EDIÇÃO 34 » ESTRATÉGIAS E ANÁLISES

Vai que bate? Feeling e níveis de pensamento


André Dexx

Nota do Autor: de antemão, aviso que não sou formado em psicologia, e que toda e qualquer observação feita aqui não tem a pretensão de ser uma verdade incontestável, mas sim uma percepção pessoal.

Na infinita jornada de aprendizado no poker, o ideal é que você encare o jogo como algo complexo e raciocine sobre o processo de aprendizagem que está prestes a invadir, dessa forma, você fica preparado para não pisar em falso. Nesta coluna, vamos conversar um pouco sobre minhas reflexões acerca do “feeling”.

Quem nunca bateu um papo sobre poker com alguém, discutindo determinada mão, e o sujeito acabou a conversa citando o tal do “feeling” como argumento final? Vocês já repararam que os melhores jogadores pouco falam desse assunto? Acho que tenho uma explicação para isso. Vamos tentar enxergar os argumentos sob a perspectiva de dois jogadores de poker com visões e níveis teóricos diferentes. Nessa mão hipotética, acontecem movimentos até a chegada de um river que deixa a ação mais intensa, quando podemos então distinguir os pensamentos do jogador avançado e do casual. O bordo imaginário tem T 6 8, e ambos recebem Q K. Agora vamos observar o pensamento de cada um em separado.

Jogador Casual
Dá check no river com o discurso de que sentiu que o adversário tinha J-9, e que, portanto, não valeria a pena arriscar uma aposta.

Jogador Avançado
Lembra-se dos padrões de apostas em cada street e do histórico, além de ter anotações sobre o oponente.  Ele leva em consideração a frequência de determinados movimentos de seu adversário e dos seus próprios movimentos, para entender como ele provavelmente vai pensar, ficando um passo à frente. Também busca suporte na matemática para saber a probabilidade de o oponente estar com uma mão pior e para avaliar qual das três ações (bet, check ou fold) é o melhor caminho – em caso de aposta, analisa qual o bet size (tamanho da aposta) mais apropriado. Ele conta as combinações de mãos com que estaria ganhando e vê para quais prováveis combinações estaria perdendo. Na situação em questão ele estima, por exemplo, que seu oponente tem dezesseis combinações de J-9, nove de T-8, seis de T-Q (considerando que ele já tem uma dama na mão, o que diminui as combinações do seu oponente), seis de K-T e quatro de K-Q, totalizando 16 combinações para as quais ele perde, 21 que ele ganha e 4 em eles empatam. Depois dessa análise, ele decide o que fazer, sempre com o objetivo de maximizar os ganhos e minimizar as perdas. Ufa!

Na verdade, o processo intuitivo – ou “feeling” – é mais uma teoria entendida de forma inconsciente, uma adaptação daquilo que o sujeito não sabe explicar verbalmente. Essa definição às vezes é confundida, reverberando em situações como “adivinhar a carta que vem no topo do baralho”, por exemplo. Se você é daqueles que acreditam piamente nisso, melhor fechar esta revista e ir ler “O Segredo”.

Certa vez, uma professora de física me disse que sempre que você atravessa uma rua, faz automaticamente o cálculo de “ΔS/ΔT” para saber a velocidade que tem que atravessar sem correr perigo de ser atropelado. Agora imagine quantos cálculos sua mente faz para você chutar uma bola de futebol ou quando está jogando poker.


Nosso inconsciente é capaz de pensar e calcular uma infinidade de coisas ao mesmo tempo. Então, em uma partida de poker, na qual em uma amostra considerável de situações, como o número de mãos de determinado jogador, padrão de apostas, tempo de ação, histórico, tells, a mente calcula e trabalha com tantos dados que poucos jogadores vão saber racionalizar tanta coisa. Portanto, devido à natural incapacidade de acompanhar seus subconscientes, as pessoas argumentam a favor do feeling, que não é nada mais do que a sensibilidade necessária para “entrar na frequência” do outro jogador.

Essa “frequência” pode ser entendida como a lógica com que os jogadores vão fazer as jogadas futuras levando em conta o histórico das jogadas passadas. E quanto maior for o numero de associações, maior será a chance do acerto da previsão do que o jogador vai fazer naquele momento.

Considerando o histórico e o nível de jogo do adversário, determine seu “thinking level”, que é o nível de raciocínio que ele vai utilizar contra você. A partir disso, você terá que utilizar um nível superior para enfrentá-lo, pois ele pensa que você está em nível inferior ao dele. Trocando em miúdos: o oponente acha que você segura uma trinca ou melhor quando você aposta X. Ele pressupõe isso porque, todas as vezes que você segurava uma trinca ou maior, apostou X. Sabendo disso, você, sem mão alguma, aposta X, e o oponente dá fold confiando na própria leitura. Ou seja, você estava se adaptando ao “thinking level” dele, pensando um nível acima.

Como podemos notar, é muito importante a percepção de todos os elementos do jogo. Dominar os níveis de pensamento adequando-os aos oponentes equivale a entrar na mesma frequência deles. Isso é imprescindível para qualquer jogo de alto nível.




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