EDIÇÃO 12 » ESPECIAIS

Vegas Verde e Amarela


Leo Bello

Pelo terceiro ano seguido tenho passado os meses de junho e julho em Las Vegas. Tive a oportunidade de visitar a cidade em outras ocasiões fora do período da WSOP, e é possível perceber como ela se transforma. É uma invasão de jogadores de todas as partes do mundo e, claro, várias poker rooms lotadas pela cidade.

A oferta de torneios jamais foi tão grande quanto este ano. Além dos mais de 50 eventos oficiais da World Series, temos satélites e torneios “second chance” todos os dias nos pavilhões do Hotel Rio, que sedia a festa. No Venetian, o Deep Stack Stravaganza começou no primeiro dia da WSOP e vai até o último, com eventos entre $330 e $5000, sempre com muitas fichas e blinds longos. O Caesar’s realiza a sua série do início da WSOP até o dia 10 de julho, com eventos mais baratos do que os do Venetian, mas com o mesmo número de fichas. Seu Evento Principal chama-se Mega Stack Series tem buy-in de U$1.000 (para fins de comparação, o Venetian tem dois eventos de U$1.000 por semana). No dia 2 de julho começou a Bellagio Cup, com buy-ins variando entre U$2.000 e U$15.000. O Binions promove a Mini Series of Poker, composta por torneios que custam 10% do buy-in do evento da World Series – por exemplo, se for acontecer um evento de U$2.000 na WSOP, na véspera o Binions realiza um de U$200 na mesma modalidade. E pela cidade inteira acontecem outros torneios com buy-ins menores.

Ok, mas quando vocês estiverem lendo este artigo, todos esses eventos já terão acontecido e o verdadeiro motivo pelo qual estou repassando este calendário é comentar como os brasileiros arrebentaram em Vegas.

Foram vários bons resultados, provando que o nível do poker no Brasil vem só crescendo. Um ano atrás eu conversava com o Leandro Brasa, logo após ele ter ficado em 4º lugar no evento #49 da WSOP 2007, sobre a possibilidade de outros resultados como aquele. Ainda, se levarmos em conta que os fields dos torneios da Série Mundial estão ultrapassando a casa dos milhares de jogadores, qual a chance de um brasileiro chegar novamente no topo? Bem, a resposta veio através de fatos. Mas isso todos os leitores já sabem, e chegaremos lá neste artigo. Mas o resumo da idéia é: quanto mais participarmos dos eventos, mais veremos brasileiros no topo.

Pelas minhas contas, há pelo menos uns 70 brasileiros em Las Vegas este ano – muitos marinheiros de primeira viagem, e um punhado de veteranos. A interação entre os dois grupos é uma das coisas que torna este período interessante, e este ano as pessoas me pareceram ainda mais próximas.

Muitos tinham reservas em hotéis diferentes, alguns no próprio Rio, onde a WSOP acontece. Porém, logo após a chegada dos primeiros brasileiros, a grande maioria se mudou para o Venetian. Os quartos são enormes e modernos, e a tarifa para os jogadores de poker fazia valer a pena cada centavo.

Um quarto simples no Venetian deve ter uns 80 metros quadrados, com dois ambientes. Em um deles é possível encontrar uma TV de LCD, frigobar, fax e impressora, uma mesa de jantar e outra para o computador, além de um sofá que pode virar uma cama. No segundo ambiente, duas opções: uma cama king size ou duas camas Queen, com outra TV de LCD (de pelo menos 42 polegadas e programação em High Definition – HDTV). No banheiro, uma banheira e detalhes em mármore, e mais uma televisão (sim, no banheiro). E todo esse luxo custa cerca de 140 dólares a diária. Se você pensar que um quarto assim pode ser tranqüilamente dividido por três pessoas, basta fazer as contas e ver que não é tão caro para o padrão de Vegas.

O Venetian ainda tem a vantagem de ficar na Strip, com a maioria dos cassinos a uma distância em que é possível ir a pé.

Com mais de 40 brasileiros no Venetian, não demorou muito para que alguns pontos de encontro e diversão fossem criados. Um deles é o quarto do Thiago Decano, Felipe Mojave e Marco Aurélio Salsicha. O lugar ficou muito freqüentado porque em cada televisão foi ligado um console diferente. Em uma delas, um WII com competições de golfe; na outra, um Playstation 3 com Winning Eleven rolando quase o tempo todo. Quando todos cansavam de poker, as competições de videogame começavam.

Outro ponto em que era fácil encontrar os brasileiros nos finais de noite era na mesa de craps. O jogo de dados era uma festa para muitos, mesmo aqueles que não colocavam uma aposta sequer, pois havia garantia de risadas e algazarra. Christian Kruel, Omar, Federal, Juliano Maesano, Thiago Decano, Kima, Brasa e Felipe Mojave eram figurinhas fáceis de encontrar por lá, sempre em grupo.

Vocês devem estar curiosos para saber de poker. Já falamos dos hotéis, das diversões e até mesmo da programação de torneios, mas como foram os brasileiros nesta temporada? Vale lembrar que estou escrevendo este artigo antes do Main Event, e mesmo assim já temos muitos destaques.

Na WSOP, temos que começar pelo Giovanni Davids, de Porto Alegre. Ele conseguiu ficar ITM em quatro eventos da Série Mundial. Um desempenho fabuloso, comparável ao dos melhores jogadores da série. Muitos brigam para ficar na grana pelo menos uma vez, e Giovanni conseguiu isso em quatro oportunidades, sendo uma mesa semi-final.

Não muito atrás, Maridu conseguiu chegar na faixa de premiação três vezes, e também foi destaque.

Outro jogador do Sul, conhecido na WSOP como Anderson Silva, quase fez mesa final no evento #49, o mesmo em que Leandro Brasa chegou em 4º lugar no ano passado. Anderson ficou na 10ª colocação, após cair com KK para o chip leader Rasmus Nielsen, que tinha AA. No dia seguinte ele viria a ser vice-campeão, deixando o título nas mãos de J.C. Tran, que conquistou seu primeiro bracelete.

E, como não poderia deixar de ser, o destaque absoluto foi Alexandre Gomes, que trouxe o histórico primeiro bracelete da WSOP para o Brasil!

Mas vamos segurar a ansiedade mais um pouquinho. Quero encerrar este especial falando da vitória do Alê. Primeiro, vou comentar um pouco sobre os torneios disputados no Venetian.

Antes mesmo que eu chegasse a Vegas, Giovanni, Salsicha e Akkari já haviam ficado na faixa de premiação de um dos eventos do Deep Stack Extravaganza. E depois que eu cheguei aqui, pude presenciar vários brasileiros com desempenhos brilhantes.

No dia em que chegaram a Las Vegas, Christian Toth e Marcelos Dabus participaram do torneio de U$1K e arrebentaram logo de cara, pegando 2º e 3º lugar respectivamente. Da mesma maneira, Eduardo Marra na sua primeira noite em Vegas conseguiu o 6º lugar no torneio de U$330 do Deep Stack. Nesse mesmo evento, Rubens Bicalho, o “Bokinha”, de Belo Horizonte, ficou em 4º lugar.  Dias antes, Federal fez mesa final do torneio de Omaha, fechando um acordo entre quatro jogadores. Leandro Brasa também entrou na premiação desse torneio.

Eu entrei duas vezes na faixa de premiação, ambas em torneios de U$540, mas não consegui chegar às mesas finais. De uma maneira geral, fiquei contente com os resultados. No poker, existe uma maneira indefectível de mostrar que seus resultados foram bons, que é vendo o retorno financeiro. Ganhar um único torneio durante este período em Vegas pode representar muito mais do que vários torneios em que você apenas belisca um prêmio por estar na mesa semi-final.

Mas existe outro aspecto a ser levado em conta: para nós, brasileiros, esses eventos são excelentes para dar experiência e “horas de vôo”. Passei por torneios em que dei sorte no início, logo acumulei um stack considerável e pude jogar mais solto. Mas a situação oposta é bem mais difícil: em um torneio com buy-in de U$2.500, que começava com 20 mil fichas, me vi no final do primeiro nível de blinds com apenas 5K em fichas. Por um momento quase desisti. Então parei e pensei: “com blinds 50-100 no segundo nível, eu ainda tinha 50 big blinds, jogar a toalha por quê? Só porque os adversários têm em média quatro vezes o meu stack?” Ainda havia muito jogo pela frente.

Seis horas depois, no intervalo para o jantar, eu estava com 40K em fichas. E eu e o Christian Kruel éramos os únicos brasileiros ainda vivos, dentre os 12 que disputaram o torneio (Eu e CK, além de Cinthia, Rafael Vieira, Federal, Brasa, Akkari, Kima, Decano, Omar, Firaz e Thiago Boita). Foi preciso muita paciência para passar um longo tempo dando fold, e entrando nas mãos com agressividade e reraises. Acabei sendo eliminado desse torneio após jogar mal um AK, quando encontrei KK pela frente. Pareceu-se bastante com a mão que me tirou do LAPT – Rio, em que também fiz um overplay com AK (preciso me lembrar de evitar confrontos grandes com essa mão).

Uma das maiores vantagens das estruturas “deep stack” é poder treinar nas várias fases de um torneio. Reparei que muitos brasileiros vêm dominando as fases iniciais, mas as dificuldades surgem quando os blinds estão mais altos, perto de 1K-2K. Neste ponto, eu mesmo senti dificuldade em alguns eventos. O segredo nesta altura é soltar o braço; o que me faz voltar ao Alê Gomes e ao bracelete.

O que poucos sabem é que, no dia anterior à mesa final, no momento da bolha do torneio, Alê estava abaixo da média com pouco menos de 30 mil fichas. Naquele instante nada estava garantido e Alê, com muita coragem, foi de all-in com 99, e deram call com AQ. Um 9 no flop dobrou suas fichas e o fez entrar bem na primeira faixa de premiação. A coragem para colocar todas as fichas no centro, faltando apenas um jogador cair para estourar a bolha, é fator determinante para se formar um vencedor.

Essa coragem apareceu em várias outras mãos em que Alê, sem medo de ser feliz, dava reraises nos adversários – muitas vezes sem jogo algum. Quem assistiu o seu caminho até a mesa final pôde comprovar um jogo quase sem falhas. Algumas pessoas no Brasil ficaram sabendo de certas mãos nas quais a sorte sorriu para o Alexandre na mesa final. O que poucos sabem é que, antes de chegar lá, poucas vezes ele tinha colocado seu stack inteiro em risco. Vimos esse brazuca jogar um poker de primeiro mundo, e boa parte do tempo na mesa do adversário contra quem acabaria fazendo o heads-up decisivo, Marco “CrazyMarco” Johnson.

Acho que a pior parte foi passar para  a mesa final e ter que esperar até o dia seguinte. Porém, recarregar as baterias era fundamental.  E nesse dia decisivo para o Brasil lá estava eu novamente assistindo, dessa vez fotografando a final table. A emoção no ar era gigantesca. “Rádio” ajudava a passar as mãos via nextel para a cobertura no Brasil, o Poker News também estava por lá fazendo a cobertura, e havia muitos brasileiros passando pelo local e torcendo. Era uma situação curiosa, pois muitos estavam disputando outros torneios. Federal no Omaha; Akkari, Juliano, Mojave e Brasa no HORSE. Ainda assim, a cada intervalo, todos lá assistindo – a energia positiva era incrível.

E na mesa final a sorte ajudou. Quando restavam cinco jogadores, uma mão decisiva: Alexandre vai de all-in pré-flop com 67, e o adversário paga com AQ. As primeiras cartas do bordo já pareciam acabar com o sonho: A-Q-x. Dois pares para o oponente. Para ganhar a mão, apenas duas cartas de espadas seguidas, ou dois seis ou dois setes seguidos. O turn trouxe um 6; o river, outro 6. E a trinca improvável quebrou os dois pares! A torcida foi à loucura!

Os momentos entre a eliminação dos adversários e o heads-up decisivo foram tensos. Alê estava com mais de 6 dos 9 milhões em fichas em jogo. Parecia fácil? Não existe batalha fácil. Ainda mais contra “Crazy Marco”, na WSOP, valendo um bracelete. Trinta minutos após o início, Marco já tinha virado e chegado aos 6 milhões em fichas.

Nada parecia dar certo, até que aquela coragem de que falei entrou em jogo. Alê subiu pré-flop com J3. O flop trouxe T-8-K e ambos deram check. No turn, uma Q. Alê apostou e Marco apenas chamou. No river, uma carta de paus abrindo chance para seqüência e flush na mesa. Marco dá check. Alê conta seu stack e decide apostar o seu all-in de mais 1,6 milhões em fichas. Crazy Marco pensa por um longo tempo, faz perguntas para Alê (que não as responde) e acaba dando fold. Pensem bem: todas as suas fichas no meio da mesa em um blefe puro, valendo um bracelete. Para completar, Alexandre mostra suas cartas e coloca Crazy Marco em tilt – momento de alívio para o Brasil e de extrema coragem de Alê.

Pouco tempo depois, a mão milagrosa. Alê vai de all-in com AT, com cerca de 3 milhões. Marco chama instantaneamente com AA. A torcida tenta acalmar Alê, dizendo que ele fará uma seqüência ou acertará dois dez.  O flop traz o primeiro T e um J, junto com uma terceira carta baixa. Em coro, a torcida começa a dizer em voz alta: “DEZ! DEZ! DEZ!” E no turn: “DEEEZ!!!” O salão da WSOP se assusta com a gritaria que começa. Com este T no turn, Alê vira o heads-up decisivo e Crazy Marco, que tinha no AA a certeza de ter faturado o bracelete, fica desolado e desorientado. Tanto que apenas alguns minutos depois vai de all-in com JQ apenas para encontrar Alê Gomes com AK chamando imediatamente.

O flop trouxe 2-3-4. O turn, um A. Apenas um 5 poderia empatar o pote. Mas nessa hora não havia mais jeito. A torcida já pulava comemorando, e o river só confirmou: o primeiro bracelete da WSOP é nosso! Ou melhor, é de Alexandre Gomes, do Brasil! O primeiro sul-americano a levar para casa o tão sonhado prêmio da Série Mundial.

A energia era fabulosa, e conter o choro era difícil. Quatro anos depois de começar a jogar, pude ver a história sendo escrita diante dos meus olhos. Tive ainda mais orgulho de ser brasileiro e ver nossa bandeira estendida atrás do campeão.

Parabéns, Brasil, pela linda temporada em Las Vegas. Que cada vez mais os brasileiros mostrem ao mundo que nós podemos ser os melhores naquilo que nos dedicamos a fazer bem.


VENETIAN

Algumas dicas que poucos sabem:

- as piscinas do Venetian são simplesmente fantásticas. Uma delas fica no 4º andar, e tem algumas áreas incríveis, como a parte rasa, onde as cadeiras (espreguiçadeiras) ficam dentro da água, e você toma sol parcialmente mergulhado. Outra atração dessa área da piscina é o Tao Beach Club: um espaço reservado (mas aberto a hóspedes) onde fica tocando música eletrônica o tempo todo, tem vários sofás e cabanas, e mulheres de topless. Nos finais de semana costumam rolar festas e, para entrar, basta solicitar na recepção que seu nome seja incluído na lista.

- Se você prefere menos agito, no 10º andar existe um local mais exclusivo e reservado: a torre conhecida como Venezia, onde há uma piscina em um jardim interno. Como poucos conhecem esse espaço, acaba se tornando uma opção interessante. O ambiente é maravilhoso – o único defeito é que o sol só bate depois das 10 horas (mas que jogador de poker acorda antes disso?).

- quando você se inscreve nos torneios do Venetian, ganha o direito de trocar o seu comprovante de inscrição por um cupom de 10 dólares que é válido nos restaurantes da praça de alimentação. Com esse dinheiro você pode almoçar sem dificuldades.

- se for jogar cash games em vez de torneios, não se esqueça de pedir ao “floor” (nome dado ao funcionário da poker room que lhe encaminha para as mesas) para passar o seu cartão pelo computador para contar o seu tempo de jogo, ou “clock in”. No final do dia, peça para ele fazer o “clock out”. Em uma mesa $2-$5 você consegue receber de volta cerca de $2,50 por hora em “comps”. Ou seja, em um dia com uma sessão de 10 horas, você pode ganhar até U$25 que pode ser usado para refeições, descontos na conta do seu quarto ou até mesmo ingressos para shows. Para pagar as refeições na poker room basta entregar o seu cartão de jogador. As bebidas são de graça, inclusive as alcoólicas, como vodka com red bull. Você só dá uma gorjeta de um dólar à garçonete (às vezes nem isso).

- se quiser ir a uma das baladas do Venetian, a TAO é a mais badalada, e funciona de quinta a domingo. Solicite ao “concierge” para colocar seu nome na lista, se não for assim, entrar será quase impossível. Detalhe: não custa nada, é só pedir.

- o Grand Lux Café, apesar do visual meio retrô, é a sua opção para comida 24 horas por dia. Eles têm uma grande variedade de opções, desde entradas criativas (e deliciosas) até pratos que vão desde sanduíches, passando por saladas, carnes, massas e peixes. Ou seja, tem para todos os gostos.

- para quem quiser malhar enquanto estiver hospedado no hotel, há uma academia no 4º andar, chamada “Grand Canion Spa”. O problema é que custa U$35 por dia, ou U$115 o pacote de cinco dias. Porém, percebemos que dá para passar direto pela recepção, descer e malhar, contanto que não precise de professor. É uma boa maneira de se manter a forma, ainda mais aqui, onde todas as porções de comida são gigantescas e você passa uma boa parte do dia sentado, jogando.




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