EDIÇÃO 83 » MISCELÂNEA

Final Table - Carter Gill

Tradução e adaptação: Marcelo Souza


Craig Tapscott

CARTER GILL FAZ LEITURAS AFIADAS PARA CRAVAR O MAIN EVENT DO LAPT

Carter Gill chegou a duas mesas finais da World Series of Poker (WSOP). Ele tem mais de US$ 4 milhões em ganhos (online e ao vivo) e passou os últimos sete anos viajando pelo mundo. Atualmente, ele reside em Medelín, na Colômbia, casou-se e terá o primeiro filho em setembro deste ano.

Evento: Latin American Poker Tour (LAPT) 2013
Jogadores: 1.290
Buy-in: US$ 750
Primeiro Prêmio: US$ 175.070
Colocação:


MÃO #1
Jogadores restantes: Cinco para o estouro da bolha.

Conceitos-chave: Perceber padrões de apostas. Ajustar seu jogo de acordo com o torneio. Hero call.

Craig Tapscott: Esse torneio tinha uma estrutura diferente, certo?

Carter Gill: Sim. Era um torneio turbo em seus níveis iniciais, mas que ficava deep no final. Para o Dia 2, os stack variavam entre 15 e 120 big blinds, o que é uma vantagem para bons jogadores.

O Vilão aumenta para 15.000 do small blind.

CG: Essa é a terceira vez seguida que o vilão aumenta, depois de darem fold até ele. O jogo está muito tight devido à bolha.

Gill é o big blind e tem Q10.

CT: Você acha bom o call de quase quatro vezes o big blind com Q-10 off nessa situação?

CG: Geralmente, sim. Mas esse cara é um jogador de meia-idade, fraco e com tendências bastante agressivas. Uma coisa que sempre faço é jogar em posição contra jogadores ruins, não importa a minha mão. Eu nem sequer considerei o fold aqui.

Gil paga.

Flop: J104 (pote: 34.500)

O Vilão aposta 30.000.

CG: Agora, eu acho que tenho duas opções: call ou all-in. Eu não costumo pagar um raise de 15% do meu stack e desistir depois de acertar o par do meio. Mas acho que a melhor opção é o call. Se eu empurrar, ele deve me dar call com mãos que me derrotam e fold com as mãos que eu derroto, então, ir all-in, basicamente, é blefar o meu valor.
 
Poker é um jogo de informações incompletas e parte da minha vantagem vem de conseguir o máximo possível dessas informações. Aqui, um all-in não me dá nenhuma informação. O que eu preciso está no turn ou no river.

Gil paga.

Turn: 9 (pote: 94.500)

CG: Agora eu tenho um draw para a sequência, mas o bordo também completa o flush e mãos que estavam me vencendo ainda estão. Supreendentemente, ele leva muito tempo para agir. Na minha cabeça, tudo que quero é que ele peça mesa, deixe o river aparecer e que eu possa decidir se eu quero pagar ou não a sua aposta na última street. Mas...

O Vilão vai all-in de 105.000.

CG: Isso me surpreender. É estranho. Por que ele levou tanto tempo para completar a ação? E ele jamais faria isso com um flush ou com K-Q, já que essas mãos têm muito mais valor se apostarem menos.

CT: Então qual é o range em que Vilão está lhe colocando para fazer esse movimento?

CG: É pouco provável que ele acredite que o turn tenha me ajudado e como eu não fui all-in pré-flop, ele não deve acreditar que eu tenha K-Q ou A-J.

CT: Você pegou alguma coisa dele?

CG: Ele me parecia muito calmo. Pessoalmente, com alguém que faz bastantes “hero calls”, tenho notado que as pessoas ficam bem calmas quando estão blefando. Na verdade, qualquer jogador de poker tenta se mostrar relaxado, em um pote grande, quando o outro jogador o está analisando.

CT: Se ele tivesse feito uma aposta por valor, você teria dado fold imediatamente?

CG: Caso ele tivesse apostado algo como metade do pote, eu poderia desistir da mão. E apesar de eu gostar da linha dele com uma grande mão, acho improvável um amador ir all-in no turn com um semi-blefe ou com uma mão que tenha algum valor, mas que de alguma forma está vulnerável. 

CT: Então, o que ele poderia ter?

CG: Ele poderia ter algo como A8x, mãos como o K, draws para sequência e mãos que me venciam, como top pair, dois pares ou sequência. Uma das coisa que acabou pesando foi que, se eu vencesse, teria mais de 200 big blinds para jogar contra os amadores. Então...

Gil paga. O Vilão mostra Q7.

River: 9 (pote: 223.500)

Gill vence o pote de 223.500 fichas.


MÃO #2

Conceitos-chave: Usando blockers em no-limit hold’em. Dando um grande fold com o topo do range. Dar fold depois de fazer uma aposta por valor.
O Vilão aumenta para 60.000 do under-the-gun (UTG). Gil está no button com A10.

CG: O range do Vilão é muito amplo. Não há razão para eu dar fold com uma mão que está dominando a maior parte do range do adversário. Ele é um jogador bom e agressivo.

Gil paga.

Flop: A108 (pote: 193.000)

O Vilão aposta 60.000.

CT: Essa é uma continuation bet (c-bet) padrão?

CG: Sim. É uma aposta pequena e que visa manter o stack-to-pot-ratio baixo. Ele provavelmente está preparando o cenário para uma grande aposta no turn.

Gil aumenta para 140.000.

CG: Faço um aumento pequeno. Isso faz parecer que estou blefando, o que poderia fazê-lo vir com outro raise. 

O Vilão paga.

CT: Qual o range dele depois dessa call?

CG: Ele pode ter duas cartas de ouros e mão como A-X, K-J e J-9, mas que tenham uma carta de ouros. Ele também apenas pagaria com A-K, A-Q e A-J; e também com J-Q. Mãos que não vencem um Ás, como alguns 10-X; K-K, Q-Q e J-J, também estão no range esperando conseguir um showdown barato, caso o bordo fique ruim para mim. Mãos fortes com uma boa equidade como KJ, Q9, QJ e KQ também não querem inflar o pote para não ficar em uma situação difícil.

Turn: Q (pote: 473.000)

O Vilão pede mesa.

CT: Essa carta lhe fará pisar no freio?

CG: É uma carta ruim, que não me fará desistir da mão, mas eu irei jogar com mais cautela. Apostar não é ruim, mas apostar para dar fold, caso ele dê raise, é horrível, mesmo pensando que é a jogada correta se ele fizesse um check-raise. Minha linha preferida é pedir mesa e pagar uma aposta ou apostar por valor no river. Sou adepto de controlar o pote e ir para uma grande aposta por valor no river ou até mesmo fazer um raise, caso ele faça um blocking bet.

Gill pede mesa.

River: 4 (pote 473.000)

CG: Uma carta que não muda o cenário, a menos que ele tenha algo com A-4 e Q-4.

O Vilão pede mesa.

CT: Hora de uma aposta por valor?

CG: Definitivamente, eu tenho que apostar aqui, já que há muitas mãos piores, no range dele, das quais eu consigo valor.

Gill aposta 300.000.

CT: Por que uma aposta tão alta?

CG: Espero que ele pense que eu errei o flush. Eu apostaria um pouco menos se estivesse blefando. Usar o mesmo tamanho de aposta para blefes e valor é um erro que muitos bons jogadores cometem.

O Vilão aumenta para 1.000.000.

CG: É uma aposta bem alta. É possível que ele tenha uma mão forte. Ele pode ter pensado que, depois de pedir mesa no turn, eu não pagaria nenhuma aposta no river, então ele pediu mesa para conseguir mais valor com um check-raise.

CT: Quais tipos de mãos ele tem?

CG: Mãos como A-Q, J-9 e K-J estão no range dele, e elas me vencem. Ele poderia, sim, dar cheque-raise river com A-Q, já que eu pedi mesa no turn. Eu também tenho que pensar que ele pode ter mãos com blockers do nuts (J-J, por exemplo).

CT: Então poderia ser um blefe?

CG: Bem, eu não acho que ele irá blefar com frequência aqui. Ele teria que acreditar que eu largaria uma mão como A-10. E se ele acreditasse que eu não tinha nada, o tamanho da sua aposta seria menor. Em um torneio como esse, em que eu tenho boa vantagem, eu raramente blefarei mãos com valor de showdown. Acho que o mesmo se aplica para ele. Então, se ele tivesse uma mão como Q-J ou K-Q, acho que ele apenas pagaria no river.

Gill desiste. O Vilão puxa um pote de 773.000.

CT: Você descobriu o que ele tinha?

CG: Mais tarde, ele me disse que tinha Q-J e resolveu fazer uma jogada louca no river, já que ele sabia que eu não tinha o nuts. Se era verdade ou não, nunca saberei.  Mas isso é poker, e eu acabei vencendo o torneio. Se ele estivesse falando a verdade, no final, eu ri por último (risos).




NESTA EDIÇÃO



A CardPlayer Brasil™ é um produto da Raise Editora. © 2007-2019. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo deste site sem prévia autorização.

Lançada em Julho de 2007, a Card Player Brasil reúne o melhor conteúdo das edições Americana e Européia. Matérias exclusivas sobre o poker no Brasil e na América Latina, time de colunistas nacionais composto pelos jogadores mais renomados do Brasil. A revista é voltada para pessoas conectadas às mais modernas tendências mundiais de comportamento e consumo.

Sede: Rua Stela de Souza, 54 - Sagrada Família - Belo Horizonte/MG - CEP: 31030-490
contato@cardplayer.com.br
31 3225-2123
LEIA TAMBÉM!×