EDIÇÃO 10 » COMENTÁRIOS E PERSONALIDADES

JV Encontra um Gênio

Um desejo no poker


John Vorhaus

Quando desci de meu carro no estacionamento do Commerce Casino recentemente, percebi uma lata fechada de bebida energética no chão. Era de uma marca que eu jamais tinha visto antes — Djinn Brand — mas, sendo eu do tipo que “sempre pega um tira-gosto quando a bandeja passa”, decidi experimentar. Assim que eu abri a lata, uma fumaça azul subiu e se transformou na forma de — eu não estou de brincadeira — um gênio flutuante. “Você me resgatou de minha prisão”, entoou ele com uma voz fatigada, como se estivesse lendo um escrito que já lhe fosse muito familiar (ou uma lista telefônica). “Por esse ato de bondade, lhe será concedido um desejo”.

“Um?”, eu perguntei. “O normal não seria três?”
“Tempos difíceis”, disse o gênio. “Estamos economizando”.
“Mas…”
Os olhos do gênio brilharam. “Olhe, amigo”, disse ele, “você quer o desejo ou não?”
“Ok”, eu disse. “Um desejo. Eu desejo…”
“Calma, eu ainda não terminei”. Mais uma vez, ele falou em tom de apresentação monótona: “Para seu desejo, você deve escolher uma, e apenas uma, habilidade no poker”.
“O quê? Você quer dizer como a habilidade de dar reraise blefando no river?”
“Se é isso que você quer, cara. Eu pensaria um pouco mais a fundo”.
“Ah”, eu disse, compreendendo. “Algo que ajudaria globalmente meu jogo”.
“Oh, compreensão intuitiva do óbvio, Cérebro Pensante”. O gênio bateu no relógio impacientemente. “Olhe, o que é que vai ser? Eu não tenho o dia todo, sabe. Eles me encheram a agenda hoje”.
“Tudo bem”, eu disse, “me conceda apenas um minuto”. E, com meu estilo lógico, comecei a pensar sobre o tema e a esmiuçá-lo. Se eu pudesse ter apenas uma habilidade no poker, e realmente possuí-la, o que eu escolheria?



Meu primeiro pensamento foi memória, pois não seria útil ser capaz de se lembrar como determinado adversário jogou com A-Q do mesmo naipe, um ano atrás quando o conheci? Ou mesmo se o gordinho da posição três jamais aumenta blefando fora do blind? Mas eu então percebi que, não importa quão boa seja minha memória, isso seria apenas um padrão de reconhecimento, e padrão de reconhecimento não vale nada sem padrão de execução. Então, eu descartei a memória e desviei minha atenção para jogadas.

É uma excelente habilidade poder fazer boas jogadas. É a diferença entre conseguir bom valor e excelente valor com suas mãos prontas, ou entre perder o mínimo ou perder tudo quando for derrotado. Utilizando meu livro de jogadas avançadas e garantido por um gênio, eu poderia controlar o tamanho do pote, estabelecer o preço para que os oponentes entrassem ou saíssem, aumentar com precisão para adquirir informações, minimizar o risco de mãos frágeis e puxar o gatilho em todas as apostas certas em todos os momentos oportunos. Mas puxar o gatilho não é, em geral, uma questão de força de vontade? Existe uma enorme diferença, Deus sabe disso, entre reconhecer um blefe e ter a coragem de pagar e detectá-lo. Portanto, eu me perguntei: “Força de vontade é uma habilidade?”

Se for, seria algo bastante útil de se possuir. Eu poderia dominar a mesa com minhas apostas intimidadoras e meus moves massivos de fichas. “Para ganhar no poker”, muitas vezes já se disse, “você não pode ter medo de perder”. Coragem, então. Avalanche de fichas. Isso me colocaria no comando — pelo menos até que alguém aparecesse com uma mão realmente grande. Pois coragem de nada vale sem atenção. E se eu pisasse numa mina terrestre sem perceber? Seria uma mina terrestre de verdade, e ainda por cima explodiria. Dane-se a coragem, então. O que eu realmente preciso é de leituras.

Leituras: a habilidade de imaginar a gama de mãos possíveis de seus oponentes, para depois ir diminuindo essa gama à medida que o jogo avança. O dom de tomar a melhor decisão possível baseada nas melhores informações à disposição. Com habilidades mágicas de leitura de mãos, eu poderia sempre saber onde estou pisando. Eu poderia detectar a diferença entre um call com um draw e um call com uma armadinha. Mas seria isso suficiente? Afinal, quantas vezes já não vimos alguém colocar fichas no pote dizendo: “Eu sei que você vai me derrotar, mas eu preciso pagar para ver”? E eles estavam certos. Eles foram derrotados. Mas pagaram mesmo assim. Mesmo que você faça excelentes leituras, eu acho que você ainda precisa ser sensato. Você precisa ver as coisas como elas são.

Obviamente, jogadores gastam muito tempo e energia induzindo os oponentes ao erro, para evitar que você perceba as coisas como elas são. Chamamos esse esforço de imagem, e alguma habilidade nessa área lhe garantiria a manipulação da realidade, de modo que seus adversários rotineiramente vissem as coisas como elas não são. Se imagem fosse minha mágica no poker, eu poderia sempre fazer com que eles seguissem o caminho errado, e isso não seria ótimo? Claro... se eu sempre soubesse qual é o caminho errado.

Isso trouxe meu raciocínio à matemática. Qualquer jogador de poker modestamente talentoso pode calcular odds de cartas e de potes, pelo menos aproximadamente. Mas se a matemática realmente morasse na minha cabeça (como ele mora, digamos, na de Chris Ferguson), eu seria capaz de jogar em todas as situações com o máximo de confiança de que minha jogada era, no mínimo, matematicamente correta. Mas, mais uma vez, a matemática do poker é bastante rotineira — suas chances de conseguir um par de ases nunca mudam — então, se eu posso aprender os números e decorá-los, ou absorver algumas regras fundamentais, provavelmente não preciso gastar meu desejo pedindo habilidade matemática.

Então, o que eu devo pedir? Tantas escolhas…

O gênio estalou os dedos e me tirou de minha nuvem de pensamentos. “Vamos lá, JV”, disse ele. “O que você vai querer?”

Droga, eu pensei, sem parar para me perguntar como ele sabia meu nome. Memória, jogadas, coragem, leituras, imagem, matemática... eu não sei o que escolher. E eu nem cheguei a cogitar psicologia, poder, auto-conhecimento, disciplina, paciência... Droga!

Então, eu fiquei escolhendo... escolhendo... escolhendo…

Bem, o que você teria escolhido? Ou tentar escolher apenas uma habilidade no poker seria o paradigma de um tolo? (Tão tolo, talvez, quanto abrir uma lata abandonada de bebida energética no estacionamento de um cassino local). Pois que não há nada que venha gratuitamente, não há mágica alguma no poker. Você precisa possuir todas essas habilidades, o tempo inteiro, e constantemente procurar melhorá-las ao longo do jogo. Como alguém já disse: “Se você não está lentamente melhorando, você está lentamente piorando”.

Em vez de querer obter desejos concedidos, por que não investir alguma energia na melhoria de seu jogo? Separe-o em todas essas partes que o compõem — e em muitas mais que você consiga conceber. Depois descubra em que você é forte e em que você é fraco. Nas fraquezas, procure se fortalecer. É assim que você aperfeiçoa seu jogo de poker. E então, da próxima vez que um gênio lhe oferecer um desejo, você pode dizer-lhe que não precisa de um.

John Vorhaus é o autor da série de livros Killer Poker. Ele habita o cyberespaço em vorza.com e, no mundo dos blogs, em somnifer.typepad.com. Foto de John Vorhaus por Gerard Brewer.




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