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EDIÇÃO 45 » COLUNA NACIONAL

Full house no flop e fold no river

Uma mão curiosa em um torneio ao vivo


Felipe Mojave

Alguns dias atrás, eu estava relendo minhas anotações e encontrei algo interessante. Era uma situação de torneio, em que eu acreditava estar apostando pelo valor, mas acabei ganhando a mão com um fold do adversário no river. Curioso é que, se ele tivesse dado call, venceria. Diante da estranheza dessa jogada, resolvi escrever este artigo e compartilhá-lo com vocês.

O torneio era o WPT Festa Al Lago 2009, no Bellagio. Estávamos ainda no Dia 1, com blinds em 200-400. Um jogador bastante loose, que eu conhecia apenas de vista, aumentou do cutoff. Ele tinha mais ou menos 40 mil fichas. Meu stack era de 55 mil fichas, e eu apliquei uma 3-bet do big blind com 9-9.

Aqui, uma observação importante: mais cedo no torneio, acontecera uma mão em que ele disparou uma aposta do tamanho do pote no river, em um bordo com K-Q-2-2-7. Eu dei call com par de quatros e ganhei. Isso fez com que nossa relação de jogo mudasse radicalmente. Assim, contra ele, passei a aplicar uma estratégia diferente.

Voltando à mão do 9-9, ele deu call no meu reraise e o pote foi para 6.800 fichas. O flop veio A-A-J. Apostei 4.500, ele deu call. No turn, com 15.800 no pote, bateu um 9. “Que Sonho!” Dei check e ele deu check-behind. O river trouxe um K e eu pensei muito antes de pedir mesa de novo. Ele era um oponente jovem, muito perigoso, e apostou 3.500 no river. 1/5 do pote? Muito estranho. Era hora de pensar se eu deveria manter meu plano de dar check-raise no river sabendo que ele apostaria. Resolvi seguir com essa linha e disparei 20 mil fichas, um raise do valor do pote.

Não me lembro de ter visto alguém se remoer e reclamar tanto numa mão. O cara se mexia para todos os lados, falava muito, basicamente reclamando do river. Depois de uns 10 minutos pensando, alguém na mesa pediu tempo. (Apesar de ser uma prática pouco comum em torneios nos EUA, aquele tempo todo de indefinição era realmente um exagero). O diretor do torneio lhe deu um minuto para pensar. No último segundo ele não atuou, o que fez com que sua mão fosse considerada morta. Mesmo assim, ele mostrou toda sua indignação e jogou as cartas na mesa viradas para cima: par de valetes.

Ele simplesmente tinha flopado um full house! E, devido à ação até ali e ao river, chegara à conclusão que sua não mão era boa o bastante, e estaria perdendo para um full maior. Na verdade, não sei dizer se ele chegou a essa conclusão. Tenho para mim que ele não definiu nada e acabou dando fold.

O meu pensamento ali era de que eu estava com a melhor mão, e meu blefe no flop tinha se tornado uma jogada pelo valor. Agora, eu precisava descobrir a melhor maneira de extrair esse valor, já que eu tinha certeza de que ele apostaria no river. O próximo passo era pensar nas mãos das quais eu conseguiria tirar alguma coisa a mais com o check-raise.

De fato, a situação tinha ficado bem complicada para ele. Levando em conta que minha gama de reraise do big blind não era muito grande, resolvi “jogar o jogador”. Abri o range e o confrontei, mesmo fora de posição, pois percebi que ele estava desequilibrado e poderia cometer erros tolos. Eu tinha convicção de estar fazendo uma aposta pelo valor, e sabia que ele voltaria uma 4-bet com mãos como JJ e AK.

Com a aposta forte no river, realmente não tinha mais espaço para nada. Se ele segurasse AJ ou mesmo JJ, nunca iria me voltar a aposta e poderia dar call, claro. A pergunta que ficou no ar para mim, e a mais crucial antes de aplicar o check-raise no river, era “de quais mãos conseguirei extrair valor?” Meu plano era dar check-raise all-in no river se uma aposta média viesse.

Por mais que eu um tivesse um full house, fatalmente seria o pior da mesa, já que o bordo tinha A-A-J-9-K. Mas eu acreditava que ainda estava passando a imagem de blefe. Afinal, demonstrei fraqueza com a linha de “c-bet, check e check”, colocando o pé no freio depois de ter sido agressivo. Com isso, eu poderia tomar call de KQ, KJ, QQ, apesar do Rei no river e do fato de ele se lamentar muito, o que me levava a crer que era grande a chance de ele ter mesmo par de damas. Ainda assim era um range específico. Portanto, analisando novamente a mão, a melhor maneira de extrair valor seria apostando forte no river, mesmo tendo certeza de que ele aumentaria essa aposta.

A verdade é que eu esperava uma aposta muito maior, caso em que eu poderia até dar check-call. Mas com uma aposta tão pequena no river, a mão ganhou uma dimensão totalmente diferente. Se ele fez essa aposta por thin-value, aquele valor apertado, limítrofe, seu fold deveria ter sido mais tranquilo. Se apostou pelo valor mesmo, precisaria ter dado call no meu check-raise no river. É assim que vejo a mão sob a ótica dele.

Por mais estranha que tenha sido, essa mão me ensinou coisas importantes para torneios multitable, principalmente a brutal diferença entre thin-value e value-bet. Além disso, ela deixa claro como podemos nos complicar dentro de uma mão na qual temos dúvidas em todas as streets.

O fato é que o nível do torneio era muito alto, e tanto eu quanto ele tínhamos condição de avançar bem. Eu passei para o Dia 2 e caí numa mesa com Antonio Esfandiari, Jason Mercier e Daniel Negreanu. Este último, aliás, foi meu carrasco numa das minhas piores jogadas até hoje. Depois eu conto essa.

Espero que vocês consigam extrair bastantes informações sobre as várias vertentes da jogada. É uma mão bem complicada, com certeza, tanto que vários jogadores tiveram visões diferentes da situação. Por isso mesmo ela é tão rica.




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Ano 4 - abril, 2011

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