EDIÇÃO 17 » COMENTÁRIOS E PERSONALIDADES

Informar é preciso

Os bastidores dos bastidores


Daniel Tevez Cantera

No Brasil, “jornalista de poker” é uma profissão nova. Alguns já têm talento comprovado, com experiência anterior; outros – como no meu caso – são “fanfarrões” dispostos a levar as notícias para o pessoal, como for possível. E como qualquer outra labuta, é a soma de esforço, capacidade e renúncia.

Viajamos pelo Brasil e fora dele, e me orgulho de fazer parte do show que virou hoje o poker. Não podemos de jeito nenhum transparecer a nossa torcida pelos jogadores brasileiros, ainda que tenhamos nossos favoritos. Apesar de algumas diferenças pessoais, tenho satisfação em fazer fotos, vídeos e relatos de todos os players (brasileiros ou não) que se destacam. Afinal, nossa meta é noticiar sempre, com clareza, velocidade e imparcialidade.

“Conhecerás a terra prometida, mas dela não habitarás”, diz o Livro das Leis. Às vezes é assim que me sinto ao saber que naquele evento que estamos cobrindo, os jogadores inscritos formam um “field dos sonhos” mas devemos ficar restritos ao nosso trabalho de reportar os fatos sem participar deles. Meus companheiros de caminhada – Murta, Juju e Sérgio Prado – muitas vezes devem fazer a mesma pergunta que me faço: “Vale a pena?”. Vale, e muito. Essa missão de divulgar nosso esporte com seriedade é de suma importância para o futuro do próprio poker, e assumir a responsabilidade de escrever para tanta gente é uma tarefa titânica, que implica num desafio pessoal gigantesco.

Andei roubando um tempo das minhas outras atividades para escrever o que deve se chamar “A solidão das fichas” – um relato do poker brasileiro sob meu ponto de vista. Lá, conto como tudo começou e de que modo muita gente abriu mão de ter uma “vida normal” para entrar de cabeça naquilo que, se feito à meia-boca, deixa de ser correto. (falando por mim, posso dizer que deixei tudo para trás, tanto que devo passar o Natal e o Ano Novo sozinho em Curitiba, e às vezes me pego chorando por isso, mas essa foi minha opção). Nesse relato, ou seja lá o que for, meus heróis, e principalmente meus irmãos de profissão, que citei acima, têm grande importância.

“É uma vida confortável”, dizem alguns. “Viajam para muitos lugares, ficam nos melhores hotéis e têm o convívio dos grandes jogadores”. – Reraise! – Digo que é uma vida de renúncias pessoais, disciplina e humildade para aturar tantas regras e “baralhões” metidos a “high rollers”. Ainda assim, afirmo que é a coisa mais linda do mundo de se fazer: conhecemos pessoas incríveis (cada figura) e histórias fantásticas, como uma vez em que um bêbado veio pedir para eu tentar colocar fichas para seu “cavalo”, que tinha entrado short na mesa final. Ou um marido infiel que pediu “pelo amor de Deus” para colocá-lo entre os inscritos durante a cobertura, com eliminação antes do ITM, para que a coitada da esposa nem um capilé pedisse quando ele voltasse para casa depois de uma noite de festa.

Tenho percebido que existem duas formas de se fazer jornalismo no poker: entrando no ramo para subir social e economicamente, ou sendo crítico e investigativo para desmascarar aqueles que são nocivos ao meio. Às vezes a segunda opção pode custar o emprego do sujeito, mas, pessoalmente, se não combater as práticas e as pessoas que atrapalham o que hoje é uma promissora realidade, não conseguirei dormir em paz, pois estaria me sentido “desonesto” com os que acompanham meu trabalho.

Outro ponto importante é ressaltar que, com o mundo inteiro integrado, o que antes era estritamente nacional virou “transnacional”, e me aborrece que alguns ainda reclamem que o PokerNews em Português ou a CardPlayer Brasil não sejam veículos criados e desenvolvidos aqui. Isso me faz lembrar aquela grande bobagem que era a “Lei de Informática”, que permitia apenas uma única fábrica de computadores, resultando naquelas “carroças” que estavam anos atrasadas em relação à concorrência internacional. Dizer que as mídias do Brasil não são nossas de verdade é papo de quem já perdeu o bonde do poker.

Precisamos ser cada vez mais sérios e unidos. Digo isso pois sempre é muito bacana quando nós quatro nos encontramos durante os eventos, sobretudo os internacionais. Por exemplo, sabem como eu tomei conhecimento da eliminação do Alexandre Gomes no LAPT da Costa Rica? Foi graças ao meu amigo Murta, que desceu correndo para me avisar, pois eu tinha ido ao centro de imprensa noticiar uma outra queda. Acabei postando antes de todo mundo (e olha que tinha muita gente) e levando os créditos, mas o repórter da CardPlayer Brasil foi “o cara”. Isso não aparece nas coberturas, mas esse é o nosso clima: “Imprensa Marrom”!

Como se não bastasse, nós jornalistas ainda temos que agüentar o ‘mano’ reclamar... “Olha, nunca saiu uma foto minha...”, “Pô, cara, fotografa meu cavalo” ou “Cadê minha entrevista?”. Então Murta, Alê (SuperPoker), Sérgio, Juju e companhia: os senhores são meus heróis. Vocês têm meu respeito tanto quanto o melhor dos jogadores (isso sem falar no excelente gosto para avisar quando tem um “capilé” decente para eu fotografar de perto e fazer a alegria da galera que nos prestigia).

Quem sabe a gente se encontra num boteco e celebra mais um fim de ano de amizade.




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