EDIÇÃO 22 » MISCELÂNEA

Capture a Bandeira: Niman Kenkre


Kristy Arnett

Niman Kenkre é um profissional de cash games de 36 anos que transformou $25 em milhões. Depois de ter obtido 1.580 pontos no seu SAT (“scholastic aptitude test”, uma espécie de vestibular), ele se formou na University of Texas em Austin e obteve um diploma de Mestre em Ciências em engenharia elétrica na Penn State. Apesar de ser muito bem pago em seu emprego no MIT (Massachusetts Institute of Technology), seus rendimentos jogando poker online em meio expediente rapidamente ultrapassaram seu salário e ele deixou seu emprego para seguir no poker em 2006. Kenkre joga sob o nickname “Samoleus” e é conhecido por sua abordagem analítica do jogo.

Kristy Arnett: Como você começou a jogar cash games?

Niman Kenkre: Comecei a jogar poker em alguns jogos caseiros com amigos, e no início eu era o típico mau jogador, loose e passivo. Basicamente, eu apenas observei alguns dos vencedores e aprendi a jogar. Então fiz um deposito de $25 no Planet Poker e entrei em um torneio de $25. Minha esposa estava um pouco incerta quando a esse negócio de apostas. Se eu tivesse perdido aquele dinheiro, não sei se teria financiado minha conta e continuado no poker. Acabei ganhando aquele torneio, e recebi $600. Comecei a jogar cash games depois disso. Uma coisa legal foi que eu nunca mais fiz outro depósito na vida.

KA: Como você construiu seu bankroll a partir daqueles $600?

NK: Eu estava sempre preocupado em não quebrar, pois não sabia se refinanciaria aquela conta, por causa do nível de conforto da minha esposa, então eu era sempre conservador com meu bankroll. Depois de ganhar os $600, comecei a jogar 10¢-25¢, com buy-in de $25. No início, eu sempre mantinha uma regra de 30 buy-ins [o tamanho do bankroll], e mantive essa decisão. Nunca tentei a sorte em limites mais altos. Descobri que precisava ficar bom nisso muito depressa. Eu realmente aumentei meu bankroll bem rápido, e fiquei no nível de $10-$20, $25-$50 no PartyPoker, que acabou sendo meu site principal até rejeitar clientes norte-americanos.

KA: Qual é a chave para sair bem de fases ruins?

NK: A coisa mais difícil, porém mais importante, é a capacidade ser de ser bastante autocrítico, de dizer se você está jogando bem ou não. O jogo hoje é disputado com muito mais agressividade, e os jogadores têm um estilo que varia muito mais do que costumava variar há alguns anos, então é bem provável passar por períodos ruins sem jogar mal. Acho que, quando os jogadores passam por fases ruins, eles precisam ser muito autocríticos e realmente ver se houve falhas ou se há algo errado. Se não houver, eles precisam manter a confiança para continuar jogando suas mãos da mesma maneira.

KA: Você pode nos dar um exemplo?

NK: Claro. Para exemplificar, digamos que você tenha um número de situações em que flope um grande draw como um par e um flush draw, ou uma queda para flush e sequência nas duas pontas, e coloque o dinheiro no pote como deveria, e perca várias vezes seguidas. Uma das coisas que vi jogadores fazerem foi se ajustar. Eles dizem: “Eu não consigo mais ganhar com essas”, e começam a jogar de forma menos agressiva. Eles terão esses draws com grandes quantidades de equidade de fold, e vão começar a apenas pagar com essas mãos ou desistir porque vão ter medo de jogar um pote grande e perder novamente. É aí que uma má fase pode realmente se propagar. Um período ruim pode começar mesmo quando você estiver jogando bem, mas, por causa dele, os jogadores podem deixar que seu jogo seja afetado, o que pode ser muito perigoso.

KA: Você acha que os jogadores cometem o erro de supervalorizar seus resultados de curto prazo?

NK: Definitivamente, e acho que isso é algo que os jogadores que estão começando têm dificuldade, pois eles são mais emocionalmente presos aos resultados. Tenho jogado profissionalmente há muito tempo, e definitivamente não vou de qualquer jeito. Às vezes fico sentido, mas hoje, especialmente quando estou jogando meu melhor, permaneço bastante distanciado dos resultados. Mesmo que eu perca 30 ou 40 mil em um dia, isso não me incomoda muito, desde que não seja resultado de jogo ruim.

KA: E quanto ao fator autoconfiança durante fases ruins?

NK: Muito do jogar bem envolve autoconfiança. Nesse momento, quando você está jogando em limites de médios a altos, a maioria dos oponentes será tecnicamente eficiente. Não é tão fácil como era há uns dois anos, com um monte de fishes, então muito de seu sucesso vai depender de ser capaz de jogar no ritmo e fluxo de um jogo, e de jogar bastante naturalmente sem forçar as coisas, e você só pode fazer isso se tiver confiança em si mesmo. Se você se encontrar perdendo a autoconfiança, pode ser hora de sair para um intervalo. Espaireça um pouco e aproveite alguns de seus hobbies ou outra coisa. Você certamente não deve querer jogar quando sente que não vai ganhar, e se você sentir que não vai ganhar, precisa descobrir por quê.

KA: Parece que os cash games se tornaram superagressivos pré-flop, mas você diz que um pouco menos de agressividade pode beneficiar jogadores melhores. Você pode explicar isso em mais detalhes?

NK: Da maneira como o jogo é disputado hoje, há muitos reraises e re-reraises pré-flop. Basicamente, isso deixa o jogo muito oscilante. Acho que muitos jogadores não compreendem que, quanto mais decisões houver, e mais adiante você estiver na mão, mais isso beneficia aquele que toma boas decisões — ou seja, o jogador melhor. Portanto, é mais interessante para os que pensam melhor, aqueles que são melhores do que seus oponentes, manter a razão stack-pote o maior possível. Manter os potes pequenos pré-flop força um oponente a tomar decisões muito mais complexas em streets posteriores. Dessa maneira, há muitas decisões a serem tomadas e muito estoque restante. Vários jogadores começam reaumentando com mãos como suited connectors e coisas do tipo, e esse é um erro fundamental na maioria das situações. É claro que há momentos para isso, como na maioria das coisas no poker, mas, via de regra, é algo ruim. Esses são os tipos de mãos que jogam bem com uma razão stack-pote maior, e são mãos com grandes implied odds. Você tem muitas opções contra seu oponente se o pote não for inflado pré-flop. Digamos que você tenha 8-7 do mesmo naipe e flope o par do meio: você pode ir devagar. Se você flopar uma mão enorme ou um grande draw, pode jogar com vigor. É interessante ter todas as opções possíveis com mãos como essa, mas quando você voltar reraise com essas mãos e inflar o pote, ficará numa situação em que seu oponente possivelmente não cometerá um erro com uma mão tipo top pair ou overpair contra sua gama. Acho que o conceito subjacente aqui é que, quando você deixa mais decisões para serem tomadas ao longo da mão ao não reaumentar ou re-reaumentar pré-flop, isso aumenta a distância entre os jogares melhores e os mais fracos.

KA: Você pode explicar a diferença entre usar pequenas vantagens em torneios e em cash games?

NK: Em torneios você tem problemas de finalização, o que significa que pode quebrar se perder um grande pote, ou simplesmente ficar muito afetado a ponto de não poder jogar da mesma maneira e ter a mesma vantagem que teria com um estoque maior. Portanto, em um torneio, pode-se recusar um jogo com muitas oscilações com pouca vantagem. Você pode querer largar ou controlar o pote em uma situação na qual esteja tentando um draw, mesmo que tenha a melhor chance. Se sua vantagem em relação aos demais for maior do que sua vantagem na mão em particular que você vai jogar, faz sentido “esperar por uma oportunidade melhor”. Contudo, esse conceito não se aplica a cash games. Se você tiver fundos suficientes e puder comprar mais fichas caso quebre ou perca muito de seu estoque, pode continuar a jogar cada situação subsequente da mesma maneira, independentemente dos resultados do grande pote em questão. Então, a não ser que haja uma razão muito específica e tangível para rejeitar uma situação de alta oscilação, você deve sempre empurrar, até mesmo a vantagem mais microscópica, em um cash game, e jogar cada mão conseguindo o maior EV [valor esperado] possível.




NESTA EDIÇÃO



A CardPlayer Brasil™ é um produto da Raise Editora. © 2007-2019. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo deste site sem prévia autorização.

Lançada em Julho de 2007, a Card Player Brasil reúne o melhor conteúdo das edições Americana e Européia. Matérias exclusivas sobre o poker no Brasil e na América Latina, time de colunistas nacionais composto pelos jogadores mais renomados do Brasil. A revista é voltada para pessoas conectadas às mais modernas tendências mundiais de comportamento e consumo.

Sede: Rua Stela de Souza, 54 - Sagrada Família - Belo Horizonte/MG - CEP: 31030-490
contato@cardplayer.com.br
31 3225-2123
LEIA TAMBÉM!×