EDIÇÃO 18 » COMENTÁRIOS E PERSONALIDADES

Inteligência Emocional

Consciência de sua consciência


John Vorhaus

Neste momento estou em Moscou, na primeira semana de uma tarefa de seis meses de coordenar os escritores de uma versão russa de Married With Children. O fuso-horário me pegou de jeito, e estou totalmente acordado, surfando canais às 4 horas da manhã. Acabei de passar por uma reprise de um torneio de poker, e me encontrei escutando o profissional irlandês Andy Black descrever de forma bastante cândida sua tendência a explodir em torneios, e os passos que ele segue para impedir que isso aconteça. O que ele realmente está falando é sobre algo chamado “inteligência emocional”, e já que são 4 da manhã e eu não tenho nada melhor para fazer, vou falar sobre isso também.

À primeira vista, inteligência emocional pode parecer um paradoxo, como caos organizado ou memória esquecível. Afinal, inteligência diz respeito ao intelecto, e emoção, ao instinto. Mas para ser um jogador de sucesso, você deve ser capaz de usar seu intelecto para monitorar seu instinto. Inteligência emocional, portanto, é a consciência de sua consciência. Um jogador de poker com alta inteligência emocional é capaz de reconhecer suas forças e fraquezas de forma franca e honesta, com aceitação, e sem entrar em desespero (inteligência emocional também se estende à sua “consciência do outro”: em outras palavras, leituras – mas essa é uma discussão para outra hora). Para lhe ajudar a testar sua inteligência emocional, apresentarei algumas situações de poker, e farei duas perguntas:

Isso já aconteceu com você? Como você se sentiu na hora?



Não há medidores para esse questionário, nenhuma folha de respostas, nem notas. Para passar no teste, tudo que você tem que fazer é responder – mas responder de verdade. Pense muito se essas situações já se aplicaram a você. Se não, parabéns. Mas se estou apontando algo que você já fez uma ou duas vezes (ou mais), peço-lhe para utilizar isso como uma oportunidade para aprofundar a consciência de sua consciência. Faça isso sem julgamentos e sem culpa, porque o primeiro passo para consertamos nossos erros é aceitá-los. Pergunte a Andy Black.

Situação Um: Você está jogando poker online há algumas horas em um MTT, e as coisas não estão indo muito bem. Você fez mais rebuys do que gostaria, e nunca conseguiu construir um grande stack. Não conseguindo deslanchar no torneio, você finalmente foi eliminado – não por uma bad beat, mas por uma má decisão. Agora está tarde, e você está mentalmente exausto. Você sabe que não está jogando o melhor que consegue, mas ainda pode sentir o amargo da derrota, então corre para um sit-and-go ou um cash game e começa a dobrar ou triplicar suas perdas.

Situação Dois: Você está em um cash game e está indo bem. O baralho está sendo extremamente generoso e você está em um ótimo momento. Você se sente ótimo, como se fosse invencível. Não só quer que o sentimento dure para sempre, como está convencido de que vai durar. Como um jogador de golfe que finalmente encontrou a forma perfeita de dar a tacada, você acredita que você “solucionou” o poker. Então empurra com qualquer pequena vantagem que tiver – ou às vezes nenhuma – e acaba perdendo a maior parte do que ganhou.

Situação Três: Você está jogando contra um oponente que sabe ser mais fraco. Ele toma decisões claramente ruins, e você não sabe por que não está levando todo o seu dinheiro – mas não está. Sortudo como é, ele continua jogando de forma horrível e ganhando pote atrás de pote. Quanto mais você joga contra ele, mais nervoso fica, até que sua motivação primordial para jogar deixa de ser ganhar dinheiro, mas fazer o maldito sortudo pagar caro.

Situação Quatro: Você está em um jogo de poker e não consegue sair do lugar. Está mais do que tiltado, mas não dá conta de sair da mesa. Parece ter alguma força sobrenatural (alguns chamam de cola de cadeira) mantendo-o em seu assento. Mais cedo, você achou que iria jogar só até melhorar, mas passou desse ponto agora. Você não vai parar até que esteja quebrado.

Situação Cinco: Você não ia jogar poker. Tinha outras coisas para fazer em casa, no computador ou no mundo, mas algo lhe empurrou para o jogo. Talvez você tenha considerado a escolha entre jogar poker e fazer outra coisa, ou talvez seus pensamentos não tenham chegado tão longe. De qualquer forma, aqui está você, jogando poker, como se isso fosse a única coisa que quisesse fazer na vida.



Alguma dessas situações já aconteceu com você? Como você se sentiu na hora? Lembre-se, eu realmente quero que você pense a respeito desses momentos, articule-os para si mesmo, talvez até que escreva uma frase descrevendo-os. E quando terminar de fazer isso, pense sobre situações que eu não descrevi. Pense sobre qualquer momento em que você explodiu em um jogo de poker, ou ficou tempo demais, ou jogou errado sabendo que estava jogando errado.  Veja se consegue identificar o porquê. Andy Black disse que dedica quatro horas por dia acertando sua mente. O mínimo que nós podemos fazer é investir alguns momentos de consideração, creio eu.

Veja bem, não estou querendo dizer que nos falta controle em geral. Na maior parte do tempo, começamos quando queremos começar, paramos quando queremos parar, e jogamos como queremos jogar. Mas a maior parte do tempo não é o bastante. Poker de sucesso requer disciplina, e disciplina começa e termina com consciência. Quanto melhor você se conhecer, e mais puder pensar em si mesmo com franqueza e honestidade, melhor será seu jogo, absolutamente. A boa notícia é que inteligência emocional é algo que você pode praticar e dominar, como qualquer outro aspecto de seu jogo.



Seja quem você é. Não há nada de errado com isso. Divirta-se com seu poker. Tenha paixão por ele, ainda. Quando estiver se sentindo feliz, vá em frente e seja feliz. Quando estiver para baixo, vá em frente e fique pra baixo. Mas em todas as ocasiões, e todo o tempo, tente observar o que está sentindo. Não se castigue por suas emoções, mas as reconheça, e limite o impacto negativo que elas têm em suas escolhas. O verdadeiro jogo de poker é jogado no nível de sentimentos. Se cultivar sua inteligência emocional, suas habilidades de poker (e de vida) e lucros tomarão conta de si mesmos.

E agora, se me permite, irei tentar dormir. Não tenho muitas esperanças, porque, em minha experiência, o jet lag tem uma perversa e perniciosa vida própria. Mas quem sabe? Talvez haja mais um torneio de poker na televisão. Ou talvez eu vá apenas ter uma longa, boa sessão de pensamento, e aprender algo a respeito de mim mesmo que eu ainda não saiba.




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