EDIÇÃO 24 » ESTRATÉGIAS E ANÁLISES

Decifrando o Código

A chave para ler mãos


Barry Tanenbaum

Eu não conheco Erik Seidel pessoalmente, embora esteja ciente de seu expertise no poker e de seus oito braceletes da World Series of Poker. Uma das primeiras coisas que li sobre ele, muitos anos atrás, foi: “O que você deve saber sobre Erik é que, depois de jogar com você durante 15 minutos, ele começa a desenvolver uma contraestratégia feita sob medida para você”.

E esse é seu dever também. A habilidade central para se ganhar no poker em níveis mais altos é a leitura de mãos. E para tanto, você deve aprender a decifrar códigos.

Esta coluna vai discutir o que eu quero dizer com decifrar códigos no poker, e irei adicionar algumas reflexões sobre como fazer isso. Parta da premissa de que todo jogador desenvolveu uma estratégia para jogar. A maioria das pessoas joga de determinada maneira porque acha que é a correta.

Para dar um exemplo simples, quase todo mundo tem critérios para quando vão abrir raise do UTG em uma full table de limit hold’em. Para alguns, a gama é extremamente pequena — talvez A-A, K-K, Q-Q e A-K. Para outros, pode ser qualquer par, ás ou quaisquer duas cartas altas. Para aquelas almas mais otimistas, pode ser qualquer mão que recebam. Dentro da maioria das gamas, há mãos com as quais eles aumentam e mãos com as quais eles pagam. Um de seus deveres ao decfirar códigos é descobrir a gama de cada pessoa para abrir raise e aumentar.

Obviamente, esse trabalho de detetive se estende a cada posição, a pagar, a pagar aumentos, a reau-mentar e assim por diante. E isso apenas antes do flop. Quebrar códigos se torna mais complexo à me-dida que a mão progride, mas os resultados são bem mais importantes, pois você pode delimitar gamas.



A má notícia: O maior problema é que não há como desvendar os códigos de alguém que jogue bem melhor que você. Como o processamento de raciocínio dele é mais profundo que o seu, você será incapaz de entender a fundo o pensamento dele e discernir as razões dele para jogar como está jogando.

Por exemplo, um amigo meu aprendeu a jogar, como a maioria de nós, seguindo o conteúdo de um livro básico. Ocasionalmente, alguém fazia uma jogada que ele não compreendia porque não estava no livro dele, como reaumentar pré-flop com K-9 ou aumentar do big blind com um par de quatros. Quando via isso, ele naturalmente presumia que esses jogadores estavam cometendo erros significativos porque não estavam jogando da maneira como ele fora ensinado.

Por sorte, ele era insaciável em sua curiosidade e tinha mentores excelentes. Quando ele descrevia essas jogadas, em geral no contexto de que elas eram muito estúpidas por parte do executor, ele aprendia que tais movimentos eram de fato legítimos sob determinadas circunstâncias. À medida que sua compre-ensão se desenvolveu, ele começou a incorporar essas jogadas em seu repertório, e ele hoje é um jogador de high stakes.

E essa é a boa notícia que vem com a má. Embora você não seja capaz de decifrar os códigos daqueles que raciocinam sobre o jogo de maneira mais profunda que você, ao prestar atenção, pode-se eventual-mente descobrir por que eles estão fazendo o que estão fazendo e, assim, aperfeiçoar seu próprio jogo.

Alguns exemplos: Vamos começar com o river, que em geral é heads-up: isso, é claro, simplifica as coisas. Você precisa saber se seu oponente vai apostar pelo valor ou vai apostar apenas com suas mãos mais fortes. Ele vai blefar, semiblefar ou dar check-raise blefando? É preciso descobrir, pois os muitos jogadores que não fazem nada dessas coisas são muito mais fáceis de enfrentar. De fato, pouquíssimos jogadores fazem check-raise blefando no final, embora muitos calls no river sejam baseados na teoria de que o oponente pode estar fazendo isso com frequência suficiente para justificar as pot odds de pagar.

Quando estão nos blinds, alguns jogadores blefam em um flop com três cartas baixas, na esperança de que ninguém tenha se conectado com o flop ruim. Alguns vão blefar automaticamente no turn se todo mundo tiver pedido mesa no flop. Outros sempre têm valor com quaisquer dessas ações. Claramente, é muito bom que você distinga ambos.

Alguns acreditam que devem fazer check-raise no flop depois de uma aposta de posição final com qualquer par. Alguns acham que precisam de dois pares ou melhor, enquanto outros com dois pares ou melhor sempre esperam pelo turn para preparar sua armadilha. Para outros, ainda, basta um draw. E, é claro, alguns dão check-raise no flop com quaisquer dessas mãos, e ocasionalmente sem nada.



Os códigos dos jogadores não estão restritos a ações normais. Alguns oponentes normalmente tight e racionais podem aumentar na mão que imediatamente após uma bad beat. Eles querem seu dinheiro de volta agora. Sabendo quem eles são e quando irão de repente fazer essa jogada pouco usual vai lhe ajudar a fazer contra-ataques geniais.

Jogadores avançados possuem códigos mais complexos, pois tendem a ajustar seu jogo à situação e às tendências de seus adversários. Eles podem ser menos tight quando jogadores fracos estão no pote, e podem descartar mãos jogáveis quando oponentes fortes estão presentes. Eles podem tentar blefar contra jogadores que eles suspeitam serem capazes de dar fold, mas jamais blefariam sob outras circunstâncias. Você pode compreender o jogo deles, mas deve primeiro trabalhar para reconhecer as características dos adversários conforme eles as percebem.

Como você faz tudo isso? Comece com grande concentração, foco e memória. Adicione muita obser-vação, testes hipotéticos e trabalho duro. Concentre-se em um jogador por vez. Se você tentar decifrar o código de todo mundo, provavelmente vai ficar confuso. Comece com os jogadores mais fáceis de ler, pois isso torna seu trabalho mais simples e lhe ajuda a ganhar confiança, e eles devem ser sua maior fonte de lucro.

Conclusão: Vários anos atrás, eu jogava limit hold’em de $20-$40 basicamente contra os mesmos per-sonagens vários dias por semana. Depois de um período de anos, cheguei a um ponto em que acreditava que você poderia me colocar em qualquer assento e me instruir a jogar exatamente como um desses oponentes jogaria, e eu faria um trabalho decente. Eu posso ter errado algumas coisas, mas tinha uma boa ideia geral de como todo mundo abordava a maioria das situações.

Essa é sua meta. Você sabe como um jogador encara o jogo? Por que ele está ali? Quando ele fica irrita-do e se desvia de seu estilo usual? De que mão ele precisa para tomar a iniciativa das apostas? Ele vai semiblefar com flush draw ou pedir mesa e esperar ver um turn barato? E assim por diante.

Quanto mais você se aproximar da quebra desse código, mais eficiente você será como oponente dele — e essa deve ser sua meta.


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