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Voou baixo - Rodrigo Garrido é o Campeão Brasileiro de Poker 2014


Marcelo Souza
Regularidade. Essa seria uma das boas definições para um profissional do poker. O jogador regular é aquele que consegue resultados constantes e minimiza a variância dentro do jogo. Indubitavelmente, regularidade está intrínseca a Rodrigo Portaleoni Garrido, um dos nomes mais antigos e respeitados do poker nacional. O que eles fez durante a 9ª Temporada da Brazilian Series of Poker, o BSOP, entrou para a história da série.

Nas sete etapas que disputou, ele avançou para o Dia 2 do Main Event em todas. Entre resultados do Evento Principal e dos paralelos, Garrido chegou 23 vezes à zona de premiação e fez sete mesas finais — uma incrível média de 3,3 ITMs e uma mesa final por etapa —, sendo que uma delas foi o heads-up do Main Event da etapa de Natal.

Profissional desde 2009, Garrido é hoje um caso à parte no mundo do poker. Ele já não é mais o típico “grinder” como Caio Pessagno, João Mathias e Yuri Martins, ele é, como o próprio se define, um jogador de poker ao vivo. Impossível? Não para ele. Não para esse santista roxo de 33 anos, o mais novo Campeão Brasileiro de Poker.

MS: Campeão Brasileiro de Poker. Quando você disputou a 1ª Etapa do circuito, em São Paulo, você já planejava buscar esse título? 

RG: Para falar a verdade, não. Veja bem, já tem uns três anos que eu sou um jogador regular do BSOP. Eu tinha, sim, o planejamento de jogar todas as etapas possíveis, como eu sempre faço, mas logo na 1ª etapa, eu consegui incríveis 5 ITMs. Esse resultado foi fator chave para eu me planejar de maneira que eu pudesse disputar o ano durante o ano.

MS: Você terminou o ano com 3.481 pontos, a maior pontuação da história do BSOP. Os dois últimos campeões, “Grow” e “Toddasso” fizeram, respectivamente, 2.585 e 2.430, em 2013 e 2012. A o que se deu essa diferença?

RG: Eu tive um ano muito bom, mas acho que algo que pesou bastante no meu título, foi estudar cada cronograma de cada etapa. Eu sabia exatamente o que eu deveria fazer em cada parada da série para maximizar os meus resultados. Estudei de forma criteriosa cada torneio e evento, o sistema de pontuação, tudo, principalmente, no BSOP Millions. Consegui jogar durante todo ano o meu melhor poker. Em todas as etapas, eu passei para o Dia 2, apenas em uma das sete etapas, eu não consegui pontuar. Então, foram todos esses fatores combinados que me levaram a esse resultado.

MS: Quando o BSOP Millions estava para começar, você já tinha construído uma boa diferença sobre seus adversários. O principal era o Caio Hey. Com o início do Millions, o Igor Marani e o Cristiano “Paraná” mostraram que você deveria se preocupar com eles também. Em algum momento você temeu pelo título?

RG: A todo momento até o último dia. Durante o Millions, O pessoal vinha me cumprimentar pelo título, mas eu sempre dizia: “Ainda não tem nada ganho”. E realmente não tinha, o que esses caras, que estavam atrás de mim, estavam buscando de resultados na última etapa do BSOP não estava escrito. Se eu conseguia um ITM, os três vinham atrás conseguiam um também. Mas eu sabia que se conseguisse manter aquela vantagem dia após dia, o título seria meu. Finalmente, no último dia, com a eliminação do Caio no Last Chance, eu pude comemorar e todo o medo foi embora de vez.

MS: Houve algum momento especial durante a sua jornada rumo ao título do BSOP?

RG: Sim. Fazer uma mesa final de um dos eventos principais. Eu não queria ganhar o título apenas pontuando nos paralelos. Acho que você ter resultados no Main Event é o que dá representatividade ao título de campeão. Então, terminar em segundo lugar no Main Event Etapa de Natal foi espetacular. Ainda que aquela não fosse a última etapa, coroou o meu trabalho de todo o ano.

MS: Antes mesmo do BSOP Millions e da confirmação do seu título, a “vitrine BSOP” já lhe rendeu frutos, o patrocínio do Betmotion. Como foi essa reaproximação?

RG: Bom, eu já havia sido contratado do site em 2011. Fui o primeiro embaixador da marca. Graças a Deus, quando você o serviço é bem-feito, você tem reconhecimento e sempre deixa as portas abertas. Na época, quando não renovamos meu contrato, eu sabia que tinha deixado um porta aberta por lá. Então, neste ano, sentei para o conversar com o Leo Baptista, CEO do Betmotion, e acertamos um novo contrato muito bacana. O Betmotion teve, tem e ainda terá um papel fundamental na minha carreira.
 
E aqui, quero deixar uma coisa bem clara, meu contrato com o Betmotion é um contrato de patrocínio, não um acordo de “cavalagem”. Existem diversos acordos por aí que são apenas de “cavalagem”, ou seja, o jogador tem sua inscrição paga pelo site, mas não recebe salários. Acredito, que o profissional deve buscar sempre modelos de acordo como o do Betmotion, em que ele irá receber, além de buy-ins de torneio, um salário fixo mensal. Isso é muito importante para dar tranquilidade ao jogador.

MS: O título brasileiro, veio para lhe estabilizar ainda mais como jogador. No entanto, nós sabemos a variância que existe na vida de um jogador de poker. Em algum momento, você pensou em deixar a profissão de lado?

RG: Na verdade, sim. Em 2013, quando terminei o ano no prejuízo, bateu aquela dúvida: “Poxa, e se 2014 for igual? E se eu não conseguir sair no lucro novamente?” Eu acho que isso é uma coisa normal. Todo jogador passa por isso. Nesses momentos, é importante ter autocontrole para saber que é normal passar por um período assim, principalmente quando falamos de torneio ao vivo, em que você não consegue colocar muito volume. Mas assim como veio o pensamento, ele foi-se rapidamente. Meus bons resultados no início do ano já levaram para longe a ideia de largar o poker e, agora, com o patrocínio do Betmotion, eu posso jogar ainda mais tranquilo, então tenho certeza que 2015 será um ano bem melhor.

MS: Quando sua filha estava para nascer, você se sentiu pressionado por buscar ainda mais resultados ou ela apenas lhe motivou ainda mais?

RG: É engraçado que até 2013, eu nunca tinha fechado um ano sequer no vermelho. Quem joga poker, sabe o quanto isso é difícil. Quer dizer, desde 2005, eu sempre fechei o ano lucrando, foram oito anos assim. Infelizmente, 2013 quebrou essa sequência. E no início de 2014, minha esposa e eu recebemos a notícia de que a Isabella nasceria. Coincidência ou não, meu começo sensacional de BSOP se deu justamente nesse momento. Então, a minha filha foi uma benção, que me deu o que faltava para eu ser ainda melhor na minha profissão. Todos temos que ter uma âncora, algo pelo o que lutar, algo que faça a vida valer a pena. Sem dúvidas, a minha âncora, meu porto seguro é a Isabella.

MS: E para a família? Hoje ele lhe apoiam, como certeza, mas quando você resolveu largar tudo para se profissionalizar?

RG: Não foi fácil. Eu jogo poker desde 2005, mas só me profissionalizei quatro anos depois. Imagina largar uma profissão na qual você cresceu? Quero dizer, eu trabalhava em um banco desde a minha adolescência, depois, me tornei gerente e então largo tudo para jogar poker? Houve muito preconceito na época, de amigos e familiares, mas, hoje, consegui provar que a decisão foi acertada.

MS: Hoje, discute-se muito no Brasil a questão do imposto nos torneios do BSOP. Muitos defendem que já é inviável para um profissional correr um circuito ao vivo, e com a questão do imposto, isso fica ainda pior. Você concorda?

RG: Nem tanto. Acredito que com a entrada do PokerStars compensou essa inviabilidade. Os fieds hoje estão maiores e consequentemente com mais jogadores recreativos. Isso dá uma vantagem muito grande para o profissional. E eu acredito que é nessa vantagem que o jogador conseguirá lucrar. É claro que se você for pensar em apenas uma etapa, realmente é inviável, mas se você pensar em correr o circuito, como eu fiz neste ano, dá para ser lucrativo, sim.

MS: Durante o ano, na jornada ao título do BSOP, quem foi o jogador que mais lhe incomodou na mesa?

RG: Para mim, os melhores jogadores do Brasil, na atualidade, são Ariel “Bahia”, Thiago “Decano” e João Bauer, mas não trombei muito com eles durante o circuito. Definitivamente, o cara que mais me deu trabalho nas mesas foi o João Simão. É terrível jogar na mesa dele. Você não sabe o que esperar dele, apenas muita ação e agressividade. 

MS: A quem ou a o que, você credita seu sucesso hoje? Como foi sua evolução no jogo?

RG: Acredito que a muita dedicação e estudo, mas principalmente ao período que joguei online. Eu já joguei por diversos times, e foi com os donos desses times que meu jogo evoluiu demais. Foi no Steal Team, tendo coaching com caras como “pitaoufmg” e João Bauer que meu jogo deslanchou. Assim como quando joguei para o Ariel “Bahia” e para o Thiago “Decano”. Inclusive, em 2011, quando fiz uma mesa final na WSOP, eu estava com esses dois no quarto, em Las Vegas. Minha evolução foi impressionante. A gente discutia mãos todos os dias ao voltar para o hotel. Essa é a melhor maneira de evoluir, analisando mãos com caras que você sabe que estão no mesmo nível ou acima de você. E aqui fica a minha dica, caso você queira se profissionalizar: entre em um time. Hoje em dia, eu sei que os acordos para jogar online parecem ruins, já que você joga por porcentagens pequenas, mas não são. Ainda que você receba pouco, o conhecimento adquirido com os treinadores é imensurável.

MS: Qual seu planejamento para 2015?

RG: Com certeza, defender o meu título do BSOP, com a mesma garra e seriedade, jogando tudo desde o início, mesmo que o ano não comece tão mal. E, claro, quero jogar uma reta boa da World Series of Poker. Não foram todas as vezes que fui para Las Vegas que tive a oportunidade de jogar o Main Event, por ser um torneio muito caro, joguei apenas duas vezes, na verdade. Em 2015, quero fazer uma reta boa e jogar o Main Event.

MS: Alguma mensagem para os jogadores da Card Player Brasil?

RG: Se você quiser ser um jogador de poker, corra atrás do seu sonho. Mas lembre-se que não será fácil. É preciso ter muita dedicação, disciplina e principalmente estudar muito. É preciso gastar muitas horas lendo e discutindo mãos. Como qualquer outra na vida, joga poker existe seriedade e dedicação. Não escolham o poker porque você não terá chefe, horário e ganhará rios de dinheiro. Isso é uma ilusão. Por ser uma profissão em que justamente você é o seu próprio patrão, é preciso disciplina e planejamento dobrado.
 
RANKING BSOP 2014
Resultado Final
1 Rodrigo Garrido – 3.481 (—) 
2 Carlos Hey – 2.600 (—)
3 Igor Marani – 2.582 (NOVO)
4 Cristiano “Paraná” – 2.058 (▼1)
5 André Eskinazi – 1.900 (—)
6 Guilherme Chiodi Gomes – 1885 (▼2)
7 Bruno Kawauti – 1820 (NOVO)
8 Bruno de Oliveira Severino – 1820 (▼2)
9 Ricardo Nakamura – 1715 (NOVO)
10 Bob Fraga – 1690 (—)
 



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Ano 8 - dezembro, 2014

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