EDIÇÃO 112 » MISCELÂNEA

Doug Polk x Patrik Antonius (Aussie Millions High Stakes Cash Games 2014)


Redação

A cada mês, um renomado profissional do poker nacional analisa uma mão entre duas feras do poker mundial. Nesta edição, Felipe Boianovsky, especialista em cash games, analisa uma mão da modalidade entre o fenômeno norte-americano Doug Polk e a lenda finlandesa Patrik Antonius. 

Doug Polk – $471.000 (7♠4♥)

Patrik Antonius – $667.000 fichas (8♥6♦)

Blinds: $1.000/$2.000 com ante de $250

PRÉ-FLOP

Todos os outros seis jogadores dão fold, do small blind (SB), Doug Polk completa. Patrik Antonius pede mesa do big blind (BB).

Felipe Boianovsky: Em um jogo com ante, o SB tem pot odds (aproximadamente 5 para 1) muito boas em um limp, tendo que pagar meio blind em um pote que já tem 2,5 bbs, contra um range de 100%, já que o BB não agiu ainda. Por isso, até uma mão aparentemente tão fraca, como 7-4o, ainda ser lucrativa ao entra de limp. O único detalhe é que, às vezes, ele precisa dar limp com mãos que seriam fortes suficientes para jogar aumentando, assim ele protege o range de limp e tem mãos suficientes para se defender contra um raise do BB.

Flop: 7♣ 5♣ 4♦ (Pote: $6.000)

Doug pede mesa. Patrik aposta $6.000, e Doug paga.

Felipe Boianovsky: Doug opta pelo check-call, o que é bem curioso — uma linha diferente do que a maioria dos jogadores tomaria nessa situação. Esse é um bordo em que Doug deve pedir mesa em uma frequência relativamente alta, pois além de muito dinâmico (o nuts muda no turn e river muitas vezes), o que faz com que o jogador fora de posição tenha que jogar com mais cautela, é um bordo que favorece um pouco mais o range de Patrik, pois ele daria raise pré-flop com todas as broadways, o que faz com que a frequência que ele acerte alguma coisa nesse flop mais vezes do que Doug, que ainda pode jogar de limp com mãos como K-J, e por isso terá mais combinações de mãos que não parearam e nem acertaram um draw. Assim, algumas vezes, Doug precisa dar check com mãos fortes também, para proteger o range de check, já que ele terá vários combos de mãos não pareadas que precisam ir de check-fold.

Observem que os dois jogadores têm mais de 230 bbs, ou seja, em um pote sem aumento, o SPR (stack to pot ratio, ou relação entre o pote e stack) é enorme. Isso faz com que balancear o range seja ainda mais importante, para que existam mãos fortes em seus respectivos ranges em todos os tipos de bordos. Com dois pares, Doug tem uma mão forte, que fica nuts em algumas dobras no turn, para colocar no range de call. É uma mão que caso jogue de raise no flop, ficará em situações ruins no turn e river em uma frequência muito alta (qualquer carta de paus, 3, 6 ou 8), em um pote muito inflado e fora de posição, além de perder para dois pares maiores até o river algumas vezes, o que tem bastante relevância em uma jogada tão forte como o check-raise no flop e apostas no turn e river. Além disso, com dois pares, ele não se importa em deixar que o Patrik acerte um top pair, com duas overcards, por exemplo — e esse é o maior diferencial entre dois pares e top pair, já que ele apostará mais vezes com top pair, protegendo sua mão e fazendo overcards desistirem.

Turn: 5♥ (Pote: $18.000)

Doug aposta $5.000. 

Felipe Boianovsky: Doug sai apostando cerca de 30% do pote. Essa é uma jogada muito comum atualmente. O 5♥ é uma carta muito melhor para o range de Doug, já que ele vai de check-call no flop com a maioria dos Cincos. Caso ele pedisse mesa, Patrik poderia até apostar, mas na maioria das vezes, ele também pediria mesa, controlando o pote e usando um possível par médio de bluff catcher nas próximas streets. 

Ao sair apostando, Doug usa uma jogada que chamamos de “range play”, que é dar lead com todo o seu range, mas com uma aposta pequena. Isso substitui o check e tira a opção de Patrik dar check-behind e realizar a equidade de sua mão, por exemplo, segurando duas overcards.

Patrik aumenta para $23.000. 

Felipe Boianovsky: Tendo sequência, Patrik tem que dar raise turn. Ele perderia muito valor caso optasse pelo call, já que a parte do range de Doug para a qual ele está perdendo (full houses) é de menos de 3%. Grande parte das vezes, ele estará enfrentando uma trinca, pares ou draws.

Doug paga.

Felipe Boianovsky: Contra o raise do Patrik, Doug poderia optar pelo fold, mas tendo os dois pares bloqueando os fulls, que compõe grande parte do range de raise por valor do Patrik, ele opta por dar call, usando o par de Setes como bluff catcher.

River: Q♠ (Pote: $64.000)

Doug pede mesa. Patrik aposta $90.000.

Felipe Boianovsky: O river é um blank, ou seja, não muda nada a situação da mão, já que não acerta o range de nenhum dos jogadores envolvidos. Patrik sabe que ele continua tendo a melhor mão na maioria das vezes, além de um range polarizado (mãos muito fortes de valor e blefes sem valor de showdown). Ele opta por fazer uma overbet de 1,5 vezes o pote, o que é uma ótima estratégia nessa situação.

Doug aumenta para $302.000.

Felipe Boianovsky: Diante de uma overbet, Doug tem a melhor mão do seu range para transformar em blefe. Ele está bloqueando todos os possíveis full houses (com exceção de um raro Q-5), o que diminui a frequências destes no range do Patrik, mas, por outro lado, aumenta o número de sequências e trincas na mão do finlandês, que são as piores mãos do seu range de valor, e que irá desistir consideravelmente.

Patrik, por sua vez, enfrentando um check-raise no river, agora tem apenas um bluff catcher. Ele não ganha de nenhuma mão do range de Doug que esteja fazendo isso faça por valor. Alguns pensamentos que podem ter passado pela cabeça dele são: o fato do Doug ter dado check-call flop diminui bastante a frequência que ele tem full house, já que, em um pote sem aumento pré-flop, muitos jogariam apostando ou dando check-raise com mãos fortes como dois pares e trinca. O fato do Doug não fazer outro aumento no turn, na cabeça de Patrik, também reduz um pouco os full houses na mão do norte-americano. Além disso, Polk não tem Q-Q e 7-7 no range, pois ele daria raise pré-flop, o que pode fazê-lo pensar que está muito no topo do range para dar fold. 

Patrik dá call e puxa um pote de $668.000.

Conclusão: Mão muito interessante e bem jogada pelos dois. O blefe do Doug pode ser um pouco ambicioso na prática, mas muito bom na teoria, já que ele tem a melhor mão para fazer isso e precisa blefar algumas vezes para balancear seu range quando tiver full houses.

O call do Patrik é muito difícil. Provavelmente, essa é uma mão que deve ter que ser mixada, dando fold algumas vezes e pagando em outras, para que ele defenda seu range não fique muito explorável contra blefes.

É isso aí, galera. Espero que tenham curtido a análise.


FELIPE BOIANOVSKY 

Considerado por muitos o melhor jogador de cash games do Brasil, “lipe piv” tem 27 anos, é instrutor da escola de poker Sensei e regular de cash games NL500 Zoom 6-max no PokerStars. Em 2014, ele venceu o Evento #41 do WCOOP e faturou mais de US$ 130.000. 




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