EDIÇÃO 27 » COLUNA INTERNACIONAL

Evitando o Piloto Automático na Seleção de Mãos

Não perca oportunidades lucrativas


Roy Cooke

Eu nunca fui grande fã de diretrizes para seleção de mãos. Quando um jogador se compromete com uma estratégia de regra prática, seu curso de ação geralmente é se colocar em “piloto automático de seleção de mãos” e dar fold, call ou raise a depender de como a mão se adequa a sua estratégia preestabelecida. Isso torna o jogo pré-flop muito mais fácil. Você tem pouco espaço para pensar. Mas, ao ficarem bitolados a isso, os jogadores perdem oportunidades quando situações lucrativas se apresentam fora de seus princípios balizadores. Isso também cria um fator de grande previsibilidade que os oponentes observadores podem e vão utilizar contra eles. Essas pequenas vantagens somam muito às taxas de vitória dos jogadores ao final do ano.

Um sábado à noite, eu estava jogando limit $30-$60 no Bellagio, e um péssimo jogador abriu o pote de duas posições antes do button com um call. O cutoff desistiu, e eu olhei para baixo e vi A 6 do button, uma mão que eu normalmente não jogo, e certamente uma que o senso comum quanto a mãos iniciais não me aconselharia a jogar. Embora eu possa jogar com A-x offsuit em posição final para roubar os blinds, eu prefiro A-2, A-3, A-4 e A-5 em vez de A-6, pois mais flops acertam os kickers menores devido à potencialidade de sequência, e o 6 como kicker tende a ser bastante inútil. Mas você deve analisar cada situação de maneira independente e determinar se há potencial de EV [valor esperado] positivo. Jogar pré-flop usando um método “se acontecer isso, faça aquilo” vai lhe fazer perder muitas situações positivas e lhe custar dinheiro no longo do tempo.

Eu refleti sobre a situação. O Sr. Péssimo jogava a maioria das mãos. Se ele tivesse um ás ou um par, aumentaria, então eu sabia que ele não tinha um kicker maior, nem 6-6 ou um par maior, que me deixariam em maus lençóis. Eu também sabia que tinha uma mão melhor que a do Sr. Péssimo, embora outras considerações tenham sido feitas. Quando você joga com uma mão fraca, arrisca ser “alvejado” por trás. Não basta apenas saber que tem uma mão melhor que a do(s) caller(s) na sua frente, ou que é correto jogar com determinada mão: é preciso incluir suas expectativas a respeito dos outros jogadores ainda por falar. E quanto mais jogadores houver, maior o risco de você ser capturado. Nesse caso, eu tinha apenas os blinds para levar em consideração. Ambos eram tight. Eu aumentei, na esperança de que eles largassem e eu tivesse um preço pré-flop de $110-para-$60 com a melhor mão e posição contra um oponente fraco que eu provavelmente derrotaria. Essa é uma situação bastante confortável, mas não era a que necessariamente se daria – os adversários nem sempre cooperam.

O big blind, um bom jogador, deu call, assim como o Sr. Péssimo. Nós três vimos o flop pagando duas bets.


Oba, nada além de lucro! O flop veio 8 6 6, me dando uma trinca de seis e a queda para no nut flush na última carta. Ambos os jogadores deram check, e eu atirei mais uma bet. Ambos pagaram. O 5 veio no turn. O big blind deu check, e o Sr. Péssimo apostou. Eu estava incerto quanto ao que ele tinha. Ele frequentemente dava check com seus draws, então poderia ter um flush. Também poderia estar blefando, ou estar segurando uma mão sem flush que achasse que tinha valor. Ele era um homem difícil de ler, devido a sua ampla gama tanto de mãos jogadas quanto de ideias.

Eu pensei na minha jogada seguinte. Se ele tivesse um flush, eu não iria querer aumentar. Se estivesse blefando, eu queria que ele continuasse a blefar. Se tivesse uma mão legítima que fosse inferior a minha, eu queria aumentar e obter valor. Mas eu também tinha que levar em conta o big blind. Ele poderia ter uma mão que me derrotasse, ou uma com a qual pagaria e me deixaria em maus lençóis. Ele não conseguiria uma leitura de que eu tinha um 6. Eu tinha bloqueados todos os flush draws com meu A, e ele poderia pagar com um flush draw inferior ou um par, mãos com as quais eu queria que ele pagasse, pois o pote não estava lhe dando o preço correto. Um raise provavelmente assustaria esses calls, e ele não daria fold caso tivesse uma mão superior a minha.

Como minha melhor jogada contra a maior parte da gama do Sr. Péssimo era dar call, e eu sentia que o big blind provavelmente também faria isso com uma mão que não estava recebendo o preço correto para continuar, eu decidi apenas pagar. O big blind deu fold.

A Q bateu no river, o Sr. Péssimo deu check, eu apostei e ele pagou. Eu mostrei minha mão, e ele me mostrou K-6 offsuit: ele também tinha flopado uma trinca de seis, com um kicker inferior ao meu.

Como sempre faço, examinei como joguei minha mão, e discuti comigo mesmo se meus raciocínios sobre as jogadas foram precisos, e, caso contrário, por que não. O pote me pareceu um pouco leve. Caso eu soubesse o que o Sr. Péssimo tinha, eu poderia facilmente ter conseguido pelo menos mais $60 nessa mão. Mesmo assim, acredito que meu raciocínio tenha sido correto, com base nas informações que estavam a meu dispor no momento da decisão. E isso é tudo que eu posso cobrar de mim, na certeza de que a poupança para pagar a universidade da minha filha vai agradecer.




NESTA EDIÇÃO



A CardPlayer Brasil™ é um produto da Raise Editora. © 2007-2019. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo deste site sem prévia autorização.

Lançada em Julho de 2007, a Card Player Brasil reúne o melhor conteúdo das edições Americana e Européia. Matérias exclusivas sobre o poker no Brasil e na América Latina, time de colunistas nacionais composto pelos jogadores mais renomados do Brasil. A revista é voltada para pessoas conectadas às mais modernas tendências mundiais de comportamento e consumo.

Sede: Rua Stela de Souza, 54 - Sagrada Família - Belo Horizonte/MG - CEP: 31030-490
contato@cardplayer.com.br
31 3225-2123
LEIA TAMBÉM!×