EDIÇÃO 64 » ESPECIAIS

O Retorno do Gigante - O Full Tilt está de volta, para alívio de milhares de jogadores

Está chegando ao fim uma angústia que durou 18 meses. Mundo afora, uma multidão de jogadores ansiosamente aguarda por sua fatia na bolada multimilionária retida nos servidores do Full Tilt. E isso acontecerá – em uma daquelas ironias do mercado – graças ao seu maior rival, o PokerStars.


Brian Pempus
Com as idas e vindas do caso desde a Black Friday, os jogadores de poker online aprenderam a se manter céticos. Em julho passado, porém, o Departamento de Justiça norte-americano, juntamente com o PokerStars, anunciou um acordo de reembolso dos créditos retidos no Full Tilt.

Enquanto solucionava suas pendências judiciais com o governo americano, o Poker Stars adquiriu o ex-concorrente e, com ele, todas as suas dívidas. Parte dos 731 milhões de dólares, valor total do acordo, será utilizada para compensar os jogadores que têm créditos presos no site.

Não resta dúvida de que os eventos da Black Friday foram catastróficos para a comunidade do poker, mas a confiança na indústria vem sendo recuperada passo a passo. Os usuários começam se sentir seguros com o poker online novamente – e reaver o dinheiro preso no site será parte desse processo de cura.

O primeiro rumor de que o rombo seria coberto chegou às manchetes através de um grupo de investidores europeus, o Bernard Tapie. Mas as negociações não avançaram, e logo surgiram notícias de interesse do PokerStars na aquisição. Três meses depois, em 31 de julho, o acordo estava feito. Poucos dias depois, a primeira parcela, 225 milhões de dólares, era paga ao governo norte-americano. E um imbricado processo de reembolso dos jogadores tinha início.

Aqui, você entenderá por que é possível afirmar que o Full Tilt está de volta. Para alívio de milhares de jogadores ao redor do mundo.

POR QUE US$731 MILHÕES?

Esse é o valor total do acordo. Tirando a dívida global de 334 milhões de dólares para com os jogadores, sobram 397 milhões. O advogado que ajudou a compor o acordo do Full Tilt, Jeff Ifrah, afirmou não haver decomposição de custos para explicar por que o acerto chega a quase um bilhão de dólares.

Os US$159 milhões para os americanos, mais US$184 milhões para todas as outras jurisdições, fazem sentido. O restante, porém, “não possui qualquer correlação lógica”, afirma Ifrah. “Como eles chegaram a esse número? Não se sabe. É um valor de comum acordo”.

Em nota divulgada no dia 31 de julho, o Departamento de Justiça informou que esse dinheiro servirá para pagar terceiros interessados que, de algum modo, tenham sido prejudicados pela situação.


O POKERSTARS QUIS REEMBOLSAR OS JOGADORES AMERICANOS, MAS O DJ DISSE “NÃO”

Depois das acusações de Abril de 2011, o PokerStars rapidamente reembolsou os jogadores americanos. O DJ permitiu que a empresa assim o fizesse, e tudo correu bem. De acordo com Ifrah, o PS quis pagar aos americanos novamente – dessa vez, visando a quitar a dívida do Full Tilt.

Se o PS tivesse assumido isso, “tudo teria acontecido muito mais rápido”, diz Ifrah. “Caso o DJ dissesse ao PokerStars para reembolsar os americanos no dia seguinte, eles teriam feito. Estou convencido disso”.

O QUE O POKER STARS GANHA COM ISSO
Ainda que 100% dos jogadores optem pelo reembolso, o grande vencedor é o Poker Stars.
Como parte do acordo, o PS não será acusado nenhum delito relacionado à Black Friday. Isso deve tornar mais fácil o seu retorno aos EUA – algo a que o DJ expressamente faz referência no acordo – desde que o site encontre um estado que lhe conceda essa licença.

Mesmo de forma latente, os Estados Unidos continuam sendo o mercado mais lucrativo do mundo para o poker online. Entretanto, os estados de Nevada e Delaware são, até o momento, os únicos onde o “suffle up and deal” via internet é permitido.

Além disso, em grande parte dos outros países, incluindo o Brasil, o PokerStars marcou o relançamento do Full Tilt no dia 06 de novembro. É nesta data que os jogadores mundo afora poderão tanto retirar o seu dinheiro quanto continuar jogando com seus créditos.

O FIM DA ERA RAY BITAR
O ex-presidente do Full Tilt, Ray Bitar, homem a quem muitos atribuem a responsabilidade pela fraude, finalmente disse adeus à companhia que ele mesmo fundou em 2004 e que acabaria se tornando um dos mais populares sites de poker da história.

Suas finanças, contudo, começaram a desandar no final da década passada. As acusações contra o seu fundador, um sujeito na casa dos 40 anos, podem chegar, caso se confirmem as acusações de fraude, a 145 anos de prisão – sem direito a Rush Poker para passar o tempo.

Bitar permaneceu como presidente da companhia enquanto estava refugiado na Irlanda. Após ser preso no começo de julho e se declarar inocente, ele ainda era o cabeça de uma companhia praticamente morta, o que lhe permitiu assinar a “papelada”, facilitando a venda para o seu ex-rival Poker Stars.

Enquanto Bitar precisa lidar com a possibilidade de passar o resto da vida na cadeia, Howard Lederer, Chris Ferguson e Rafe Furst, que tiveram os nomes incluídos no inquérito civil contra o Full Tilt, ainda estão se resolvendo com a justiça, mas não serão acusados de nenhum crime. Nelson Burtnick, responsável pelo processamento dos pagamentos do Full Tilt, também foi mencionado no processo e ainda aguarda seu destino nos tribunais.


DUAS HISTÓRIAS EM MEIO À MULTIDÃO
Todo mundo que tem dinheiro no Full Tilt foi vítima. Porém, há algumas histórias de maior tensão, contadas por quem possui quantidades maciças de crédito no site.

Quando do fechamento do Full Tilt no ano passado, Daniel Cates, o famoso “Jungleman12”, tinha cerca de sete milhões de dólares presos no site, cerca de 80% de seu bankroll. Ele estava preparado para seguir em frente, independentemente do que acontecesse com sua fortuna presa na finada conta. Cates chegou até a considerar processar o Full Tilt, mas achou melhor não fazer isso, pelo menos enquanto existisse a possibilidade de o caso ser resolvido e ele pudesse ter o dinheiro de volta.

Para o jogador de 22 anos, não se tratava apenas de dinheiro. Ele estava aniquilando a concorrência quando o site foi fechado. “Aquilo acabou com o meu momento”, disse Cates. “O Full Tilt era onde estava o meu sucesso”.

Sua rápida ascensão à elite do poker online o fez chegar ao Durrr Chalenge, então um desafio grandioso promovido por Tom “Durrr” Dwan, à época, patrocinado pelo site. Dwan deu odds interessantes ao afirmar que estaria “no azul” depois de cinquenta mil mãos jogadas em heads-up. Cates aceitou o desafio, e tinha US$ 1,2 milhão à frente do rival ao final de março de 2011. Há quem diga que ele está conversando com Tom Dwan para retomar o duelo.

Apesar do suplício, Cates conseguiu continuar em altíssimo nível, graças ao fato de ter se mudado para a Inglaterra. Ele afirmou que está ansioso para jogar online em solo americano novamente, nas mesas mais caras que encontrar, é claro.

Já Blair Hinkle, um brilhante jogador da nova geração, sofreu com os sucessivos rumores por mais de um ano. No dia do acordo, porém, ele recebeu a melhor notícia da sua vida: que o site onde ele possuía um milhão de dólares havia sido vendido para o PokerStars.

Apesar de ainda estar esperando por mais detalhes, aquilo marcou o encerramento de um ano difícil. “Estou emocionado, em estado de choque. Foi um grande alívio”. O jogador de 26 anos ganhou essa bolada de uma vez só, ao ficar em segundo em um torneio monstruoso realizado em fevereiro de 2011, apenas dois meses antes de o site ser fechado para os jogadores americanos.

De acordo com a acusação, o Full Tilt estava falindo e não tinha recursos para dar liquidez aos créditos que os jogadores tinham em suas contas. Como era de se esperar, nenhum dos esforços de Hinkle para sacar parte do seu dinheiro foi honrado pelo site. Mas, ao que parece, o sol voltou a brilhar também para ele.
 
EU NÃO ME LEMBRO QUANTO TINHA NA CONTA. ISSO PODE SER UM PROBLEMA?
A resposta é “não”, ao menos por enquanto.

De acordo com Ifrah, logo após o acordo, o Poker Stars passou a ter acesso às informações sobre os jogadores nos servidores do Full Tilt. “Pelo que fui informado, a prioridade máxima deles é pegar os dados dos jogadores e assegurar o sigilo durante todo o processo de reembolso, pois uma solicitação teve de ser negada ou reduzida por conta de dados guardados de maneira inadequada", disse Ifrah.

Pelo menos para os americanos, vale dizer que o DJ já tem acesso ao que é devido a cada jogador. Não há indício de que será necessário lembrar-se do quanto tinha ao preencher o formulário de reembolso.

COMO FICA A QUESTÃO DOS BÔNUS DOS JOGADORES?
Ao que parece, o valor devido não inclui apenas os valores constantes das contas, mas também os bônus (FPPs, por exemplo) convertidos em dinheiro.

“A maneira como os cálculos foram feitos incluía um valor para esse tipo de coisa”, segundo Ifrah. “Assim, quando se ouve falar em 159 milhões para os Estados Unidos e 184 milhões para os outros países, esse números já levam em conta o valor dos bônus, pontos e promoções”.

Para os norte-americanos, o governo decidirá qual será o valor extra, caso haja algum, a ser recebido por cada pessoa. O fato é que o dinheiro para pagar aos jogadores está em suas contas.

APROXIMA-SE O DESFECHO

Depois de muito choro e ranger de dentes por parte dos jogadores, está chegando ao fim a novela do Full Tilt. No poker, o caso será sempre de amor e ódio, mas nos negócios o que deve reinar é a seriedade e o comprometimento. Sempre.

Quando muita gente já não acreditava que fosse possível reaver o dinheiro preso no Full Tilt, uma reviravolta hollywoodiana aconteceu, com o Poker Stars no centro das atenções. Como se sabe, poderio econômico, agressividade e senso estratégico são armas poderosíssimas na guerra corporativa. O PS tem consciência disso.

E em meio às batalhas da indústria do poker online – que não são poucas – quem sai vitorioso dessa vez são os jogadores.  Todos. Finalmente, teremos de volta o que sempre foi nosso por direito. Ainda que a custa de muitas noites em claro, o final se encaminha para ser feliz. E é assim que deve ser.




NESTA EDIÇÃO



A CardPlayer Brasil™ é um produto da Raise Editora. © 2007-2019. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo deste site sem prévia autorização.

Lançada em Julho de 2007, a Card Player Brasil reúne o melhor conteúdo das edições Americana e Européia. Matérias exclusivas sobre o poker no Brasil e na América Latina, time de colunistas nacionais composto pelos jogadores mais renomados do Brasil. A revista é voltada para pessoas conectadas às mais modernas tendências mundiais de comportamento e consumo.

Sede: Rua Stela de Souza, 54 - Sagrada Família - Belo Horizonte/MG - CEP: 31030-490
contato@cardplayer.com.br
31 3225-2123
LEIA TAMBÉM!×