EDIÇÃO 35 » ESTRATÉGIAS E ANÁLISES

Acredite no que eles fazem, não no que eles dizem

Ações falam mais alto do que palavras


Steve Zolotow

Falar faz parte do poker. Você pode e deve falar qualquer coisa (com algumas exceções) para fazer seus oponentes cometerem erros ou jogar mal. Eles provavelmente farão o mesmo com você. Quando um jogador faz um comentário, trata-se de uma ação voluntária. Ele escolheu dizer algo. Portanto, é bem possível que seu comentário se destine a confundir. Ele pode tentar fazer isso mentindo ou dizendo a verdade. Pode ser uma tentativa de lhe confundir criando uma distração ou uma ilusão. Mesmo que você “inicie o contato” fazendo uma pergunta, seu oponente ainda tem a opção de responder ou não e de como responder, e, geralmente, essa decisão tem o intuito de induzir erros. Decifrar o significado das afirmativas dos seus oponentes é mais uma arte do que uma ciência.

Certa vez, meu oponente foi all-in e, enquanto eu pensava, falou: “Se você der call, eu vou lhe mostrar o nuts, mas se der fold, vou lhe mostrar um blefe”. O que ele tinha? Eu não sei ao certo. Eu dei fold, mas ele não me mostrou nada. Eu concluí que isso significava que ele não estava blefando, mas você nunca tem plena certeza. Talvez a afirmação dele tenha funcionado tão bem que ele quisesse utilizá-la mais tarde.

Como as afirmações dos seus oponentes são voluntárias e destinadas a lhe confundir, é geralmente melhor focar em comportamentos que são involuntários e difíceis de controlar. A famosa dançarina Martha Graham certa vez disse: “O movimento nunca mente. Ele é um barômetro que diz o estado da alma para todos que conseguem lê-la”. Seu oponente não tem nada a dizer. A posição corporal e os movimentos dele não estão muito sob controle. Ele precisa olhar para algum lugar. Ele precisa colocar as mãos em algum lugar, e em uma posição específica. Ele deve ter algum tipo de postura, e as pernas e pés dele devem estar em algum lugar. Para a maioria dos jogadores, é fácil jogar durante muito tempo sem dizer nada, mas é impossível jogar durante muito tempo sem fazer nada. Um jogador precisa pegar suas cartas, olhas para elas e colocá-las em algum lugar se for jogar. Depois, ele tem que pegar algumas fichas e colocá-las no pote. Ele tem que respirar. Jogadores não são máquinas. Seus oponentes não vão executar todas essas ações da mesma maneira toda vez. As diferenças na maneira como um jogador executa essas tarefas rotineiras podem ser seu melhor guia para saber o que ele tem.

Há vários jovens especialistas online que são muito bons no jogo altamente calcado na probabilidade ou na matemática do poker, mas que pode ser mudado o suficiente para capitalizar sobre as fraquezas de qualquer oponente. Eles são capazes de fazer isso em diversas mesas ao mesmo tempo. Parte de sua eficiência vem de dar pré-fold em mãos com que não querem jogar, de modo a poder se concentrar nas mãos que vão jogar. Alguns deles resolvem tentar jogar live usando as mesmas técnicas. Infelizmente, isso não funciona. Logo se torna claro para qualquer competidor experiente quando tais jogadores apertaram mentalmente o botão de “pré-fold” e quando eles estão prontos para jogar. Vários anos atrás, em um dos primeiros eventos de hold’em da World Series of Poker, eu estava sentado à direita de um jogador assim. Ele jogava bem suas mãos. Suas decisões pareciam lógicas e precisas, mas ele olhava para as próprias cartas assim que as recebia. Ele geralmente as segurava com a mão direita, pronto para empurrá-las no descarte. Quando tinha a intenção de jogar, porém, ele as transferia para sua mão esquerda. Sua mão direita começava a buscar fichas para um call ou um raise.

Logo após o primeiro intervalo, uma mão interessante aconteceu. Eu estava no cutoff e ele no button. Alguém deu raise de posição inicial, um jogador deu call e todo o resto deu fold até mim. Olhei para as minhas cartas e vi dois ases. Eu estava prestes a reaumentar quando notei que o jovem tinha passado suas cartas para a mão esquerda. Ele iria jogar. Sua mão direita parecia buscar fichas altas. Ele provavelmente daria reraise. Eu dei flat-call. Minha observação valeu a pena, pois ele deu reraise. Tanto o raiser inicial quanto os outros jogadores deram call, e eu fui all-in. Ele deu call imediato, e os outros deram fold. Ele revelou dois valetes, e ficou chocado ao ver meus ases. Ele tinha achado que não havia como eu ter ases sem dar reraise imediatamente. Ele estava correto, exceto pelo fato de eu saber o que ele faria.

O que se pode concluir com esta coluna é que você deve acreditar no que eles fazem, não no que eles dizem.

Steve Zolotow é um bem sucedido jogador e teórico de poker. Quando não está nas mesas, ele cuida de seus bares em Houston e Nova York.




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