EDIÇÃO 64 » COLUNA NACIONAL

Todas aquelas coisas que me fizeram voar


Diego Keep
Pelo título, muitos devem ter imaginado coisas ou pensado em “falinhas”. Mas não é nada disso. Estou me referindo a pontos fundamentais que me fizeram voar – no poker – do ano passado para cá.

Já tenho uma estrada nos feltros. Jogo há cinco anos, sendo mais de dois como profissional em tempo integral. Antes, eu trabalhava como vendedor em uma companhia de telefonia e fazia faculdade, muito embora já ganhasse dinheiro com o jogo regularmente.

Já li alguns livros de poker. E foram os do Dan Harrington que me fizeram entender a matemática dos torneios. Mas eles não foram o divisor de águas (até porque, aqui, isso não existe, considerando que a evolução deve ser constante). Logo depois, passei por várias escolas de treinamento. Assinei duas. Uma com instrutores brasileiros; outra, de estrangeiros. Ambas foram proveitosas. Eu me lembro de que o instrutor que mais me ajudou foi o meu xará, Diego Nakama, o lendário “Nakamator” do Full Tilt. Na época, em 2009, salvo engano, ele deixou bem claro que jogar torneios de poker era saber pilotar stacks. Aquilo foi importantíssimo, muito embora eu tenha uma opinião diferente hoje. Só que ainda não foi isso que me fez ser bem lucrativo.

A primeira coisa foi abrir a minha mente para o fato de que poker não é uma ciência exata, apesar de ser das mais complexas. Afinal, a partir da exatidão matemática, é possível tornar situações complexas em spots fáceis, e situações simples em spots complicados, que exigem teorias avançadas, podendo ser lucrativo de diferentes formas em um mesmo ramo de negócio. Isso, meu amigo, se chama metagame, e é o que determina suas ações. E, mesmo quando não há metagame, pode-se dizer que a sua ausência também é matéria-prima para um novo spot. Louco isso, não? Sim, o poker é um esporte prazeroso, de grande exigência intelectual. Por causa isso, percebi outra coisa que me fez voar em meio a essa loucura: o ambiente de trabalho.

É preciso ter um bom “escritório”, um local para o grind. Esse fator é de suma importância para o sucesso. Não conheço um profissional consagrado sequer que não tenha montado um bom ambiente de trabalho. O jogo exige bastante foco, seja nas mesas, nos estudos ou nos negócios fora dos feltros.  Na maioria das vezes, as decisões têm de ser tomadas rapidamente, e o seu foco será o seu diferencial em relação aos outros jogadores.

Particularmente, gosto de grindar sozinho. Isso me dá mais confiança – sem falar que eu não incomodo ninguém quando tomo três outs no turn, naquela reta final valendo o PIB da Malásia. No apartamento onde moro, reservei um dos quartos para servir de escritório. Fica no 17º andar, o penúltimo da torre. A paisagem é inspiradora, com um silêncio relaxante. O que faz toda diferença durante em um grind pesado de 10 horas seguidas. No condomínio também tem piscina, quadra de futebol e academia. E esse bom ambiente influencia diretamente no bem estar físico e psicológico, peças essenciais para se manter focado no trabalho duro. Da mesma forma que você preza por boas casas de poker live, exigindo delas boa estrutura, você também precisa de conforto para jogar poker online regularmente.

O terceiro fator, crucial, é acreditar em si mesmo. Jamais baseie o seu jogo em relação ao que outro jogador faz. Um time de futebol recebe influência de seu treinador, uma banda de música pode ser influenciada por outros artistas. No poker, porém, esqueça isso. Você pode até admirar alguém jogando, mas não deve querer jogar igual a ninguém. É possível decorar todas as linhas de raciocínio do André Akkari, por exemplo, mas a sua imagem jamais será igual à dele nas mesas. Sempre jogarão diferente contra você. E veja que, ao se chegar a todas essas conclusões, vê-se que uma coisa depende cada vez mais da outra.  É difícil ter um bom thinking level a respeito de um metagame se você não estiver focado ou bem consigo mesmo. Isso não significa, por outro lado, que você deve ignorar a opinião ou a linha de raciocínio de outros jogadores. Na verdade, é aqui que entra o fator mais importante de todos: estudar diversas linhas de raciocínio.

Discuta mãos com bons jogadores, melhores do que você.  Pare de “contar paradas” desnecessárias e tente você mesmo, sozinho, compreender as linhas de raciocínio e a lógica em todas as streets. Tenha consciência de que a sua jogada pré-flop já determina sua ação no river; que a sua ação no turn depende muito do que você fez no flop; e que o seu showdown predefine também suas ações em mãos futuras. Como eu disse, o poker é muito louco!

Depois de desenvolver várias hipóteses sobre a sua linha de raciocínio na mão, bem como a do vilão, só “conte parada” se for com o objetivo de estudar a ação. Tente explicar o metagame daquele momento. Isso é mais importante do que o stack, o buy-in do torneio ou o número de blinds.

Não que se deva ignorar o que um jogador que você julga mais fraco tem a dizer. É importante escutar esses caras também, pois é contra eles que se está jogando e é dali que se vai retirar mais informações para seu banco de dados. É um negócio. Quando um vilão aposta ou dá check, ele está fazendo uma proposta comercial. Cabe a você aceitar, rejeitar ou fazer uma contraproposta, para então saber se a negociação vai dar retorno ou não. Quando se consegue entender aonde o vilão quer chegar, tudo fica mais fácil. E isso vale para um torneio ou uma sessão de cash game. É tudo uma questão de saber negociar para, no final, ver a sua empresa tornar-se a mais bem sucedida.

Corra atrás. Assine escolas de treinamento de poker, troque ideias com jogadores talentosos. Tente levar a eles o que foge ao óbvio para que a discussão vá além do monótono.
Existem inúmeros fatores que podem fazer você se dar bem no poker, ou onde quer que queira chegar, mas fuja dos clichês e ignore as críticas destrutivas. Por outro lado, internalize com todas as suas forças as críticas construtivas, sejam elas advindas de terceiros ou de você mesmo. E esta segunda opção, meu amigo, são as melhores.

Para terminar, gostaria de agradecer à Card Player pela oportunidade de escrever para seus fiéis leitores. É uma satisfação e uma grande responsabilidade fazer parte desta tão respeitada revista.

Diego Keep já ganhou mais de dois milhões de reais jogando poker na internet. Ele é o único jogador brasileiro a chegar por duas semanas consecutivas no heads up do torneio mais tradicional da internet, o Sunday Million.




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