EDIÇÃO 109 » MISCELÂNEA

Hand for Hand - Fedor Holz x Dan Smith

Análise de mão no $111K High Roller for One Drop da WSOP 2016


Redação


A cada mês, um renomado profissional do poker nacional analisará uma mão entre duas feras do poker mundial. Nesta edição, nosso colunista e fundador do FLOW Team Fellipe Nunes analisa uma mão que foi decisiva para o desfecho do torneio mais caro da WSOP, o High Roller for One Drop.

Fedor Holz – 33.875.000 fichas (Q9)
Dan Smith – 57.650.000 fichas (QQ)
Blinds: 400.000/800.000 com antes de 100.000

Fellipe Nunes: Quero começar agradecendo à Card Player pelo convite e dizendo que, antes de tudo, minhas limitações são infinitas se comparadas a esses dois monstros. Portanto, farei o melhor com o conhecimento que tenho.

Dan Smith, com 71 bbs tem aqui uma vantagem muito importante sobre seu adversário. Para mim, antes de pensar nas mãos em si, o processo passa por ter um planejamento sobre como administrar a situação em que você se encontra no momento. E com essa vantagem de fichas, eu buscaria não tomar decisões complicadas contra o meu adversário, escolhendo só as melhores para investir fichas contra o mesmo. Meu conselho:  mantenha a vantagem e faça progressos leves para deixá-lo ainda mais desconfortável do que se encontra no momento.

Fedor Holz tem 42 bbs, um stack muito bom para utilizar sua criatividade e transformar a dinâmica do heads-up (HU). Com esse stack, ele pode abusar das 3-bets, check-raises e em uma sequência de ações agressivas, desmoralizar seu adversário e passar a dominar o HU, mesmo que ainda tenha um stack menor.

PRÉ-FLOP

Do BTN, Holz aumenta para 1.800.000. No BB, Smith reaumenta para 6.000.000. Holz paga.

Fellipe Nunes: Nada relevante a acrescentar. É verdade que 9-8o não está muito presente no meu range de 3-bet pré-flop em um HU, costumo selecionar mãos que me deem melhores condições no pós-flop, como mãos conectadas e naipadas. Em um HU, a frequência com que o adversário pagará a 3-bet será muito maior. Também é importante notar que a resistência no pós-flop também é maior em HU, por isso prefiro mãos que desenvolvam melhor quando monto meu range de 3-bet. Não considero uma 4-bet por parte do Fedor, pois ele está em posição e o stack dele ainda o permite jogar um 3-bet-pot de maneira confortável. E é importante observar que: sem blockers, a 4-bet tenderá a ter menos sucesso no longo prazo.

Flop: 8 6 J (Pote: 12.200.000)
Smith aposta 4.100.000. Holz paga.

Fellipe Nunes: Textura do flop muito interessante para os dois jogadores. Entendo a c-bet do Smith como uma maneira de manter o controle da mão, tirar valor presente e futuro sempre que o Holz tiver um par menor do que de Oito ou mesmo alguns tipos de draws ou high cards com backdoor flushes. Simth consegue realizar algum lucro em cima desse range e também da parte do range do Holz que possa blefar turn e river. Quando digo valor futuro, me refiro sobre quando o seu par evolui, já que esse tipo de bordo traz certa segurança a seu segundo par. Particularmente, eu prefiro o check e optaria por uma linha de check-call até o river — a não ser que minha mão evoluísse muito. Acredito que essa é uma maneira mais “tranquila” de se jogar essa mão contra um adversário tão bom.

O call do Holz é padrão. Ele tem um par, que muitas vezes será a melhor mão em um HU, e backdoor flush draw, o que melhorará consideravelmente a equidade de sua mão quando uma carta de copas aparecer no turn.

Turn: 6 (Pote: 20.400.000)
Smith pede mesa. Holz aposta 5.4000.000. Smith paga.

Fellipe Nunes: Um turn cruel para Smith e maravilhoso para o Holz, uma vez que ele fortalece o segundo par de Smith e o deixa ainda mais confortável na mão. No entanto, Holz sabe que está praticamente nuts — em HU, uma trinca, como essa, tem ainda mais valor que em uma situação normal. 

Aqui, penso que Smith já havia planejado ir de check na maioria dos turns. Mas o maior problema da linha de 3-bet no pré-flop, c-bet no flop e check no turn, adotada por ele, é que ele construiu um pote muito grande para a força de sua mão. E quando se está enfrentando um adversário da qualidade do Holz, não se pode esperar que você tenha sucesso se colocando nessa situação. Mesmo que o Holz não tivesse acertado a trinca, Smith estaria em uma situação ruim, pois Holz teria uma possibilidade bastante interessante para blefar ou extrair valor de mãos com possíveis Valetes.

No lugar de Holz, eu apostaria sempre nesse turn. Acredito que apenas uma parte bem pequena do range de Smith iria para o check-fold depois da 3-bet pré-flop e da c-bet no flop. Interessante notar que, até aqui, o tamanho das apostas dos dois jogadores foi perfeito.

River: 9 (Pote: 31.200.000)
Smith pede mesa. Holz vai all-in de 18.275.000.

Fellipe Nunes: Aqui, Smith tem um grande problema, pois uma sequência está praticamente fora de seu range, baseada na maneira como ele jogou. Com uma mão com potencial para completar o straight, ele apostaria no turn e não iria para o check-call. Então, basicamente, se pensarmos no range de valor de Smith, ele normalmente terá algo como um 8 ou um J, já que as trincas e draws para sequências continuariam apostando no turn. E esse é um lugar difícil para se estar. Você sabe que o seu adversário sabe que seu range é de mãos com valor médio para fraco. Seu adversário é um dos melhores do mundo e é capaz de utilizar essa informação da melhor maneira. 

Quando pensamos no range do Fedor, é improvável pensar em um range fraco. Seu range é muito capcioso e polarizado, mas acho difícil ele se colocar nessa situação sem anda. Mesmo que uma parte do range seja “air”, por ele entender qual o range do Smith, não seria uma boa ideia tentar fazer seu adversário largar uma mão como um 8 ou um J, o que torna a situação perfeita para extrair valor da sua trinca.

Smith paga.

Fellipe Nunes: Para mim, Dan Smith perdeu a mão quando sua ansiedade no river suprimiu a racionalidade. Seus gestos, modo de respirar, tudo transparecia seu total desconforto. E quando o sentimental sobrepõe o racional, no pôquer, você já perdeu. 

Podemos discutir o plano dele para a mão, seu range de 3-bet pré-flop e muitos outros fatores, mas a lição mais importante, aqui, é aprender a respirar e buscar a racionalidade de volta quando a ansiedade toma conta. Se o call é o melhor no river ou não, considero que isso é menos importante do que a falta de controle de Dan Smith ao tomar sua decisão.


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