EDIÇÃO 22 » ESTRATÉGIAS E ANÁLISES

Contrarrecursos

Às vezes as coisas não são o que parecem


Barry Tanenbaum

Muitos anos atrás, eu projetava computadores para o exército. Dentre as coisas que buscávamos estavam os “contrarrecursos”, que eram coisas que o inimigo fazia para negar o que nós estávamos fazendo. Obviamente, nós então empregávamos “contra-contrarrecursos” para lidar com os contrarrecursos.

Eu não sou muito fã de analogias militares para jogos de poker, pois lidamos com uma atividade social em que o dinheiro muda de mãos, e não com uma disputa de vida e morte. Todo mundo participa voluntariamente. Contudo, há algumas similaridades entre a guerra e o poker, em particular contrarrecursos. O poker é um jogo em constante evolução, no qual seus oponentes tentam contra-atacar as coisas que acham que você está fazendo, e você, por sua vez, tenta descobrir como eles estão reagindo a você. Você então ajusta suas estratégias para superar os contrarrecursos deles. Eis uma mão que eu joguei recentemente que demonstra isso.

Entrando em um jogo de limit hold’em de $30-$60 no Bellagio, eu postei do cutoff para começar minha sessão. Prefiro pagar o big blind, e quase nunca posto entre o big blind e o button. Às vezes, quando eu me sento depois de ter perdido os blinds, eu espero e observo uma volta inteira até que meu big blind chegue.



Dessa vez, contudo, eu estava familiarizado com quase todos os jogadores, que tinham estado ali a semana inteira. Recebi T-7 offsuit, e a mesa rodou em fold até mim. Isso era pouco usual esses dias (costumava ser comum antes da explosão do poker), mas acontece. Essa é uma situação de aumentar ou largar, e você não pode dar fold, então a estratégia adequada é aumentar. Isso lhe permite ter o controle da mão e possivelmente criar algum dinheiro morto se um dos blinds largar. Na verdade, há chance de ganhar imediatamente, o que é um grande incentivo.

Há algumas situações em que você não deve fazer esse aumento quase automático:

• O jogador no button é superagressivo e vai reaumentar com frequência, colocando você em grande desvantagem, especialmente quando você tem uma mão medíocre ou fraca.
• Você sabe pela experiência que nenhum dos blinds jamais vai largar, e você tem uma mão terrível.

Nenhuma dessas situações parecia ocorrer. Eu estava familiarizado com todos os jogadores remanescentes, então aumentei.

Cooperativamente, tanto o button quanto o small blind deram fold. Excelente! O big blind, porém, voltou reraise. Superficialmente, isso foi um mau sinal, pois ele devia ter uma mão muito boa para fazer essa jogada fora de posição depois de eu ter mostrado força.

No entanto, eu tinha jogado com esse cara a semana toda, e havia grandes chances de ele estar reagindo ao conhecimento que tinha de que eu aumentaria aqui com quase qualquer mão, e ele estava aproveitando essa oportunidade para brigar pelo controle do pote. Eu tinha visto ele dar um reraise similar com uma mão fraca naquela mesma semana, contra um jogador que fazia aumentos suspeitos, então eu sabia que ele era capaz disso. É claro que ele podia ter uma mão premium, mas eu tinha desconfiado imediatamente da jogada dele e resolvi usar minha posição para desafiá-lo.

Eu paguei, e nós vimos um flop com K-4-4, não exatamente perfeito para um T-7 offsuit. Não havia razão para que eu acreditasse que ele tinha algo assim (ou mesmo que tivesse uma mão boa como ás como carta mais alta), então decidi fazer uma jogada para levar o pote. Assim como em todas as mãos, bolei um plano.

Se ele apostasse e eu aumentasse aqui, ele acreditaria em mim? Eu achava que não. Aumentar aqui teria pouca credibilidade, e ele esperaria que eu finigisse algo nesse tipo de bordo. Meu plano, para o bem ou para mal, era pagar aqui e dar raise blefando no turn ou river, dependendo do que saísse do baralho. É assim que eu jogaria com uma mão como K-Q, então foi isso que decidi representar.

Paguei a aposta dele no flop, começando a executar meu plano. Então, o turn foi um T. Isso mudou as coisas, e eu precisava repensar minha estratégia. Eu não tinha mais um blefe, pois minha mão de repente se transformou em algo que tinha potencial para o showdown. Mas eu devia dar raise pelo valor? Eu provavelmente estava à frente, mas não era certeza. Afinal, ele poderia estar fazendo todos esses aumentos e apostas porque realmente tinha algo. Eu certamente não queria ter que resolver um problema de reraise. Invocando meu novo plano, paguei novamente.

O 2 no river não pareceu mudar muita coisa. Ele apostou de novo. Um aumento não conseguiria muito. Se ele tivesse uma mão melhor que a minha, não havia como largá-la. Ele poderia pagar com algumas mãos piores do que a que eu tinha se estivesse com suspeitas suficientes, mas muito pouco. Paguei novamente.

Ele mostrou Q-7, então eu ganhei. Na verdade, ele tinha concluído corretamente que meu aumento pré-flop era fingimento, e tentou reagir. Meu plano de aumentar no turn se uma carta nula aparecesse talvez tivesse funcionado, mas não há como saber se ele teria desistido ou tentando representar uma grande mão de novo (o que teria sido bem-sucedido).

O showdown causou uma reação interessante na mesa. Quando as apostas eram raise, reraise pré-flop, depois mais apostas e calls, a maioria das pessoas na mesa achava que tínhamos mãos de verdade. Um cara disse: “Eu pensei que vocês dois tivessem um rei”.

Conclusão: Às vezes as coisas não são o que parecem na mesa. Eu certamente teria parecido tolo se tivesse aumentado diante de uma carta nula no turn e apostado no river, para revelar 10-7 e perder para algo como A-K.

Ocasionalmente, você tem que analisar as chances que seu oponente tem de possuir algo real ou estar tentando usar contrarrecursos contra o que ele acha que você está fazendo. Se você decidir que ele está usando contrarrecursos, vá em frente e inicie um contra-contrarrecurso, muito embora isso possa dar errado. No longo prazo, é melhor ter a coragem de suas convicções do que esperar até que tudo esteja perfeito para jogar uma mão com agressividade.




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EDIÇÃO 22

Ano 2 - maio, 2009

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