perfil loose resolve apostar o pote, no valor de 1.100. Eu olho minhas cartas no BB e encontro A-A-9-7 double-suited, e reaumento para 2.850. Para minha surpresa, a mesa toda dá call, e então a equidade da minha mão já tinha ido pro espaço, ou seja, preciso acertar o flop – e muito bem acertado, por sinal. Mas quando a ação chega novamente no russo, que já tinha as fichas separadas para dar o call antes mesmo de chegar sua vez de falar, ele resolve aumentar novamente e ir de all-in por 7.500 fichas. Claro que eu, internamente, comemorei muito, pois essa jogada dele tinha realmente salvado a minha mão: eu agora teria a chance de reaumentar pela quarta vez, para 12k, e me isolar no pote contra ele, afinal eu sou o próximo jogador com a ação e os demais não terão odds para dar call. Perfeito! É, mas as surpresas não haviam acabado... Uma jogadora no UTG fala: “Let’s gamble!” e vai de all-in por 8k. Os demais jogadores dão fold, e apresentamos as mãos: o russo que deu dois reraises apresenta 9-7-7-2 single-suited (?), a senhora abre J-J-8-7 double-suited, e eu abro A-A-9-7 double-suited. Neste instante estou dominando ambos no flush draw de copas e espadas (eu perderia apenas para paus). O flop foi terrível: J-7-5 rainbow, e não tive ajuda do turn nem do river. Caí para 6k em fichas.

Logo no final desse nível, vim com A-A-K-Q single-suited e voltei a aposta de um adversário que me colocou all-in com a melhor mão possível, K-K-x-x. Dobrei e, depois de acertar alguns flops, voltei para 20k antes do intervalo. Daí pra frente comecei uma boa escalada no meu stack, mas alguns hits não me deixaram ultrapassar muito da média de fichas, como trinca contra flush draw e outras mãos normais no Omaha. Terminei o Dia 1 com 95k, com a média em 85k.

Sobre o Dia 2, já vou começar dizendo assim: “Foi o melhor poker que eu já apresentei na vida”. Tomei uma série de decisões muito felizes e estava com timing de jogo muito ajustado, o que me fez manter o meu stack num tamanho adequado. Neste dia houve duas mãos muito importantes que me alavancaram. Na primeira, eu tinha um stack de 75k e dei um call do button com JJT8. Com outros três jogadores na ação, o flop veio T94, sendo que eu acertei um draw para straight-flush. A minha mão não é tão forte assim, pois facilmente sou batido com J-high flush, e minha sequência nunca é nuts, exceto se entrar o 7. O primeiro adversário dá check, e o segundo aposta 14k. Dou call em posição e o outro jogador dá fold. No turn aparece a carta milagrosa: 7 (isso mesmo, straigh-flush!). Meu adversário aposta o pote, que já era quase suficiente para me colocar em all-in, que eu mesmo anunciei com as 20k fichas restantes. Ele dá call com nut-flush e eu tenho o straight-flush! Sensacional! Dou um salto para 150k e agora tenho stack para brigar com os grandes da minha mesa.

Nesse momento, o chip leader Jesper Hougard, com 550k em fichas, é transferido para a minha mesa. Além do grande estoque, ele também é um excelente jogador, e estava pressionando muito. Quando eu disse que foi o melhor poker que apresentei na vida, estava falando em jogar fora de posição contra um adversário forte e com quatro vezes o meu stack. Eu sabia que ali era a galinha dos ovos de ouro, pois arrancar fichas dos demais jogadores estava difícil, já que eles estavam jogando muito firme e tight. Então, pelo poker sólido que eu vinha apresentando, minha estratégia foi deixar ele encarecer o pote e voltar todas as minhas fichas no turn, pois eu sabia que ele estava jogando mãos muito marginais e seria improvável que me desse call com qualquer mão média. E assim, em dois grandes blefes contra Jesper, consegui subir 220k. No segundo, a jogada foi bem interessante: ele abriu raise do UTG+1, e eu dei call do button com 2-3-4-5 single-suited em paus. O flop vem A-5-9 com duas de espadas, e eu acerto um wrap de nove outs com um par. Ele dispara o pote, e eu dou somente call. No turn, um T não muda muita coisa, e ele dispara o pote de novo. Simulando claramente ter uma mão forte e, quem sabe, o draw para flush (algo como trinca e flush-draw ou top-two e flush-draw), dei call mais uma vez, pois eu sabia que, ainda que eu não fechasse a minha mão, ele se assustaria com o segundo call e talvez reduzisse a marcha no river. E foi exatamente o que aconteceu. O river trouxe um 6, deixando três desse naipe no bordo. Ele prontamente deu check, e depois de 30 segundos eu anunciei all-in. Ele pensa um pouco e, como o previsto, dá fold, pois estava forçando a barra desde o começo, talvez com um ás apenas. Alcancei a marca de 300k em fichas sem nenhum showdown e com jogadas bem pensadas, que exigiram realmente o melhor de mim. Colocar todas as fichas nessa situação antes mesmo do ITM foi uma jogada classe A, e era exatamente isto o que eu queria que ele pensasse: que eu não seria capaz de fazer essa jogada na bolha do torneio se eu não tivesse o nuts. Na verdade, essa jogada teve um risco muito bem calculado, e o único problema dela seria se ele tivesse fechado realmente alguma mão no river e apostasse, pois isso o deixaria pot-commited e só me restaria dar fold.

E foi logo em seguida que eu consegui engatar uma sequência de mãos, ganhando bons potes contra Jeffrey Lisandro e eliminando o Justin “Boosted J” Smith. Dobrei o meu stack numa grande mão contra o JohnnyBax. Ele deu raise do cut-off, e eu paguei do big blind, com 2-4-6-7 single-suited em espadas. O flop trouxe 2-3-T com duas de espadas, e dei check no flop para ele apostar. Depois de algum tempo, voltei all-in. Ele demorou muito, mas muito tempo, e resolveu dar call, apresentando apenas K-K-x-x, ou seja, overpair. Com isso, minha mão tinha 70% de chances de vencer, pois tinha uma combinação bem forte com par, straight e flush-draws. Logo no turn eu acertei o meu straight com 5, dobrei e disparei para acima da média.

Quando entramos na faixa de premiação, as eliminações começam a acelerar, e logo chegamos à mesa semifinal. Num determinado momento, restavam 11 jogadores, e a minha mesa estava 5-handed. Eu tinha 550k em fichas e um bom stack para a mesa final, que estava perto de se formar. O chip leader do torneio era Rifat Palevic, com 850k, e ele abre raise do UTG para 60k, com blinds 10k-20k. O short stack da mesa, que tinha 250k, volta o pote e fica praticamente em all-in. Estou no button, encontro A-A-J-T single-suited em espadas e dou reraise do tamanho do pote, que era quase o meu all-in também. O chip leader dá fold, e Dan Hindin apresenta K-J-T-8 double-suited em espadas e copas. Que maravilha! Ele está dominado em espadas, o que o deixa numa situação de 28,5% de chances de ganhar a mão. Mas o flop foi cruel demais, trazendo três cartas de copas para ele acertar o flush e dobrar. E eu, que ia entrar na mesa final com 800 mil fichas, fiquei numa situação de short stack com 360 mil. Pelo menos essa foi a última mão do dia, e um banho e uma boa noite de sono recarregariam as minhas energias para voltar no dia final com o espírito renovado, pronto para alcançar a mesa final. E foi o que aconteceu.

No dia final, quando estávamos em hand-for-hand para formação da FT, ganhei simplesmente todos os potes que joguei com raises roubando os blinds e mantendo o stack. Escalei para 452k. Depois de Isaac Baron ser eliminado, a mesa final foi composta assim:


Mesa final de WSOP… Nesse momento passa um grande filme na cabeça, uma emoção realmente muito forte. Você começa lembrar de quando começou a jogar poker e de como seu caminho foi traçado até chegar naquele momento histórico para mim e para o Brasil... As dificuldades, as escolhas e a batalha que é trabalhar com este esporte maravilhoso, mas extremamente competitivo e complexo. Eu sabia que estava preparado para aquele momento. Eu vinha estudando muito sobre essa modalidade e já tinha uma considerável carga de experiência em retas finais de grandes torneios.

Depois desse objetivo realizado, sinceramente, fui pro tudo ou nada. Sem falsa modéstia, meu objetivo era o bracelete – como eu costumo dizer, joguem o torneio de poker com os objetivos debaixo do braço. Primeiro objetivo: passar para o Dia 2. Segundo: passar para o Dia 3. Terceiro: chegar à FT. Objetivo Final: bracelete da WSOP. Dos quatro, três eu já havia conseguido.

Minha estratégia para a mesa final era jogar bastante sólido e procurar ver a maioria dos flops possíveis em posição. Com os blinds altos e os chip leaders pressionando, jogar em posição era fundamental. Do contrário, seria muito fácil ficar short stack e ser eliminado logo no começo da final table, pois, fora de posição, se errar o flop e atirar, há o risco de ser pago por quem tem muitas fichas com mãos marginais – do mesmo modo, se eu pedisse mesa, é fato que eu seria pressionado e obrigado dar fold na maioria das vezes.

Logo no começo da FT joguei um pote contra Rifat Palevic de 1,2 milhões de fichas, que, se eu tivesse vencido, me tornaria o chip leader do torneio. Alguns jogadores entraram de limp, e eu dei check no big blind com K-J-7-6 double-suited. O flop veio 9-8-2 com duas cartas de espadas, e eu tinha K7, ou seja, duas pontas e flush draw. Dei check, e todos fizeram a mesma coisa. No turn veio a carta perfeita: 6. Acertei o nuts e ainda tinha o redraw para espadas. Numa tentativa de acumular mais fichas e possivelmente fazer engatar na mão, com todo o seu stack, algum jogador que também tivesse o straight no turn, dei check novamente. Rifat apostou o pote, todos os demais deram fold, e eu reaumentei para o pote. Quando Rifat voltou all-in, eu sabia que ele tinha a sequência também, só me cabia dar call e torcer pra bater espadas no river. E o plano era perfeito, pois ele também tinha espadas, mas no Valete, e eu no Rei. Ele tinha o redraw da sequência para cima com três damas, e eu jogava com as espadas. Dobrou o 8 no river, e dividimos o pote.

Daí em diante vi muitos flops, mas não acertei nenhum. Quando estava em posição, levei vantagem duas vezes sobre JohnnyBax e Richard Austin, e puxei os potes, mas não estava encontrando boas situações para arrecadar fichas, sem falar que os blinds estavam pressionando muito. Restando sues jogadores o jogo estava muito duro e bem disputado, ninguém dava oportunidade para ninguém. Foi quando o chip leader da FT com 1,6 milhões de fichas, Sorel “Zangbezan” Mizzi, abriu raise de 100K do UTG, com blinds em 12k-24k. Encontrei A-A-T-6 single-suited em ouros, do button. Aumentei o valor do pote e fiquei com cerca de 100 mil fichas para trás. Com 900k ele resolviu me colocar em all-in, e eu dei o call. Sorel tinha A-J-9-7 single-suited no J de paus, e eu era favorito em 3-1 para vencer a mão pré-flop. Pra quem não está muito familizarizado com o Omaha, ainda seria a mesma coisa que eu tivesse AK e ele segurasse AQ, ou seja, dominado. O flop foi o melhor do mundo: 24T, trazendo para mim um par e o nut-flush-draw. Isso equivale a 92% de chances de vencer a mão, a oportunidade de dobrar e voltar firme pro jogo, na luta pelo bracelete. O turn foi uma carta perigosa, 8, abrindo outs para sequência – mas eu ainda era muito favorito, com 70% de chances. E o river veio para me derrubar de uma maneira muito dolorosa: um J completou a sequência de Sorel e me eliminou na 6a. colocação. Acho que dolorosa não é a palavra certa para descrever o momento, pois foi muito mais do que isso – o cara não tinha par e nem tem draw para nada. Enfim, não tinha “pra onde correr”.

É claro que no momento a frustração é muito grande. Chegar tão perto do bracelete num evento com buy-in de 5k e perder uma mão dessas é de chorar mesmo. Mas é claro que a alegria de fazer uma mesa final histórica para o Brasil na WSOP é muito maior que isso. Só pelo fato de eu conseguir comprovar que meu jogo está evoluindo a ponto de eu encarar feras renomadas do poker de igual pra igual já é um grande feito.Além disso, representar o Brasil é uma enorme honra pra mim.

Considero esse resultado uma vitória do nosso esporte em geral, de quem ama mesmo o poker. Sei que milhares de brasileiros ficaram torcendo pra mim durante o trabalho, estudo, e por aí vai, sem pedir nada em troca, somente pelo fato de ver o poker brasileiro triunfar.

Outro fato sensacional é o reconhecimento. Meu desempenho foi elogiado por especialistas de Omaha, como Robert Williamson III, que foi o comentarista da mesa final transmitida ao vivo na ESPN360. Eu me lembro muito bem quando cheguei na mesa da TV no EPT San Remo, em abril de 2008, onde todo mundo do poker parou para assistir, pela primeira vez, um brasileiro representando o nosso país ao vivo – parecia copa do mundo de futebol (vide edição n. 07 da CardPlayer Brasil). Essa agora também foi inédita, e eu nem consigo imaginar quantas pessoas estavam assistindo e trazendo energias positivas. Valeu mesmo.
Outro fato importante é que, como eu tinha acabado de fechar contrato com o Party Poker para ser embaixador do site na América Latina, começar com o pé direito foi muito bom. Aproveito para avisar que estou atualizando diariamente o meu novo blog, no endereço partypokerbrasil.com, e que vocês também podem me acompanhar no twitter, pelo nome @PartyBrasil. Deixo aqui também uma dica para quem quiser conhecer o novo Party Poker: basta abrir uma conta com o código NOVOPP e ganhar 100% de bônus no primeiro depósito, até $500.

Em resumo, essa foi a história da minha mesa final no evento #35 da WSOP 2009 (Pot-Limit Omaha com buy-in de $5.000). Espero que vocês tenham curtido esse momento junto comigo, pois como eu disse, foi uma vitória do poker brasileiro. Grande abraço a todos, e muito obrigado pela torcida!




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EDIÇÃO 24

Ano 2 - julho, 2009

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