EDIÇÃO 36 » ESTRATÉGIAS E ANÁLISES

Números: Quem tem medo deles?

Matemática Básica do Poker


Diógenes Malaquias

Nesta edição, vou falar sobre um assunto que dá calafrios em muitos jogadores, mas do qual não temos como fugir para sempre: a matemática do poker. O que está por trás da decisão de dar call ou fold quando nos deparamos com um all-in e não podemos dar raise? Vamos tentar descobrir.

Aqui, vou analisar um cenário em que as possibilidades são apenas de desistir ou pagar, e no qual não haverá futuras ações – por exemplo, você está contra apenas um oponente e ele dá all-in. Escolhi começar do modelo mais simples para trabalharmos com mais facilidade os conceitos básicos. Nos próximos artigos, vou explorar a possibilidade de raise e de ações futuras.

O Basicão

Pot Odds
O termo, velho conhecido nosso, remete à porcentagem de fichas que você tem que colocar no pote para continuar na mão, em relação ao tamanho total do pote. A forma de calcular essas odds é dividindo o quanto você tem que pagar pelo valor total do pote. (valor do call/valor do pote)

Exemplo I: Pote com 900 fichas, adversário vai all-in com 700 fichas restantes. Isso significa que temos que pagar mais 700 para continuar na mão. Logo, estamos colocando 700 em um pote que terá 900 + 700 + 700.  Assim, nossas pot odds são de 700/2300 = 0,3043 ou 30,43%.

Exemplo II: Pote com 2.000 fichas, adversário vai all-in com 700 fichas restantes. Precisamos pagar 700 continuar. Logo, temos 700 / (2000 + 700 + 700) = 0,2058 ou 20,58%.

Equidade
Remete à porcentagem das vezes que vamos ganhar o pote, levando em conta nossas cartas. Perceba que esse conceito é um pouco subjetivo, um cálculo estimado, já que não sabemos as cartas dos adversários. Meu artigo da edição anterior fala sobre range de mãos do oponente, e é um guia inicial sobre como colocar nosso adversário em uma mão para, a partir daí, calcularmos nossa equidade.

Exemplo I: Todos com 100 big blinds, exceto um short stack, que tem 10. A mesa roda em fold até nós, que damos raise do button com AJs. O small blind também desiste e o short stack vai all-in. Já o vimos fazer isso antes com certa frequência, e também já vimos alguns showdowns em que ele mostrava um range fraco como pares baixos, ou qualquer ás. Assim, nosso AJ do mesmo naipe está à frente desse range. Em outras palavras, ganharemos o pote uma porcentagem maior de vezes e temos, portanto, uma equidade superior a 50%.

Para facilitar um pouco nossa vida na hora de estimar a equidade, o famoso jogador Phil Gordon difundiu a chamada “Regra do 2 – 4”. O macete funciona quando resta apenas uma carta por vir: basta multiplicar nossos outs (aquelas cartas que nos fazem ganhar a mão) por 2, e somar mais 2 ao resultado. Logo a seguir veremos um exemplo prático dessa regra.


Tudo Junto e Misturado
O primeiro conceito (pot odds) define a porcentagem de fichas que colocaremos no pote. O segundo (equidade), a porcentagem das vezes que vamos ganhar o pote. Agora pare e pense um pouco: Que cenário matemático precisamos ter para fazer uma jogada lucrativa?

Se você pensou que a equidade deve ser maior que as pot odds, parabéns! É isso mesmo!

Para fazermos jogadas lucrativas e ganharmos dinheiro no longo prazo, devemos ganhar a mão uma porcentagem das vezes maior que a porcentagem das fichas totais que colocamos no pote. Bingo!

Para ficar ainda mais claro, vamos a um exemplo: Todos com 100 big blinds. O UTG da raise de 4 big blinds, dois jogadores pagam. Nós também pagamos, do button, com 9-9. O flop vem 9-5-2 com duas de copas, e o pote tem 16 blinds. O UTG continua tomando a ação na mão e aposta 12 big blinds, os outros dois jogadores também pagam. Nós disparamos um raise de 48 big blinds. Dois oponentes dão call e o turn, com 160 blinds no pote, traz um 8 e completa a possibilidade de flush. Pela minha experiência, nessa situação, quase 100% das vezes alguém tem o flush. Dos dois jogadores que sobraram, um vai all-in com seus 48 blinds restantes e o outro paga. A partir dessa ação eu concluo, com mais certeza ainda, que pelo menos um deles tem um flush. Para decidirmos entre dar call ou não, vamos recorrer à matemática:

• O pote já tem 160 + 48 + 48 = 256 blinds. Assim, nossas pot odds são de 48 / (256 + 48) = 15.79%

• Com auxílio da “Regra do 2 – 4”, podemos estimar nossa equidade. Nossos outs são: acertar um Full House (com três 5, três 2 e três 8) ou um Four (com um 9). Assim, temos 10 outs, totalizando uma equidade de aproximadamente (10 x 2) + 2 = 22%. Porém, pode ser que aconteça de acertarmos um full house, mas perdermos para um four (é raríssimo, mas é possível), reduzindo nossa equidade em um ou dois pontos percentuais, para cerca de 20% ou 21%.

No Fim das Contas
Analisando nossas pot odds e nossa equidade, o correto seria dar call. Pois vamos investir apenas 48 blinds para ganhar 304 blinds. Considerando que ganharemos 20.5% das vezes, isso nos renderá, no longo prazo, pouco mais 62 blinds por pote jogado.

Espero que vocês tenham gostado deste artigo. Críticas e sugestões são bem vindas e podem ser enviadas para o email contato@cardplayerbrasil.com, que o pessoal da revista redirecionará para mim. Até a próxima!




NESTA EDIÇÃO



A CardPlayer Brasil™ é um produto da Raise Editora. © 2007-2019. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo deste site sem prévia autorização.

Lançada em Julho de 2007, a Card Player Brasil reúne o melhor conteúdo das edições Americana e Européia. Matérias exclusivas sobre o poker no Brasil e na América Latina, time de colunistas nacionais composto pelos jogadores mais renomados do Brasil. A revista é voltada para pessoas conectadas às mais modernas tendências mundiais de comportamento e consumo.

Sede: Rua Stela de Souza, 54 - Sagrada Família - Belo Horizonte/MG - CEP: 31030-490
contato@cardplayer.com.br
31 3225-2123
LEIA TAMBÉM!×