EDIÇÃO 34 » MISCELÂNEA

O grande jogador é o azarado

Pode até parecer estranho – mas a frase acima é uma das verdades mais legítimas e eternas do poker


Pedro Nogueira

Toca meu telefone. “É da Editora Abril”, diz uma voz feminina. Era a secretária de “K...”, um diretor de redação. “K...” queria conversar comigo. A garota passa a ligação para ele, que atende caloroso e enérgico. “Pedrão”, começa, “estamos lançando uma nova revista aqui na Abril. Na primeira edição, quero uma matéria de poker! Que pauta você me sugere?” Dou um sorriso – ideias não me faltavam. Mas, antes de sugerir, peço algumas informações básicas sobre a revista. “Será voltada para homens modernos e elegantes”, diz ele, “com reportagens de cultura, estilo, fitness, etc. etc.”. Eu já sabia a pauta perfeita. Um perfil do André Akkari.

“K...” nunca ouvira falar em Akkari. Então, conto – sinteticamente – a sua história. “É um dos maiores jogadores do país”, digo. “O primeiro a ser patrocinado por um grande site internacional. Corinthiano roxo. Trabalhava numa empresa de websites. Saiu para jogar poker profissionalmente. Tem mulher e duas filhas. Sustenta a família com o dinheiro das cartas”. Topou na hora: “Ótimo, ótimo! Pode escrever”. Faltava, agora, ver se o Akkari toparia também. A assessoria do PokerStars, Xpress, foi muito ágil (eles sempre são). Fez, rapidamente, a ponte entre o Akkari e eu. A entrevista ficou marcada para uma segunda-feira à tarde, na casa do próprio jogador.

Antes de entrevistá-lo, eu já o admirava por toda a sua contribuição para o poker brasileiro. Ao terminar a entrevista, meu respeito por ele só havia crescido. Mostrou-se um cara simples, divertido, bem humorado e simpático. Ou, melhor: muitíssimo simpático! Só faltou simpatia quando me encerrou, impiedosamente, numa partida de tênis. Seu “tênis de rua”, como ele mesmo define, é duro de ser batido. O estilo é um deus-dará constante: tiro atrás de tiro. Quando acerta a mão, porém, é winner para todo lado.



O leitor há de estar intrigado. E com toda a razão! Se o título da coluna diz que “o grande jogador é o azarado”, por que só estou falando nesta entrevista com o André Akkari? Explico. Acontece que os dois assuntos estão estreitamente ligados. Naquela segunda-feira, ao fim da entrevista, assisti ao vivo o Akkari jogando no PokerStars. Ele dividia a sua atenção entre várias mesas espalhadas por três telas LCD, com 27 polegadas cada. Em menos de 20 minutos, tomou duas bad beats covardes! Numa delas, foi all in pré-flop com AA contra KQs. O vilão fez seguida e puxou todas as fichas. Na outra, tinha 99 e trincou no flop: all-in no turn. O bandido paga, na esperança do flush – e o encontra no river.

Foi só então que explodiu, diante dos meus olhos, a verdade mais legítima, ululante, eterna do poker: o grande jogador é o azarado! Pode parecer confuso. Se parece, paciência. Mas é, de fato, um raciocínio até evidente. O poker é um jogo de habilidade. Ou, melhor, um esporte da mente, como foi reconhecido recentemente por órgãos internacionais. Quanto melhor o jogador, portanto, mais adequadas e inteligentes são as suas jogadas. E um ótimo jogador (caso do Akkari) raramente derrapa; não vai entrar num pote em que a situação, ou as odds, não lhe sejam favoráveis. Por quê? Porque ele ganha na técnica, com moves e outplays corretíssimos. Não precisa arriscar a partida num tiro cego.

Ou seja, o grande jogador dá pouquíssimas bad beats. Afinal, quando ele está envolvido numa parada, as odds quase sempre lhe favorecem. Por outro lado, ele está acostumado a tomar várias na cabeça. Em lances de all-in, seus adversários, normalmente, o enfrentam numa posição desvantajosa. Mas, como a sorte é um fator existente, às vezes essa “posição desvantajosa” acaba virando uma mão vencedora. No turn ou no river.

Falei tudo isso para chegar à seguinte conclusão: se você é “azarado”, fique feliz. Isso significa que é um bom jogador. Hoje, talvez perca. E, amanhã, também. Mas, no longo prazo, certamente será um vencedor. Faça como Escobar, o espanhol, um amigo que encontro frequentemente nas casas de poker de São Paulo. Quando ele toma uma bad beat, infla o peito e diz: “Jogo muito! Jogo muito!” E comemora o azar, como se fosse uma vitória.

P.S.: Se você tem uma opinião diferente, sinta-se à vontade para me escrever no e-mail pedro_nogueira@hotmail.com.




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