EDIÇÃO 44 » COLUNA NACIONAL

Old school x New school

Quem leva a melhor?


Christian Kruel

Em discussões de poker, um dos temas recorrentes é a suposta oposição de estilos entre os jogadores mais antigos e os mais novos. Mas será que essa dicotomia entre velha guarda e nova geração existe realmente? Estilos contrapostos podem ser ambos vencedores? Vamos tentar entender melhor essas questões agora.

Algumas edições atrás, falei de ideologias que insistem em rondar o poker. Eu disse que uma das ideias prontas mais comuns é a de que devemos jogar no estilo oposto ao do adversário. “Para derrotar um oponente loose, temos que jogar tight. E para derrotar o tight, temos que jogar loose”. Estamos diante de um paradoxo: ora, se o tight derrota o loose, como pode o loose derrotar o tight? A partir dessa indeterminação simples, vemos que nem tudo o que se lê deve ser levado ao pé da letra.

A geração que hoje chamamos de “old school” tem sua origem nos anos 1960-70. Eles criaram as bases teóricas do poker moderno. Queriam conhecer e aprender o jogo, teorizar a prática. Conceitos fundamentais como pot odds e implied odds eram desconhecidos da grande maioria dos jogadores, e praticamente não havia livros, artigos ou publicações técnicas sobre poker. Também não existia, no material disponível, a preocupação sobre “como vencer”, especificamente falando.



Aqui, vale a pena abrir um parêntese interessante para diferenciar teoria e prática. A teoria é pontual, estática. Já a prática acontece em forma de fluxo, é fluida. Quando escrevemos um artigo ou um livro, recortamos situações de jogo e usamos como exemplo. Em meio ao processo contínuo que é o jogo numa mesa, congelamos um momento e o analisamos. Às vezes fora de contexto. É assim que as teorias do jogo são construídas. Um artigo seleciona um ou dois momentos pontuais para explicar um conceito. Um livro reúne mais momentos, explica mais conceitos e constrói suas teorias.

Porém, apesar de a teoria ser composta pela soma de momentos pontuais, nem sempre isso representa exatamente o que acontece no fluxo do jogo. O jogador da old school desenvolveu seu jogo no fluxo, não na pontualidade. Eles têm maior dificuldade em raciocinar de maneira pontual, tornando-se vulnerável num ambiente em que é preciso agir em muitas mesas ao mesmo tempo, por exemplo. Ao entrar em muitas mesas, o jogador perde esse fluxo e se vê obrigado a raciocinar em termos pontuais. Esse é o calcanhar de Aquiles do jogador da old school. Em casos assim ele se perde e precisa se adaptar.

Já o pessoal da nova geração surge num momento de alta popularização do poker. A eles foi dado um arsenal de ferramentas: livros, artigos, softwares, fóruns, programas de coach, escolas online etc. Essa vasta gama de técnicas de ensino possibilita um aprendizado muito mais sólido do jogo. Sem falar que muitas das teorias são agora construídas para em vencer um determinado tipo de jogo, o que as torna ainda mais eficazes.

O jogador da new school possui uma capacidade infinitamente maior de trabalhar os momentos pontuais do jogo. Isso faz deles competidores fortes em ambientes de muitas mesas. Em contrapartida, eles têm uma capacidade muito menor de perceber o fluxo.

Entretanto, isso não quer dizer que o jogador da velha guarda não se adapte ao pontual, e o da nova geração, ao fluxo. Mas penso que a dicotomia entre "jogo de fluxo" e "jogo pontual", bem como a disponibilidade de material, foram os pilares dessa suposta diferença entre as escolas. Para mim, isso não chega a ser uma contraposição.

Quando eu procuro um exemplo claro para distinguir as duas gerações, não imagino um conceito melhor do que o de "tournamente life", a ideia de sobrevivência no torneio. Ele é muito valorizado pela old school, ao contrário do que acontece com a nova geração.

Vamos supor que você esteja no small blind com ATo e tenha cerca de 15 big blinds efetivos. Sua jogada é dar open-shove, raise/call ou raise/fold? Aqui, os jogadores da new school vão analisar as opções e escolher aquela que der o melhor retorno em fichas, independentemente de terem que enfrentar um showdown ou não.

Por sua vez, o jogador da old school, apesar de fazer o mesmo raciocínio, nem sempre vai optar pela jogada que dá o melhor retorno em fichas. Isso acontece por causa do fluxo. Por não está envolvido em diversas mesas ao mesmo tempo, o jogador da old school consegue analisar melhor a situação como um todo e perceber que determinados torneios são eventos isolados. Neles, não existiria o "longo prazo". Em casos assim, é muito comum vermos a old school optar pela alternativa que traz mais fichas com fold equity e sem showdown. Ainda que isso represente ganhar menos fichas num momento pontual, no fluxo ela representará uma chance maior de sucesso nesse evento único, em que não há "long run".

Tudo o que conversamos aqui serve para evitar rotular a nós mesmos e os outros como “old school” ou “new school”. Dessa forma aprenderemos a jogar melhor, tanto no fluxo quanto pontualmente. O ato de aprender é ainda muito pouco explorado. Pouco se fala em metacognição nos dias de hoje, e a diversidade de formas de se aprender o jogo é essencial para que a gente capte todos os seus detalhes.

Artigos e livros, coaches e escolas, enfim, todos esses processos são importantes. Eles trabalham diferentes áreas do nosso cérebro e ajudam a solidificar os conhecimentos adquiridos nos estudos. O poker ainda é um jogo em desenvolvimento: novas jogadas e novas teorias surgem quase todo dia. Manter-se bem informado é fundamental para fazer frente aos bons jogadores, principalmente os que superaram essa oposição entre as escolas, os chamados "pós-new school". Aprendam com esses jogadores, pois eles vêm grindando muito bem tanto na pontualidade quanto no fluxo!




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EDIÇÃO 44

Ano 4 - março, 2011

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