EDIÇÃO 55 » COLUNA NACIONAL

Rumo à forra prometida

Grandes cravadas demoram, mas chegam


André Akkari

Escrevo esta coluna logo após uma cravada maravilhosa. Acabei de vencer o Sunday Warm-Up do PokerStars, em uma noite na qual eu tive uma das minhas melhores sessões nos últimos dois anos. Além do primeiro lugar em um Warm-Up com 3.500 jogadores, consegui ficar entre os trinta melhores no Sunday 500, entre os dezoito no major de US$162, e em quinto lugar no 6-max de US$162 – que por sinal é bem casca. Foi uma reta online da qual eu vou me lembrar para o resto da carreira.

Apesar disso, o que me levou a escrever sobre este domingo, na verdade, foram os domingos anteriores. Incrivelmente, no Sunday Millions eu fiquei entre os 45 mais bem colocados há um mês, entre os 35 no domingo seguinte, entre os 30 há duas semanas e, na edição da semana passada, acabei caindo em 25º.

Antes que você pense “caraca, que animal! Quantos resultados bons!”, é preciso dizer que a parada não é bem assim, muito pelo contrário. Quem está acostumado a jogar, sabe a raiva que dá chegar tão perto de uma mesa final tão importante, de um prêmio tão alto, e acabar sendo eliminado. Ainda mais como na vez em que faltavam três mesas e eu perdi um all-in pré-flop de K-K para 10-10. Dei adeus a um pote enorme quando um dez bateu no turn. Aquilo me tirou parte do fígado.

Assim é a vida do jogador profissional de torneios. O que nos resta é jogar, jogar e jogar. Tomar bad beats, cair por cima, cair por baixo e por aí vai. Não é nada simples atrelar tudo isso a um planejamento financeiro e psicológico, de modo que você não enlouqueça e ainda colha os resultados nos famosos médio e longo prazos.

Sinto informar, mas eu não trouxe uma solução mágica para este problema. Só me resta dizer: “é assim mesmo”. Vida de jogador profissional é dura, e muito pouca gente consegue viver sob tamanha pressão. Porém, aqueles que conseguem cedo ou tarde colhem frutos magníficos como os que eu tive ontem.

Não existe dor causada por uma bad beat ou por uma eliminação na reta final que se compare ao prazer de uma bela cravada. É somente nisso que o profissional deve se concentrar, no pote de ouro no fim do arco-íris. Tente visualizar as gargalhadas e a feliz gritaria que estão por vir quando o melhor acontecer. Foque naquele telefonema que você vai fazer para sua mãe, sua namorada ou seus amigos, dizendo: “Cravamooos”!

Para que isso aconteça, duas coisas são muito importantes. A primeira delas é gostar do jogo. É preciso amar o poker, independentemente da recompensa. Você deve ter prazer em apostar, dar raises, reraises e ganhar potes enormes. É necessário até mesmo adorar os coin flips. Esse amor pelo esporte, sem se preocupar com o valor da premiação, é o que gera os vencedores. São estes que acabam arrumando uma nota.

Em 2011, Akkari cravou o evento 43 da WSOP, e levou o bracelete mais cobiçado do mundo para casa

O outro fator é gostar de estudar o jogo. É fundamental sentir-se bem ao estudar o poker. E isso quer dizer discutir mãos com os seus amigos todos os dias, sejam eles jogadores melhores ou piores do que você. É entender o que falta para o seu jogo chegar ao ponto de lucratividade imediata. É ter brilho nos olhos ao buscar o melhor caminho para jogar uma mão, e imaginar o que os grandes jogadores fariam naquela situação. Enfim, é tentar enxergar o lado técnico do jogo sem se deixar influenciar pela emoção.

Depois de tudo isso, mesmo que você esteja em harmonia com esses dois aspectos, ainda será preciso aceitar que o jogo tem um fator aleatório importante, e também entender que seus movimentos não serão recompensados imediatamente. E como isso dói.

É doloroso ver o river trazer uma daquelas duas cartas que não poderiam ter batido, tirando de você a chance de ganhar uma bolada, quando restavam meia dúzia de jogadores dentre os milhares que entraram no torneio. No final das contas, se você estiver entre os que sobreviveram ao esquema BOPE dos primeiros fatores, este último aspecto tem grandes chances de fazer você “pedir para sair”.

A boa notícia é que, se você passar por todas estas provas de vida, de amor e de dedicação ao poker, ele vai lhe tratar bem e fazer de você um sujeito muito feliz. Depois da cravada de ontem, é exatamente assim que eu me sinto enquanto escrevo este artigo.




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